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Qual de nós?

Escrevo aos que precisam se perdoar, aos que necessitam deixar escapar os soluços e os gritos que travam o peito.


Fui cruel
Sem saber que, entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte, um nó
E quem viverá um lado só?

(Jorge Vercillo, Jota Maranhão)



“Eu só queria poder perguntar: como você tá?”

Foi essa a mensagem que recebi no fim de uma tarde de segunda. Era um número que quase ninguém tinha, em um aparelho que quase não era ligado. Eu estava cansada e ainda era o início de uma longa semana; talvez por isso tenha sido imprudente. Não reconheci o número, não havia foto de perfil e, ainda assim, mesmo achando que poderia ser engano, me dei o direito de continuar a conversa. Afinal, fazia quanto tempo que alguém não me perguntava como eu estava?

A pessoa do outro lado parecia entretida. Digitou por longos minutos e, quando finalmente a frase veio, era curta, indicando que havia apagado mais do que deveria.

“O que aconteceu?”

Me fiz a mesma pergunta. Olhei ao redor e reli a frase. Apoiei-me na mesa da cozinha e tentei entender o que havia acontecido. Talvez eu não devesse ter continuado a conversa; agora eu não sabia o que responder. Comecei a digitar e apagar, mas, antes de conseguir concluir uma única linha, outra mensagem apareceu na tela.

“Desculpe, não deveria ter perguntado. Podemos mudar de assunto, se preferir.”

“Tudo bem, eu só não sabia como responder”, escrevi, me arrependendo de ter enviado a mensagem. Era verdade, mas eu não sabia por qual motivo estava enviando aquilo a um número desconhecido. A resposta veio de forma quase instantânea, em forma de outra pergunta, como se alguém do outro lado realmente estivesse preocupado com o que eu sentia.

“Você quer tentar?”

Sentei-me na cadeira e meus pés inquietos batucavam no chão. Já era tarde e eu acordo cedo. Ao fundo, ouvia-se uma música badalada tocando, uma letra que eu desconhecia. Senti saudades de quando o tempo passava devagar, de quando, mesmo errando, eu tentava buscar respostas.

“Ainda tá aí?”

“Ah, ok. Boa noite, até amanhã?”

Por algum motivo que eu desconhecia, eu realmente queria continuar aquela conversa. Eu não me lembrava de há quanto tempo alguém não se preocupava comigo, uma carência difícil de admitir e, que eu não me dava o direito de sentir. Engoli em seco e me levantei. A resposta não veio rápida. Apaguei as luzes, escovei os dentes e verifiquei as crianças: estavam dormindo. O dia também foi cansativo para elas. Coloquei o trabalho na mochila e fui dormir.

Achei que a pessoa já tinha ido dormir. Me cobri, verifiquei o despertador e apoiei o smartphone na mesa de cabeceira, eu deveria tê-lo desligado, mas o deixei ligado, esperando por uma resposta… Como se fosse mágica, enquanto o apoiava ali, ele vibrou. 

Fechei meus olhos com força e tentei ignorar o instinto de continuar a conversa. Me revirei de um lado a outro da cama; há muito tempo o vazio ao meu lado não me incomodava como hoje. Peguei o aparelho e, como se eu ainda fosse uma adolescente, o escondi por baixo das cobertas. Parecia uma imprudência continuar a conversar com um desconhecido, mas minha vida inteira era uma imprudência, um erro de cálculo, um acaso do destino.

“Você acha que as coisas vão melhorar?”

Não entendi a pergunta. Li e reli algumas vezes. Me endireitei e me senti incomodada. Que tipo de pergunta era aquela? Eu não sabia como melhorar tudo aquilo, eu só tentava me manter de pé, seguindo por elas.

“Você acha que as coisas podem melhorar? Que pode haver mais dias bons do que ruins?”

Eu continuava não sabendo como responder. Queria acreditar que sim, me esforçava para que houvesse mais dias de sol do que de tempestade, que eu pudesse assistir a mais risos do que lágrimas.

“Eu também…, mas parece que nada adianta”

“Você tá bem?” — foi a minha vez de perguntar. Continuei sentada na cama, me concentrando naquela conversa tão estranha ao pé da noite. A resposta não veio, e isso por si só era sinal de que a pessoa não estava bem. “Você quer falar sobre o que tá acontecendo?” , tentei mais uma vez.

“Estou com medo…”

“Tenho medo de não conseguir continuar.”

“Eu não consigo. Aqui dentro tudo continua uma bagunça desde a nossa última conversa. Queria poder voltar no tempo, sinto saudades, ainda não sei responder o que estou sentindo. Não sei viver sem você, sem me sentir culpado, sem sentir como se me culpassem. Desculpa.”

Uma dor estranha alcançou o meu peito. Era só um desconhecido, mas aquela dor era conhecida. Eu não entendia o motivo de estarmos tendo aquela conversa tão tarde da noite.

“Você sabe que é minha culpa. Estava chovendo, a mamãe falou para ir devagar, para ter atenção, você confiou em mim e agora não restou mais nada. Desculpa, desculpa, por favor.”

Me sentei direito na cama e li a frase algumas vezes. A cada vez que lia, um bolo parecia se formar na minha garganta, era como se eu reconhecesse aquele sentimento, aquela confusão.

“Você um dia pode me desculpar? Por favor.”

“Eu desculpo, foi um acidente”, foi tudo o que consegui responder. Não veio resposta depois. Tentei ligar duas vezes, mas o desconhecido não me atendeu. Só me restou tentar fechar os olhos, mas era difícil. Apertei o telefone no peito e me revirei na cama mais uma vez, eu não deveria ter dado continuidade a essa conversa, não deveria ter ligado esse aparelho, mas eu tinha que pagar contas, marcar a consulta no plano de saúde.

