É necessário entender silêncios, entenda seu silêncio e aprenda com ele, às vezes seu corpo grita aquilo que você tanto quer esconder. Se escute meu bem, se ouvir dói, mas é necessário.
Não somos mais jovens, não somos crianças a opção colo não existe no nosso vocabulário, não tem para onde correr, não tem com quem chorar, não tem o que fazer a não ser tentar compreender essa dor, esse peso que nasceu bem no meio do seu peito e que de forma tão poética quase esmaga seu coração.
Nada parece suavizar o que você sente, porque o que você sente não é algo de agora, e aquela maldita dor é tão maldita que arrasta com ela lembranças indesejadas que você nem sabia que tinha.
Sorrir já não é suficiente, e incrivelmente uma culpa súbita por algo que você não é capaz de controlar te consome, te faltam palavras para descrever o que é essencial, te falta ânimo para fazer o que antes era tão prazeroso, te falta tempo para compartilhar os pequenos prazeres da vida.
Não é como se você não amasse viver, não é como se você não se importasse, mas é como se o mundo não se importasse com você, como se o seu desespero fosse só seu, como se o seu silêncio fosse algo tão incomum e tão indesejado que ninguém ousa quebrar. Às vezes você queria que o quebrassem, que gritassem com você e que te dessem respostas.
Repentinamente olhar no espelho ao acordar se torna algo cansativo, se torna algo tão banal que você se nega a encarar aquilo que se tornou, mesmo com todo mundo te falando o quão incrível você é, ainda assim, você não se encara, alguma coisa dentro de você diz que tá cansada, tá cansada de tudo que sua vida se tornou, tá cansada de todos os ciclos que se repetem, de todos os medos, de todas os dias que se repetem e que durante noites tomam seus sonhos.
Respirar se torna uma tarefa tão árdua que você se engasga com as próprias palavras e se perde em pensamentos, o tempo se torna seu inimigo e a todo instante parece que você perde um pouco mais de tempo, é uma busca desesperada por um tempo que já passou.
Respira, respira, vai passar, sempre passa, sempre passou, na sua vida nada nunca foi fácil, e você sempre cuidou do mundo e esqueceu de você, se dê de presente um tempo, um tempo para reaprender a respirar, para reaprender a se amar, para reaprender a se ouvir. Se escute, escute seus instintos, se ame, se abrace. É o seu tempo, um tempo que voa e que não volta.
Não aprisione seus sentimentos, porque eles se instalam e criam morada aí no seu peito, e quando menos você esperar, eles surgem, eles transbordam, eles gritam para você os libertar. Se cuide, se cuide muito bem, porque no fim de todas as contas, só você sabe o que é preciso para se curar de tantas e tantas dores.
No fim de todas as contas, mesmo com remédios, festas, amores, ainda vai existir a dore, e essa dor, é só sua, é uma carga que ninguém pode entender além de você. Se cuide mais do que cuida dos outros.
O texto de Hoje é motivado por uma reportagem antiga da CNN, nós precisamos deixar de achar que só crianças do sexo feminino são abusadas.
“Um levantamento da pasta, feito em 2021, mostrou que dos 18.681 registros, em quase 60% dos registros, a vítima tinha entre 10 e 17 anos e cerca de 74%, a violação era contra meninas.
Os dados também apontaram que em 8.494 dos casos, a vítima e o suspeito moravam na mesma residência. Outros 3.330 casos aconteceram na casa da vítima e 3.098 na casa do suspeito.
Entre os suspeitos, em 2.617 dos casos estavam o padrasto e a madrasta, 2.443 o pai e em 2.044 denúncias, a mãe era acusada.”
(CNN – Das 4.486 denúncias de violação infantil em 2022, 18,6% estão ligadas a abuso sexual, 18/05/2022)
(Crônica ficcional) Alerta de Gatilho no texto abaixo, o texto não tem final feliz, na verdade nem final ele tem, contém momentos de sofrimento, menção a abusos e tentativa de suicídio:
Eu fui abusado.
Sim, eu fui abusado.
Quando ela o conheceu eu só tinha dez anos, ele prometeu que cuidaria de nós dois e que não deixaria nada de ruim acontecer conosco, ele cumpriu essa promessa e por um tempo eu gostei de o ter por perto, mas o tempo foi passando, o tempo que mamãe passava em casa foi ficando cada vez mais escasso em contrapartida o tempo dele em casa foi aumentando.
