Amor, Ansiedade, Crônicas 2026, Minhas Crônicas

A vida é tão rara

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara

(Carlos Eduardo Carneiro de Albuquerque Falcao / Oswaldo Lenine Macedo Pimentel)


Escrevo aos que sentem, sentem tanto que se esquecem de respirar, se cuidem para que possam cuidar do tempo e o aproveitar.


Eu sempre me perguntei o que aconteceria depois que tudo acabasse. Por vezes, busquei nas estrelas respostas para perguntas que nunca fiz em voz alta. 

O que me restaria? 

O que haveria no fim do túnel? 

Como eu continuaria aqui, se o “aqui” já não fosse o mesmo? 

Como o mundo continuaria girando se o meu mundo tivesse perdido parte do que o fazia orbitar?

Desde que essas perguntas começaram a me perseguir, minhas noites se tornaram mais curtas…

Dormir virou algo tão assustador que, mesmo de olhos abertos, eu revisava as probabilidades de algo dar errado. 

De forma irracional, a culpa parecia fazer parte de mim. 

Conforme os dias passavam, comecei uma contagem regressiva. Em vez de contar os dias como uma nova chance de recomeço, meu coração os contava como ‘menos um dia’. Menos um dia com os sorrisos, com as palavras, com os afagos. 

Era tudo o que me restava: os ponteiros caminhando de forma invertida. 

O mundo parecia ter pressa em me provar que eu já não tinha mais tempo a perder. 

Tudo acontecia rápido demais; os passos se tornavam cada dia mais cansados, as crianças cresciam, as palavras iam ficando escassas. 

O silêncio era ensurdecedor, e eu não sabia como reagir. 

Parar o tempo era uma impossibilidade; só me restou o pesar de tentar capturar os momentos.

Tudo era tão insuficiente que não me bastava. 

Sentia-me impotente. 

Tentava correr atrás do tempo, mas ele parecia se esconder de mim. 

Quanto mais eu pensava no que estava perdendo, mais silencioso ficava o mundo. 

É estranho que eu, que sempre gostei de registrar o tempo, agora me sentisse tão incapaz de compreendê-lo. Eu ainda tinha tempo, mas, mesmo assim, era como se uma saudade do que ainda não tinha partido se instalasse em mim, impedindo-me de respirar. 

E então eu passava dias buscando respostas, contando momentos, apertando o coração enquanto escondia meu pranto e o traduzia em sorrisos. 

Eu sangrava o que não conseguia colocar em palavras. 

O mundo desabava por tantos lados que eu não queria ser mais um desabamento. Não havia o que socorrer, não havia o que procurar… Eu ainda estava aqui, sangrando, contando memórias, apertando o peito, gritando em silêncio enquanto tudo tentava me soterrar. 

De repente, não mais do que de repente, o mundo parou de girar e tudo à minha volta pareceu despencar. Até mesmo eu. Não consegui evitar, só me deixei cair.

Eu não esperava que fosse tão rápido, mas aconteceu. 

Não sei explicar se foi um erro de cálculo, uma brincadeira do destino ou um desejo divino: havia acontecido. 

Eu caí, tropecei no tempo, no meu tempo e despenquei antes da hora.

As palavras pareciam ecoar na minha mente, tirando-me todas as reações possíveis. 

O vazio era assustador, tinha cheiro de saudade e isso me enjoava. 

Minha voz falhou, as palavras entalaram na garganta, impedindo-me de respirar. Uma névoa pareceu cair sobre mim. 

Em passos trôpegos e automáticos, eu me perdia por uma escuridão que, até então, eu desconhecia. 

Ninguém estranhou quando me viu sem reação. Eu tentei segurar por tanto tempo que, quando aconteceu, só consegui ficar em silêncio, observando o mundo continuar, respirando como se ele me tirasse o ar, vivendo como se o ontem não houvesse existido.