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Entre a certeza e a incerteza

loucuraaa

Ocultou sua loucura com outras loucuras, disfarçou seus tombos com risos, e transformou os barulhos ensurdecedores em música, tentou respirar, tentou se acalmar, tentou parar, mas tudo fugiu do controle enquanto ele tentava fugir…

Se abrigou entre a certeza e a incerteza, se resfriou em meio a tempestade, chiou, molhou os pés, perdeu o tênis, mas estava sol…, Tentou entender, tentou respirar mas se sentiu sufocado, estava perdido e se perdeu ainda mais quando o interminável barulho começou à soar em seus ouvidos, era realmente ensurdecedor…

As mãos tentavam se livrar daquele barulho, mas ele não vinha de fora, vinha de dentro, era angustiante, era sufocante, ele cravou seus pés no chão paralisando, não conseguiu andar, não conseguia se concentrar, as mãos inquietas continuavam a tentar fazer parar, mas não adiantava, não parava, não parava, ele só teve forças para cair, caiu em um único baque por cima dos joelhos, doeu, doeu tanto que ele chorava como uma criança.

Ele não conseguia, não conseguia parar de ouvir todos aqueles sons, seu fone, sua música que o acalmou durante anos, agora não mais adiantava, era assustador, era devastador, era como se um grande buraco tivesse sido cavado dentro de si, e era isso, era um buraco que tinha sido aberto e que ele não conseguia mais fechar…

Buscou a sua volta quem poderia o ajudar, mas todos pareciam não o perceber ali, ele não existia, tentou se levantar, mas não conseguia, tentou gritar mas não tinha voz. Parecia estar sendo torturado por algo que ele nem sabia ter cometido. Se sentiu aprisionado, uma prisão sem grades, todos pareciam o vigiar, o viam sofrendo e não faziam nada, pareciam se divertir em meio aos seus gritos inaudíveis.

Ele não conseguia entender, ele não conseguia se entender tudo estava uma bagunça, seus olhos perdidos começaram a reconhecer o tal lugar, mas ainda não entendia como foi parar lá, desistiu de fazer com que eles o enxergassem, preferiu se esconder, se encolheu, eles não podiam o encontrar, já estavam o machucando o suficiente. Chorou, chorou tão forte que suas lágrimas pareciam trazer de volta a tempestade que nunca existiu.

Tudo era confusão, e quanto mais ele tentava entender mais ele se agoniava, o coração parecia pular, as mãos abandonaram os ouvidos, tinha desistido de fazer parar, apenas se encolhia, tinha perdido praticamente as forças em meio aos soluços, a respiração completamente descompensada logo provocava engasgos desesperadores. Não o viam, não o escutavam, não faziam nada, mas pareciam o machucar, parecia que o simples olhar daqueles desconhecidos era suficiente para fazer sua pele queimar.

Entre um soluço e um respirar a ardência em seu corpo aumentava, não tinha mais forças para tentar ao menos amenizar a pele, tentou entender como as manchas que nem notará que tinha, se multiplicavam, ampliavam…, não se reconhecia, respirou e fechou os olhos tentando limpar a visão, mas a escuridão ela ainda era mais assustadora, era no escuro que todos os seus pesadelos viviam, foi lá que tudo começou.

Entre um fechar de olhos e outro, percebeu que tudo ficou escuro, se bateu se culpando, sabia que não podia ter piscado, mas estava tão cansado, nada adiantava, nada, tentava se convencer que aquilo tudo não era nada, mas era tão real, apertou as mãos, os olhos, franziu o cenho, o barulho finalmente parou, a escuridão ganhou forma, ele não conseguia gritar, estava sozinho.

Esperou desesperadamente para que aquela escuridão o consumisse logo, ele não aguentava mais, ele queria que tudo acabasse, mas não acabava, o escuro era tão apavorante quanto lembrava, era gelado, era sozinho, era um grito em meio ao seu silêncio, e foi em meio a todas as formas que ele reconheceu dos seus pesadelos de infância o medo angustiante de não existir mesmo existindo.

Foi em meio a tantos medos que seu coração acelerado começou a ganhar seus ouvidos, o barulho que surgia era assustador, se ouvir era assustador, estava com medo, estava sozinho, estava onde não queria estar, mal sentiu quando o ritmo começou a cair, se sentiu leve e foi como se tivessem tirado um peso de suas costas. Estava tão cansado que mal percebeu quando mãos começaram a o tocar, ele foi se acalmando em meio a confusão a luz foi novamente invadindo seu campo de visão mas não durou muito, dormiu…

Quando acordou não reconheceu as paredes, a tinta, os pôsteres, era tudo como antes, mas mesmo assim diferente, tocou a porta e se sentiu preso novamente, se perguntou se um dia já esteve longe daquele quarto.