Logo tudo que se referia a mim, era resolvido por ele. Eu não sei se eu de fato culpo minha mãe, as vezes eu me pego pensando que ela poderia ter reduzido as horas de trabalho no hospital, que ela poderia ter esperado até o conhecer melhor, que ela poderia ter reparado que minhas mudanças de comportamento não aconteceram de forma tão repentina assim.
Eu tinha 11 anos quando reparei que os toques de carinho que ele me dava tinham mudado completamente, a primeira vez que ele abusou de mim, não foi à noite, ele não estava irritado e mamãe tinha ido passar o fim de semana com os meus avós, eu não entendia o que estava acontecendo, eu só sei que doía, doía tanto.
Não consegui contar para minha mãe, não consegui contar para nenhum dos meus professores ou amigos, eu só conseguia ficar com medo das pessoas, eu gritava e me assustava se alguém chegasse perto demais, eu perdi completamente o foco das minhas tarefas escolares, minhas notas caíram e mamãe se irritava com isso, ela não aceitava “gastar dinheiro atoa”.
Um dia mamãe teve a brilhante ideia de me levar ao médico, eu me lembro claramente que depois do clínico geral veio o psiquiatra, os remédios, eu ainda tomo os remédios, mas agora eu sou um adulto com muita coisa acumulada, naquela época eu era uma criança, uma criança que não conseguia colocar para fora tudo que sentia. Minha mãe deveria ter se recusado a me dar remédios e não ter desistido tão fácil de mim.
Não era como se eu realmente quisesse ser um aluno ruim, um péssimo filho, ou perder todos os meus amigos, eu não conseguia controlar minhas crises de ansiedade eu era só uma criança com medo de a qualquer instante alguém fazer aquilo novamente, eu chorava e gritava e as pessoas achavam que era coisa de criança, mesmo eu nem sendo tão criança assim, eu me coçava constantemente porque lembrava de cada toque daquele homem.
Eu realmente acho que ela desistiu porque quando ele sugeriu que resolveria, ela agradeceu, ela agradeceu porque não dava mais conta de mim. Eu sentia medo dele e raiva da minha mãe, quando ele começou a conversar comigo eu só conseguia concordar sem o encarar, o que era para ser uma conversa tranquila terminou com uma sessão de abusos que agora sei que não eram só físicos, mas também psicológicos.
Depois daqueles dias eu me sentia pressionado a me focar nos estudos, então eu tinha crises e mais crises enquanto tentava acompanhar as matérias, eu quase não saía do quarto, minhas notas subiram, as pessoas não entendiam aquela mudança brusca, eu ainda me assustava com certa facilidade, ainda sentia muita vontade de gritar, mas com o tempo passei a tentar me controlar mordendo os lábios, passei a me arranhar com muito mais frequência, os abusos passaram a ser frequentes e ninguém percebeu.
O tempo foi passando e junto minha angustia ia crescendo, vovó constantemente me chamava para passar os fins de semana na casa dela, eu recusava, mas conforme eu fui crescendo e aprendendo que minha casa não era um lugar seguro eu passei a aceitar, e não, não significa que aquele homem deixou de tocar o meu corpo, pelo contrário, ele passou a ameaçar não só a mim como minha mãe e avó, eu não conseguia reagir.
Eu sabia o nome do que ele fazia comigo, é claro que eu sabia, eu tinha 12 anos quando a professora de ciências falou sobre o corpo, desejos e abusos, eu senti vontade de falar alguma coisa, mas na aula toda a ênfase era para abusos sofridos por meninas, o efeito daquela aula em mim, foi pela primeira vez eu trocar minhas unhas pela ponta do lápis, aquilo que ele fazia comigo ganhou um nome e tudo que eu sentia era nojo de mim por não conseguir pedir ajuda.
Eu fui crescendo retraído e angustiado, não conseguia estabelecer vínculos de amizades com ninguém, quando eu passei aos 16 anos a controlar meus próprios remédios eu passei a os usar de forma pouco ortodoxa, eu tomava mais de um na hora de dormir e assim eu passei a não ver o que ele fazia com meu corpo.
Minha mãe foi ficando cada vez mais sem paciência comigo, ela não entendia minha falta de apatia, minha falta de vontade em estabelecer diálogos grandes com eles, minhas explosões repentinas de humor, ela não entendia e as vezes eu acho que ela não queria tentar me entender.