O despertador tocou e eu mal percebi. As crianças estavam de pé e o cheiro de pão queimado inundava o quarto. Eu estava atrasada. Joguei o telefone na gaveta do quarto, enquanto me arrumava. O café era passado, a louça ficou abandonada na pia e, de repente, meu peito se inundou pelo riso escancarado, pelas implicâncias bobas e pelos beijos molhados de despedida, às vezes parecia que todas as peças estavam completando esse quebra cabeça, como se não faltasse nada e nem ninguém. As tempestades poderiam existir, mas ali, ali dentro, o sol continuaria a resistir.

O dia foi corrido, entre provas, correção de exercícios e a confabulação de uma sala dos professores cujo café acabou antes do fim do expediente. 

Chegar em casa após um longo dia foi como um milagre, o banho pareceu me trazer à realidade da noite anterior, um vazio estranho tomou conta do meu peito enquanto eu me afogava no chuveiro e sentia subitamente minhas lágrimas se misturarem à água. Eu queria ter esquecido a existência daquele aparelho no fundo da gaveta, mas não consegui e, minha surpresa, o desconhecido havia mandado mensagem novamente.

“Me desculpa por ontem, eu bebi demais. Obrigado por não me deixar sozinho.”

A mensagem tinha sido enviada há poucas horas. Apaguei o fogo do arroz e provei o tempero da carne. Já tinham forrado a mesa e lavado os pratos. Eu continuava sem saber como responder ao desconhecido e talvez ele realmente não quisesse respostas, não as minhas…

“Não precisa fazer isso, esse era o antigo número do meu irmão.”

“Por qual motivo?”

Não era uma verdade completa, eu queria ouvir aquela voz, me certificar que ele estava bem, queria que tivessem feito o mesmo por mim, que me escutassem. Que me escutassem em silêncio, sem a típica frase genérica de que tudo logo ficaria bem. Nada ficou bem. A dor se acomodou, mas ela ainda existe.

“Posso ligar agora?”

Quando o telefone vibrou, eu demorei para ter noção do que estava prestes a fazer. A voz chorosa surgiu do outro lado da linha, em um soluço contínuo. O barulho de algo desabando em meio a um fungar me embargou junto. As crianças montavam os pratos; fiz sinal de que podiam comer sem mim. Fui para o quarto, fechei a porta e me encostei ali, naquela superfície rígida, como se ela pudesse me ancorar. Respirei apertado enquanto continuava a ouvir aquele choro quebrado.

“Ontem foi aniversário do papai. Ele sente saudade de você, da mamãe, de tudo… Eu não queria ser tudo o que restou, desculpa. Fiz tsurus com as crianças ontem, igual você fazia nas suas aulas. Elas querem enfeitar o pátio. Eu contei sobre a lenda dos 1000 tsurus e me perguntaram qual era o meu desejo. Eu não soube responder, engoli o choro e elas me abraçaram como se eu tivesse a idade delas… Eu só queria o colo da mamãe e o seu abraço.”

Ele falava embolado do outro lado da linha e eu começava a deixar escapar meu próprio soluço, meus olhos se fecharam enquanto tentava buscar a concentração necessária para uma voz que começava a se misturar a lembranças.

“Desculpa te incomodar, mas o papai disse que não foi minha culpa. Ele diz que a culpa foi do outro motorista, que ele corria, que ultrapassou o sinal vermelho… Mas eu… Eu estava dirigindo, eu estava parado ali, deveria ter visto na hora em que ele veio em nossa direção.”

Não foi sua culpa, era tudo o que eu queria dizer, mas, ao invés disso, continuei em silêncio ouvindo-o, engolindo meu soluço, me afogando na minha própria dor, querendo que tudo não passasse de uma coincidência.

“Ontem eu quase desisti. Não quero deixar o papai sozinho. Eu te prometi cuidar deles e não cumpri, eu não consigo. Hoje também foi um desses dias. Gosto de dar aula, mas hoje foi difícil levantar, foi difícil resistir. Eu não consegui, espero conseguir amanhã.”

A respiração dele parecia acelerada e, como plano de fundo, eu tinha o barulho da louça sendo lavada. Alguém gritava que estava guardando a comida; um riso em concordância escapou de mim enquanto afastava o aparelho.

Foi tudo o que me deixei perguntar. A resposta demorou a vir, ele parecia processar a pergunta. A respiração pesada parecia querer atravessar os soluços contínuos e embargados.

“Elas querem nunca esquecer do que é importante. Eu tenho medo de esquecer: de esquecer a voz, os risos, o calor dos abraços. Eu tenho medo o tempo inteiro, não quero viver em um mundo onde não me reste nada”

Eu também chorava, principalmente porque, de alguma forma, a frase me era tão conhecida. Estiquei meu corpo para alcançar a bolsa do trabalho enquanto ele se assustava com o que parecia escapar de seus lábios.

“Você também tem medo?”

Respondi enquanto tirava um pássaro em dobradura, amassado, quase esquecido entre as páginas de um livro que estava relendo.

“Para não esquecer o que é importante”, a frase saiu quase como um sussurro morno, era isso o que estava escrito. Uma caligrafia repleta de detalhes, borrada pelo tempo e manchada pelas lágrimas. O tsuru parecia ter ganho vida e escorregou dos meus dedos em direção ao chão.

“Ainda tá aí?”

Tudo à minha volta parecia ter ganho outro ritmo. Engasguei no meu próprio choro enquanto me lembrava, quase em um loop, de como aquele passarinho tinha pousado em minhas coisas.

“O que você tá fazendo?”

“Eu posso me lembrar também?”


Qual de nós
Foi buscar o que já viu partir?
Quis gritar, mas segurou a voz
Quis chorar, mas conseguiu sorrir