 

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Compositor de destinos

coracao-e-vida
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Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

(Caetano Veloso)

Dedico esse texto aos meus amigos, irmãos, por me ensinarem que viver é florescer entre a tempestade. Dedico esse texto aos amores incondicionais que conjugam o verbo amar da maneira mais intensa possível. Eu amo vocês por me ensinarem tanto de tantas formas.

Em meio a aquele silêncio, ouvia-se um choro,

tão íntimo,

tão pequeno,

tão vulnerável,

Era o primeiro encontro de ambos, seu olhar o encontrou de forma que soubesse que mesmo naquele primeiro momento, aprenderia bem mais do que o ensinaria.

Sorriu, sorriu de maneira tão inusitada ao o segurar, que se esqueceu de como estava sensível, não ligou, continuou a segura-lo de maneira meio torta, meio incerta, de maneira certa, bem ao lado do seu coração, o som estranhamente descompensado acalmava aquele ser tão pequeno, o choro cessava enquanto seguia o embalo daquela voz rouca e dos soluços.

O ninou em seus braços, com toda a experiência que lhe faltava.

Se perguntou desde quando o conhecia? O olhou novamente como se tentasse se lembrar, fechou os olhos e sentiu aquele cheiro meio seu, meio dele, era algo tão improvável, mas sentia, era como se reconhecer ali. Não, com toda certeza não era o primeiro encontro de ambos, soube disso quando o tiraram de seus braços pela primeira vez, sabia que não existia lugar melhor do que ali nos seus braços, e mesmo assim o levaram.

Sentiu o aperto, e reconheceu a saudade imensurável que nunca havia sentido.

Dormiu de cansaço, mesmo não querendo dormir.

Se preocupou, mesmo sabendo que não deveria se preocupar.

Disse que estava tudo bem, apenas para que se preocupassem com ele e não com si.

Por mais que soubesse o que era amar o outro, não sabia descrever aquela sensação, não era racional, era como se a sua dor não existisse, então soube o que era verdadeiramente se doar pelo outro, sentiu necessidade de protege-lo, de o guardar em seus braços, aprendeu um outro significado de amar, bem mais intenso, bem mais voraz, um amor incondicional e sem respostas.

Quando acordou não se importou com as olheiras, ou com qualquer coisa que foi lhe perguntado, esperou ansiosamente para o encontrar novamente, ainda não sabia lidar com tudo aquilo, era tudo meio novo, e nada correspondia a suas expectativas, era tudo mais intenso, antes mesmo de o acolher em seus braços já sentia seu calor tão peculiar.

Independente de todas as crenças que poderia ter, sabia que daquele momento em diante todas as suas preces seriam para ele, para seus sorrisos, para seus machucados, para seus sonhos, para seus abraços.

O alimentar era como regar um pequeno broto, sorria com esse leve pensamento, era como se aquilo os ligasse eternamente, era como se sua vida regasse aquele ser tão pequenino, enquanto ele despreocupadamente sugava cada gota. Não conseguia pensar em mais nada enquanto o encarava.

Era o seu pequeno pedaço do mundo, era o seu mundo, nunca o imaginou tão pequeno, nunca imaginou que algo tão grande pudesse caber nos seus braços, mas cabia, sabia que não caberia para sempre e inquestionavelmente sentiu um súbito medo dos dias tão distantes em que não bastaria o seu amor, seus braços, suas palavras, respirou fundo e ignorou todos esses pensamentos, por enquanto ele ainda era o seu pequeno pedaço do mundo, tão pequeno que cabia nos seus braços.

Se pegou rindo para o nada, respondendo perguntas inexistentes, inventando músicas sem refrão, era tudo tão único que nem ligava para que os outros diziam, nem todos os manuais de instruções poderiam sugerir como seria seus dias agora.

O cansaço batia, o choro surgia, e o único verbo que conseguia conjugar era o amar, o conjugava das maneiras mais improváveis e impossíveis.

Meu canto hoje dobra as tuas notas
Me olhas como se fosse normal
Me coro ao seguir a tua rota
Meu abraço te amarrota
Meu estranho natural

_Maria Gadú_