Tudo passou a piorar quando ele me obrigou a parar de tomar os remédios na hora de dormir, se eu achava que era ruim tomar os remédios eu percebi naquele instante que era muito pior ficar sem eles, ele passou a me chantagear, a trocar os favores pelos remédios, eu não tinha escolha a não ser fazer o que ele queria, eu comecei a ficar paranoico, a ter crises de ansiedade e de pânico, eu mal conseguia formular frases inteiras.
Quando minha vó faleceu meu mundo desabou, mesmo que eu já tivesse 17 anos, eu ainda me sentia uma criança sozinha, eu não tinha mais ninguém para me dar amor, para me proteger, eu não tinha para onde fugir, então eu fiz a única coisa que eu poderia fazer, eu tentei me matar, eu tomei todos os comprimidos que eu consegui juntar, eu premeditei, quando meu corpo ficou mole e minha mente foi ficando em neblina eu achei que tudo finalmente tinha acabado, eu não consigo me lembrar de nada além de gritos.
Eu acordei dois ou três dias depois com minha mãe sentada na cadeira ao lado da minha cama e meu padrasto trazendo café para ela. Minha mãe é médica pediatra, eu estava no hospital em que ela trabalhava e ela parecia não dormir a muitos dias, eu não consegui a encarar, eu senti um misto de vergonha e raiva.
Eu virei meu rosto de lado para evitar o olhar recriminatório dela, eu tentei tapar meus ouvidos para não ouvir o que ela falava, mas eu não consegui. Eu ainda lembro de cada palavra e da forma como foram pronunciadas.
_Você tem ideia do que eu estou sentindo? – eu não tinha ideia do que ela sentia, mas eu também não entendia o que eu sentia, eu não respondi e ela continuou a falar:
_Você não sabe como eu me senti quando te vi jogado naquele corredor, você não tem ideia do medo que eu senti quando eu achei que fosse te perder. – ela gritava, gritava cada vez mais perto de mim, até que me segurou os ombros me obrigando à encara-la.
Eu também estava com raiva, não era como se ela fosse realmente uma boa mãe e ela podia ver isso nos meus olhos.
_Você não tem ideia das noites que eu não dormi para poder te sustentar, eu te dei tudo que era o melhor, tudo, e você me retribuí assim, tentando se matar? – ela secou as lágrimas sem tirar seu olhar acusatório de mim, eu não sabia o que responder, eu já disse eu sentia muita raiva dela então eu apenas forcei meu corpo para que ela me soltasse e virei de lado.
_Tá todo mundo comentando que você tentou se matar, todos agora sabem dos seus cortes, das marcas em seu corpo, todos agora sabem que meu filho é um suicida. – ela gritava e aquela frase me fez a encarar, minha fúria se esvaiu e eu só conseguia sentir vontade de chorar, ela não se preocupou comigo.
_Você tem marcas de abuso por todo o seu corpo. Eu não sabia que você era gay e muito menos que estava envolvido com alguém, me diz o que aconteceu…, me diz quem te machucou, você precisa dizer alguma coisa!!! – Ela parecia tentar se acalmar, mas eu ainda conseguia sentir o barulho da respiração dela, estava eufórica, raivosa, seus rosnados se misturavam ao barulho dos aparelhos médicos ligados ao meu corpo.
_Você precisa me contar o que aconteceu…, eu preciso saber… – ela sentenciava a última frase tão baixo que se eu não estivesse perto não ouviria, parecia querer dizer que necessitava saber se era culpa dela ou não.
_Eu não…não… – eu não conseguia saber o que responder, aquele homem ainda estava no quarto encostado no batente da porta, eu desviei meu olhar do dele e comecei a entrar em crise, minha mãe se sentou na cama e me abraçou, mesmo que eu lutasse para que ela se afastasse, eu não queria aquele abraço, eu não queria aquele toque, eu queria poder falar.
_Filho…
Enquanto eu estava naquele quarto de hospital eu perdi a noção de tempo, quando eu voltei para casa parecia que finalmente eu teria um pouco de paz, era meu último ano no ensino médio e eu sabia que minha chance de sair de casa seria fazendo um curso superior, eu não sabia o que eu queria fazer, mas tinha que fazer algo que me permitisse sair daquele lugar.
Eu estudei, estudei mais do que o necessário, não só para me livrar do colégio mas para passar na faculdade, minha mãe me ajudou, depois de tudo que havia acontecido, ela de certa forma tentou ficar ao meu lado, eu ainda estava um tanto quanto reticente, mas não tive muita escolha, ela se sentava ao meu lado e me fazia mil perguntas para as quais eu não tinha respostas.
