Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Cronicas 24/25, Minhas Crônicas

Tempo rei

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, Pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Quando um animal morre em seu habitat, seu corpo se transforma em vida, se transformando em abrigo, comida e refúgio, nós somos animais e o fim nunca é realmente o fim. Para todos os que pensam qual o legado a ser deixado, para todos que precisam deixar-se ir para encontrar a paz.

Música…

Minha vida sempre foi uma música estranha, uma balada que embalava os meus sonhos mais improváveis, eu sonhava acordada e me perdia fácil entre os acordes, não existia como passar por mim sem se perder na melodia que embalava minha vida. Mas as vezes me canso, a música com o tempo se tornou nublada, abafada e desconexa, ainda me perco entre os acordes, mas agora tudo é uma melodia melancólica e abafada…

As tempestades se tornaram frequentes, embalavam meus sonhos e tornavam o amanhã improvável, as melodias antes tão agitadas agora eram alcoólicas, nubladas, um solo de guitarra no meio do silêncio.  Tudo se tornou turbulento, uma despedida entre sorrisos tristes e suspiros cansados. 

Se tudo passa, por qual motivo ainda permaneço aqui, por qual motivo ainda não passou? Cada olhar era uma despedida incansável que eu não queria, mas eu precisava dançar mesmo que eu não quisesse, eles precisavam disso mais do que eu, eu precisava de outra música, outro tom, precisava dançar até cansar todas as músicas que ainda tinham dentro daquela pequena jukebox. 

Retirei meus sapatos, senti a areia da praia, dancei uma música que só eu ouvia, uma melodia inexistente e até mesmo desacreditada entre todos os mortais, eu gritei, um grito miserável, solitário, agudo, era assim que eu me sentia, mesmo aqui, mesmo agora.

Eu atravessei tudo que podia, mergulhei quando insistiam que eu deveria permanecer segura na terra, tive medo de me perder, me perdi, me encontrei, conheci tudo que queria 

Talvez tenha chegado a hora de iniciar uma nova canção, de dançar um novo ritmo, de me despedir da forma certa e deixar as lágrimas rolarem sem as interromper no meio do caminho. 

Talvez agora seja tarde demais para passar, agora eu já não quero que passe, já não quero que vá, eu só quero estar, viver e sentir, não importa por quanto tempo, eu quero deixar uma marca mesmo que não seja o plano inicial, tudo que quero é um tempo maior, mesmo que por um segundo.

O tempo a muito se tornou inconstante, o medo é praticamente solúvel, dissolve os sonhos, o orgulho, o amor, mesmo com tantos abraços, mesmo com todo o carinho, mesmo sentindo tudo que sinto, o amor também é solúvel e por ele eu tento permanecer, porque eu quero sentir mais um pouco de tudo isso. 

Ainda estou aqui, estou na gota de suor, nas lágrimas de despedida, nas palavras de amor, nas paredes desenhadas, no pôr do sol, eu estive, estou, estarei… Não sei por quanto tempo poderei conjugar esse sentimento, mas eu sinto que eu quero existir no agora e se for para ir que seja da melhor forma, eu quero sentir e quero que sintam, quero que me sintam.

Não sinto mais os abraços, o cheiro, o gosto… tudo se perdeu, menos meu eu, ainda estou aqui, sentindo a inexistência de não poder passar, eu queria deixar ir, me deixar ir, ao mesmo tempo que queria apenas sentir. 

O toque antes ágil agora é demorado, guardando a saudade do que não volta. 

De repente sinto-me como água, sinto frio, sinto sede, sinto-me afogando em sentimentos indesejados, em sentimentos de despedida, uma despedida indolor, quente, calma. O relógio não voltou, os ponteiros pararam, todas as despedidas pareciam se fazer presente naquele instante e então tudo passou por mim: Passou o amor, o cheiro, os abraços, o medo e finalmente eu passei.

Ansiedade, cartas, Crônica, Cronicas 24/25, depressão, Minhas Crônicas, silêncio

Era uma vez eu no meio da vida

Para todos que se sentem uma criança perdida no Mundo.

Era uma vez um menino, ele nem era tão pequeno assim, queria abraçar o mundo, gostava de abraço apertado e conversas no silêncio, sua existência era peculiar, tinha cheiro de saudade e abraços tão aconchegantes quanto a areia da praia. Às vezes ele era céu azul outras tantas tempestade… 

Dentro da sua cabeça existia uma guerra interminável, uma avalanche de palavras que vez ou outra causava um desmoronamento em suas certezas. Quanto mais ele corria, mas aquele eco lhe perseguia, ele tropeçava, caía e se machucava, se machucava sem ninguém ver, secava às lágrimas e continuava a seguir mesmo machucado. A guerra dentro da sua cabeça era barulhenta, e talvez por isso ele tenha aprendido a viver de silêncios. 

Não que ele gostasse do silêncio, pelo contrário, o silêncio incomoda e é dolorido, ele prefere a casa cheia, mesmo que isso também signifique ficar com seu coração vazio. Era uma sensação de ter o sol no inverno, não era suficiente, mas era o necessário, isso bastava. 

Talvez ele nunca tenha se achado suficiente, o que é muito estranho, afinal, ele sempre foi tão cheio de certezas, sempre foi colo e abrigo, como podia não se achar suficiente? É, mas ele não se achava, pelo contrário.

O mundo mundo parecia não o compreender e isso fazia com que aquele menino que parecia tão pequeno crescesse muito rápido, mas era momentâneo, logo ele se sentia pequeno novamente, as palavras doíam, ele não entendia, machucavam mesmo sendo desconhecidos, tudo se misturava dentro de si e ele se perdia em tudo que sentia sobre si mesmo.

