Sinto um nó na minha garganta
A voz treme ao sair
Debaixo da cama os monstros me impedem de dormir
Me sinto só desde criança
Mesmo com gente ao meu redor
Sempre lutei por liberdade, mas ser livre me fez só
(João Vitor Romania Balbino / Pedro Augusto Tofani Fernandes Palhares)
Procurei por uma música que falasse de Monstros, encontrei essa do Jão, não é a minha preferida, mas acho que ela coube muito bem ao momento. Aos que sentem que as noites são mais longas do que o dia, desejo que encontrem silêncio e abraços que te ajudem a encarar e derrotar esses monstros.
Sabe, as noites são todas iguais: são longas, repletas de sombras, com sons que não consigo decifrar. A temperatura oscila, aumentando o incômodo; os medos parecem sempre ficar ao pé da cama, agarrando meus pés em meio à escuridão.
Quando somos crianças, aprendemos que os monstros vivem embaixo de nossas camas, no fundo de nossos armários, nas sombras das árvores ou até mesmo no canto mais bagunçado do quarto. Aprendemos que eles sobrevivem da escuridão, saem quando ninguém está vendo e nos assustam quando nos sentimos sozinhos, aproveitando-se dos medos, dos imprevistos e das incertezas… Ninguém, além de nós, acredita que eles existem.
Se ninguém acredita, há chances de eles não existirem fora dessas paredes.
Um dia nós crescemos e descobrimos que nos armários não existe nada além da nossa bagunça; debaixo da cama só há poeira; lá fora não há nada além de uma imensidão desconhecida; e, no canto do nosso quarto, só resta a bagunça que prometemos organizar e nunca organizamos.
Saber da inexistência desses monstros é tão assustador quanto assumir que, apesar das evidências, eles existem e vivem conosco, assombrando-nos até mesmo em nossos sonhos. Os lençóis sempre ficam mais convidativos em meio ao nosso medo: escondemo-nos de tudo, do mundo, dos monstros e de nós mesmos.
E, pela manhã, levantamos cansados, devastados por lutar em uma batalha contra monstros em que só nós acreditamos, mas que deixam cicatrizes.
Em meio à incerteza, nos levantamos, tentando compreender o que foi ou não real durante a noite. A ilusão de que tudo acabou faz a respiração escapar com um solavanco. O chão frio torna-se convidativo e os olhos se fecham assim que o tocamos, gelado, um verdadeiro despertador para a realidade.
O medo de tudo o que se passou parece se esvair; os passos ganham ritmo, sem se importar com o que ficou jogado pelo caminho, com o frio e muito menos com a incerteza que insistia em se esconder durante o percurso.
De alguma forma, pela manhã, a esperança sempre está mais forte: é quente como o sol que invade as janelas e inunda a sala. E se, porventura, as manhãs forem de tempestade, até mesmo essas ganham um contorno poético.
De manhã, até mesmo os cheiros mais insignificantes se tornam presentes: a terra molhada pelo sereno, o pão queimado no apartamento vizinho, a roupa esquecida na máquina.
As manhãs não duram para sempre…
A esperança parece não gostar muito de companhia. Ao longo do dia, ela vai se esvaindo, desaparecendo, fazendo até mesmo a comida preferida ganhar um sabor diferente. Repentinamente, uma fraqueza parece vir com o vento da tarde; manter-se de pé, sem se perder nos próprios pensamentos, torna-se difícil.
O mundo parece se estreitar a cada volta do relógio e, em consequência, tudo fica mais vagaroso, mais pesado, como se arrastasse correntes. E, quando finalmente a hora de dormir chega, esperamos por ele: o monstro.
Como em todas as noites anteriores, o sono não chega, e tudo o que resta é encará-lo: o monstro que fica ali, bem ao pé da cama, esperando para ser alimentado pelo medo, pelas lembranças e pelo inacabado, obrigando-nos a revisitar todas as probabilidades e incertezas.
E sim, essa é realmente a segunda vez que músicas do Jão aparecem aqui.
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