Canais de denuncia:
Disque 100 – O Disque Direitos Humanos (Disque 100) é um serviço que funciona 24 horas e ajuda na disseminação de informações sobre direitos de grupos vulneráveis e de denúncias de violações de direitos humanos.
Delegacia – Unidade policial fixa para atendimento ao público. Algumas regiões possuem delegacias especializadas como a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ou apenas ligue 190
Conselho Tutelar – O Conselho Tutelar (CT) é um órgão administrativo municipal, autônomo, responsável pelo atendimento de crianças ameaçadas ou violadas em seus direitos.
Para uma outra criança que encontrei por aí… talvez ela seja tão bruxa quanto eu.
Tudo era uma confusão.
Não sabia o que sentia, não entendia nada que acontecia, as vezes tudo que sabia era que a incerteza eram sua única certeza;
Não contava mais quantas vezes seu riso escapou ou quantas vezes suas lágrimas surgiam sem motivo aparente.
Não entendia como respirar podia ajudar, sentir a vida se esvaindo entre sua corrente respiratória nunca ajudou.
Era pesado sentir tudo aquilo entrando e saindo de dentro de si…
Contou todas as vezes que deixou cair algo importante enquanto respirava:
Deixou cair seu coração…
Deixou cair seu equilíbrio…
Deixou cair o que acreditava ser certo.
Tudo escapou naquele espaço tão pequeno que existia entre os sentimentos e o vazio.
Sentir…
Era bom sentir, sabia que vivia assim dessa forma: sentindo.
Era ruim sentir, era devastador não poder controlar o que sentia.
Tentou guardar tudo no armário, mas era muita coisa e quase nada cabia naquele espaço tão pequeno, as portas logo cederam e tudo desmoronou em cima de si.
O ar fugiu, e tudo ficou mais turvo do que costuma ser.
Se deparou com coisas que nem ousava pensar ter guardado, havia guardado realmente muita coisa.
Encontrou seus gritos escondidos no fundo do armário.
Encontrou as palavras carregadas de sentimentos que guardou por baixo de todas as tralhas desimportantes.
Encontrou as vozes, aquelas que queria esquecer, mas que não podia negar a existência, elas se multiplicavam.
Se culpou, afinal não soube guardas as coisas dentro do armário.
Se culpou porque quando olhavam para si viam aquela bagunça toda que escapava daquele espaço tão pequeno.
Se culpou porque supostamente sua bagunça havia respingado em outras pessoas.
Era estranho, complicado e inteiramente desconfortante.
Tudo que sentia era rápido e não podia controlar, não entendia muito bem como as outras pessoas escondiam tão bem tudo dentro de seus armários.
Não entendeu quando quis se enfiar por inteiro dentro daquele espaço tão pequeno e quebrado.
Respirar doía e ninguém deveria sentir dor enquanto respirava, mas nem sempre era assim.
As vezes respirar era bom, sentir todo aquele ar correndo dentro de si era confortante, era sinal de liberdade, de vida, de história.
Queria ser como o vento, livre, entrar e sair sem pedir licença.
Queria sair sem que perguntassem o motivo, queria sentir que era vida, que era a vida que existia nos outros e em si.
Queria sentir e saber o que sentir.
Preferia pontos finais á vírgulas, não gostava de criar continuação para nada, até gostava, mas se preocupada demais com tudo, pontos finais eram rápidos emergências e não precisavam de explicação.
Era difícil entender que tudo que sentia era seu, eram suas angustias, seus medos, suas alegrias e amores, tudo era seu e de mais ninguém.
Ninguém poderia engavetar o que sentia, ou guardar nos cantos do armário aquilo que não agradava por muito tempo.
Era difícil, era dolorido, era confuso, mas também era bom, afinal as vezes é bom no meio de toda aquela bagunça que desaba sobre nós descobrirmos que lá dentro também está guardado o que somos.
É bom nos reencontrarmos, redescobrirmos o que sentimos e entender ou desentender o que nos faz chorar e sorrir.
Têm dias que é difícil se concentrar no mundo, têm dias que é difícil se entender e entender o outro.
Teve dias que eu me perguntei como seriam aquelas crianças quando crescessem. Teve dias em que eu as reencontrei.
Por favor, não me toca.
Eu sei que parece estranho, mas isso me machuca.
Dói quando você me toca, quando se aproxima demais e quando me abraça assim tão apertado. Às vezes parece que está tudo queimando aqui dentro.
Eu queria ficar para sempre no seu abraço, mas isso me machuca, e eu nem sei explicar o que sinto, então eu só espero que seja rápido e que você entenda o quanto isso me machuca.
Eu não consigo explicar, eu não consigo entender, as vezes você me faz sentir em casa, mesmo quando eu não consigo entender o que é uma casa de verdade.
Às vezes eu não sei o que falar, e falo desordenadamente sobre qualquer assunto, mas é que poucas vezes alguém tenta me ouvir.
Às vezes eu troco de assunto sem nem perceber, eu não faço de propósito, é só que é difícil pensar tão rápido e não conseguir controlar o que surge na minha cabeça, eu não consigo me controlar, eu só queria seguir em um único caminho, mas vez ou outra me perco por tantos lugares que nem sei onde estou.
Às vezes eu preciso falar comigo e não gosto que me interrompam, não gosto que não entendam que essa é minha forma de me entender. Eu até tento agir naturalmente, mas nem sempre dá, tem dias que não dá para controlar e parece que tudo que acontece faz tudo ficar ainda mais complicado.
Às vezes eu não quero falar, mas não é que eu não tenha o que dizer, é só que eu não consigo falar. NÃO CONSIGO, por favor entende. Eu só quero ficar quieto, em silêncio, sem todo esse barulho que eu causo e sem todo esse barulho que me causam.
Eu não sei se você entende, ou quão estranho deva ser você para tentar me entender, mas tudo que eu queria era não ser eu e não sentir tudo que eu sinto.
Às vezes eu não sei o que fazer, é complicado ter tantas opções e não saber para onde ir. Tudo dentro de mim parece apertar, minha cabeça fica tão bagunçada que as palavras somem e eu não consigo entender para onde vou.
Eu não gosto de aglomerações, não gosto quando tudo que tenho que fazer é conviver com um monte de gente que não fala comigo, que não me conhece, que encosta em mim sem me avisa, isso faz meu coração acelerar, eu fico atônito tentando fugir, minha garganta arde, meu corpo queima. Parece que tá todo mundo olhando para mim, eu não gosto de ser o centro de toda a atenção.
Tem dias que eu não sei o que sinto por você, não sei se gosto ou não de você, não gosto de como você insiste em ficar perto de mim, não gosto de gostar de ficar perto de você.
Tente passar pelo que estou passando
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar pois estou te amando
-Pérola Negra
Composição: Luiz Carlos Dos Santos
Certo dia senti vontade de voltar a escrever e senti preguiça, o texto morreu antes mesmo de nascer. Mas hoje em meio a meditação ao som de Caetano e os livros de engenharia de requisito que eu deveria ler, resolvi me arriscar a escrever sobre o que mais amo amar, pessoas.
Ao irmão extraterreno.
Era confuso, muito confuso.
Ninguém entendia, nem quem estava perto e muito menos quem estava longe. Nem ele se entendia.
A respiração pesava, e parecia acumular um bolo no meio do peito, era pesado, estava cansado, a dor não era explicável e nem tinha remédio, era angustiante e tudo que queria era se encostar em algum lugar, onde a dor tão inexplicável pudesse ser sentida.
Respirar, respirar era tudo que queria. Fechar os olhos e ouvir o som das ondas batendo nas pedras, como ninguém jamais o ouviu.
Não gostava de responder perguntas, porque geralmente não tinha respostas. Não gostava de não ter explicações para as lágrimas ou para o acumulo no peito que o impedia de encontrar palavras e tentar se explicar.
Ele nem sabia os motivos de tentar se explicar, mas era como se a todo instante lhe cobrassem isso. Era dolorido, denso e perverso, não tinha explicação.
Respirar, tudo que restava era respirar e sentir todo aquele ar invadindo seu corpo. Respirar era se sentir pesado pelo que não conseguia colocar para fora.
Era estranho como todos achavam que o conheciam, e que tinham a solução para o que estava sentindo. No meio de todo aquele caos que eram seus sentimentos, tudo que conseguiam era que ele achasse que seus sentimentos eram o problema.
Ele respirava forte e engolia o que queria sair, respirar as vezes era se sentir fora do próprio corpo. Respirar era dolorido, machucava e rasgava. O que não podia sair transbordava e inundava quando menos esperava.
Respirar, respirar e fechar os olhos, tudo escuro, tudo que se ouve são gotas caindo no nada, vazio sufocante. Respirar era viver em um silêncio barulhento.
Era difícil se ouvir em meio a todo aquele barulho que vivia sua mente, não eram frases fáceis de serem compreendidas, era tanto barulho que lhe dava vertigem e facilmente ele se perdia principalmente pelos caminhos fáceis.
Era mais fácil aceitar que seus passos jamais seriam retos.
Respirar, respirar as vezes era pesado, mas também era leve. Respirar era ter calma, para não se engasgar com si mesmo.
As vezes ele conseguia se entender, não era tão fácil, mas se contentava em chegar mesmo que por caminhos tortos nos lugares que deveria.
Respirar enquanto caía e se machucava era uma especialidade, o ato de respirar era longo, denso e solitário a espera que no final alguém o enxergasse e o ajudasse a levantar, alguém que o ajudasse a respirar.
Atenção:esse texto contém menção a depressão, abuso e suicídio. Se achar que isso pode ser um gatilho, por favor não continue essa leitura.
Nó: Enlaçamento de fios, de linhas, de cordas, de cordões, fazendo com que suas extremidades passem uma pela outra, amarrando-as. [Figurado] Vínculo; ligação estreita entre pessoas por afeição ou parentesco. [plural] nós.
Quando tropeçou enquanto tentava fugir, ninguém estava na sua frente para frear seus passos;
Quando disse “não”, ninguém desconfiou que era medo.
Quando disse “sim”, ninguém percebeu que ele gritava por dentro dizendo não.
Fugiu, ninguém percebeu;
Gritou, falaram que era birra, “coisa de criança”;
Seu corpo não parava quieto, mas “era o efeito da hiperatividade”;
Roeu as unhas, puxou os cabelos, mordeu os lábios, “era de ansiedade”;
Cresceu, e quanto mais crescia mais remédios de nomes complicados conhecia;
Não gostava de chorar, de falar, de respirar, “o nomearam como depressivo”;
Não queria engolir a comida, já engolia muitas palavras enquanto diziam ser só mais “alguns de seus delírios”.
Se retraía, tentou se esconder, encolheu seu corpo e tremeu, “não suportou tudo que teve que segurar”. Não estava frio, mas tremeu.
Chorou como chorava quando era criança, não adiantou, ninguém veio em seu socorro, tudo continuava no mesmo lugar, a cama, o chão, as paredes, e os gritos que com o tempo aprendeu a conter.
No fim de tudo, nada restou, as lágrimas caiam, e a dor que o dilacerava era mais cortante que o objeto que ele usou para dar fim a tudo.
Não se despediu, não disse “eu te amo”, não mandou sinais de aviso. Ele apenas foi, foi ser livre enquanto deixava suas verdades finalmente saírem e como se não se importasse se iriam ou não acreditar nelas depois de tanto tempo. Ele apenas foi, sem se importar com tudo que podiam dizer.
Diáspora : dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.
Se perderam…
Não era silencioso, havia correria, era turbulento…,
se perderam mesmo de mãos dadas.
Eram rostos tão diferentes, vozes diferentes, ninguém se entendia, ninguém se conhecia e os que se conheciam se perdiam, ou haviam perdido.
perdido, perdido tudo, desde abraços, afagos até lembranças.
Não existiam mais as paredes que guardavam segredos, ou a escadas responsável por tantos tombos, não tinham como voltar para os braços que recebiam sempre abertos.
Tudo se perdeu não só para si como para todos.
Eram desconhecidos que reconheciam suas dores, as mãos que consolavam eram igualmente consoladas.
O peito subia, o peito descia, as pernas tremiam, a voz falhava, não se reconhecia, procurava por quem lhe pertencia.
Seu pedaço da história havia se perdido de si, o vento era quente e sufocante, lhe roubava todo o ar, era como se sua cabeça não conseguisse se concentrar, pesava.
Tudo pesava, pesava mais do que quando o carregou no ventre, pesava mais do que quando o carregou pela primeira vez nos braços.
Não entendia o que acontecia, uma hora o tinha tão perto de seus braços e no outro o perdia.
Não havia vento, e ainda assim sentia como se seus passos fossem a cada instante apagados.
Não havia como olhar para trás, não tinha como voltar.
Nada mais existia, nada além do desespero de não se ter para onde ir e pra quem voltar.
Transforam as lembranças em poeira, tiraram seu futuro das suas mãos.
Sentiu a dor dos que perderam seus amores, sentiu sua própria dor enquanto gritava em desespero.
Doeu, se dilacerou por dentro.
Fechou os olhos e viu a massa cinzenta, o fogo, e o vermelho carmim que manchava tudo inclusive sua roupa.
Se perdeu,
aos poucos se perdeu dentro de si.
A escuridão foi aos poucos enevoando tudo…
Quando mais se apertavam para caber naquele espaço tão pequeno, mais sua cabeça recordava os gritos.
A dor aumentou, não existia luz.
A angustia entalou na garganta, não tinha o que mais por pra fora além de seus gritos.
Atravessamos o mar Egeu
O barco cheio de fariseus
Como os cubanos, sírios, ciganos
Como romanos sem Coliseu
Atravessamos pro outro lado
No Rio Vermelho do mar sagrado
Os Center shoppings superlotados
De retirantes refugiados
Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977), foi mais uma das escritoras que conheci durante minha graduação, especificamente durante uma disciplina que estudava a relação de identidade e diários. É estranho tentar entender como uma das escritoras mais importantes de nossa história, reconhecida mundialmente, só me foi apresentada na graduação, no auge dos meus vinte e poucos anos.
Quarto de despejo se tornou o livro que a fez ser conhecida, as palavras que juntas compõe esse livro, se tornam importantes para podermos entender a sociedade da década de 50, pela perspectiva de Carolina, uma catadora de lixo, mulher negra, periférica e mãe solteira, que dia a dia matava seus leões dentro e fora das vielas paulistana.
Sofreu violência de gênero, social e racial, suas linhas não nos fazem sorrir, não nos iludem, são duras, é a realidade e não a fantasia, não teve bolo de aniversário na festa de sua filha, porque não se tinha dinheiro nem para o pão.
Carolina retratou em seu diário muito mais do que ela imaginou, escreveu como quem conta um segredo a um amigo, confessou suas angustias diante a fome de seus filhos e os julgamentos de seus vizinhos, ela questionou, não se calou e gritou para que a ouvissem.
Não queria se submeter a homem algum, era mãe solteira, foi mãe de filhos que nem eram seus para os proteger dos julgamentos que ela tão bem conhecia, se preocupou quando eles demoravam a voltar, abraçou apertado, tão apertado que quase se tornou possível deslumbrar do momento enquanto se lia.
Quarto de despejo foge dos padrões da nossa literatura, ou melhor foge dos padrões da nossa norma culta da linguagem, sua protagonista é negra, pobre e desbocada, trabalhava de sol a sol e lutava para que sua vida não se resumisse a sua casa de madeira, Carolina não era só escritora também era uma leitora que também lia o mundo.
Literatura Marginal,é assim que se chama essa escrita, livre das tradicionais amarras que costumamos ser apresentados na escola, a forma como falamos e escrevemos também é motivo de exclusão, a normatização da linguagem é um instrumento de dominação, onde só se valida o que uma pessoa fala se “sua fala” condizer com as regras de linguagem. Normatizar a linguagem, é excluir outras formas de expressão, outras culturas.
Estudei em escola pública durante minha vida inteira, salvo na educação infantil, eu sei a importância que a literatura de Carolina tem para alunos periféricos assim como tem para mim. Carolina escrevia sobre a sua vida, seus dilemas, sobre mais de cinquenta décadas atrás, quando o Brasil começa a se desenvolver economicamente, e ainda assim nós encontramos tantas semelhanças.
Carolina não se resumiu a quarto de despejo, que era bem mais do que sua casa de madeira, quarto de despejo era a cidade de São Paulo, a sociedade que a excluía de todas as formas possíveis, como se gritasse a todo instante que o lugar dela e de seus filhos não fosse no asfalto.
Quarto de despejo não foi seu único livro, na verdade foi seu diário, antes dele ela havia tentado publicar crônicas e poemas, mas só com seu diário, que ela passou a ser notada e justamente pelo motivo que era excluída. Apesar do livro de rendido bem, Carolina viu pouco desse dinheiro, na verdade ela viu o suficiente para que saísse da favela e fosse morar em um pequeno sítio na periferia de São Paulo.
Outros Livros:
Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963), Provérbios (1963). O volume Diário de Bitita (1982) (Publicação Póstuma).