Pequenas palavras sempre foram guardadas no dicionário da guerra que existia em sua cabeça, por isso ele detesta jogos de palavras, ele guardava cada verso fora do compasso, cada história mal contada e cada resposta atravessada, é nessas horas que sua cabeça iniciava a guerra, refazendo cada momento como se ele por milagre pudesse ser mudado, era torturante e desgastante. 

Se sentia perdido, brincava de pique sózinho na esperança de alguém o encontrar e ouvir tudo que ele tinha para contar. Ele queria gritar, queria explicar o que estava acontecendo, tudo parecia tão óbvio, mas não era, era difícil buscar tantas palavras, os desmoronamentos aconteciam com frequência dentro de si.

Constantemente respondia que sua cor preferida é a que o céu tem. O mesmo céu que ilumina as tardes frias, é o que causa tempestades devastadoras, e bem, esse menino tem tempestades devastadoras dentro de si, tempestades que ele nunca soube quando começavam ou terminavam. Nunca soube definir o que sentia, talvez se ele tivesse a cor do céu fosse mais fácil. 

Queria que soubessem que seus dias não são só de sol, nem sempre são quentes e aconchegantes, que seu sorriso às vezes é bem enevoado e que suas tempestades acontecem mesmo quando tudo é parecido com uma tarde de verão.

Não tinha como controlar, se sentia culpado por isso, ele passou a ensaiar sorrisos, não que ele não quisesse ficar ali perto de todos aqueles abraços e risos, se sentia triste por não se achar suficiente, passou a sufocar tudo que sentia e sorrir, um riso nublado e incômodo que lhe tira o ar. 

Talvez ele já não soubesse conjugar os verbos: amar, sorrir e viver. Ele apagava constantemente sua conjugação em nome do que ele achava ser o certo para os outros. 

Cultivava o amor, tal qual um florista que insiste em cuidar das rosas sem luvas, se espetava com espinhos e não cuidava dos machucados. Era a única forma de amar que ele conhecia, uma forma dolorida, que escondia o choro mesmo quando visivelmente estava magoado.

Tudo que restava a ele era a busca incansável por alguém que ficasse e entendesse seu silêncio, que não o fizesse sentir um incômodo, que afastasse de si todas as palavras que insistiam em ser repetidas na sua cabeça. 

O peito doía, o corpo amolecia, ele não conseguia sobreviver sem os abraços, tudo cheirava a saudade mesmo com todos ali, se sentia culpado por sua tempestade invadir outros abraços, sentia medo das pessoas cansarem e irem embora sem avisar. Era como ser um passarinho na gaiola, ele não podia voar e seu canto era limitado.

Sempre foi mais fácil lançar palavras para desconhecidos, eles vão embora e não significam nada, mas os conhecidos, esses, ele tem medo de perder, e por isso sobrevive de silêncio, falando o que querem ouvir, sorrindo quando queria se esconder.

Era uma vez um menino, ele nem era tão pequeno assim, sobrevivia das grandes tempestades que existiam dentro de si, vivia dos abraços no acaso e de risos tempestuosos, mas o que ele não sabia é que mesmo com toda a tempestade dentro de si, ele ainda é capaz de produzir dias quentes, quando ele descobrir isso, talvez o medo de deixar suas palavras voarem comece a ir embora…

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I’m only human after all

Para todos que necessitam traduzir o que sentem enquanto se machucam quando o mundo dentro de si começa a desabar.

Preciso te contar uma coisa, eu sei que você disse que iria ficar mesmo se eu te expulsasse, que foi você que bateu na porta, mas não é tão fácil assim, eu sou complicado, na maioria das vezes eu faço escolhas ruins, ainda assim te deixar ficar me pareceu uma boa escolha. 

Desculpe-me por abrir a porta, por ter aceitado sua ajuda e por ter permanecido ao seu lado mesmo quando eu deveria ter te mandado embora 

Eu gosto do seu sorriso enquanto me conta coisas bobas sobre o seu dia, para me entreter e mesmo que pareça que você sabe tão pouco sobre as estrelas, ficar do seu lado, é como me sentir aquecido pelo sol, eu gosto disso, pode não parecer mas eu gosto. Me desculpe por gostar. 

Às vezes eu me perco por lugares frios demais… Preciso te contar que às vezes eu demoro para voltar desses lugares, que caminho até meus pés doerem porque quando sinto dor, não me lembro do que aconteceu. 

Quando não sinto dor as coisas tendem a ficar complicadas, tudo parece turbulento demais, mil palavras vem de encontro a mim, muitas vezes desejo ser surdo para não as ouvir. Eu me machuco para não lembrar do quão machucado já fui, é estúpido, eu sei, mas é a forma que encontrei para sobreviver. 

As vezes eu sinto dúvida se você se preocupa de verdade, eu tenho dúvidas se você é real, se só é uma alucinação criada por mim em meio ao desespero, eu não sei, costumo não saber de muitas coisas quando estou assim. Você disse que ficaria, você ficou, sem fazer perguntas e isso nunca aconteceu. 

Preciso te contar que eu queria que você perguntasse como vão as coisas, como estou e onde estou, você disse que ficaria e isso deveria me bastar, mas pela primeira vez eu sinto falta das perguntas, das suas perguntas.

Me pergunto se te pagaram? Será que foi o suficiente para ficar? Será que vai durar para sempre…?

Preciso te contar que você tem cheiro de saudade, tem cheiro de infância, de carinho e de medo, eu tenho medo de você, isso me machuca, tenho medo de você não voltar, tenho medo do que vai restar de mim, eu enxergo o mundo do alto do precipício e isso é sempre assustador, não há nada para olhar, tudo tá sempre apagado, tenho medo, tenho medo desse sentimento aumentar. 

Preciso te contar que é sempre bem frio na beirada do precipício, eu nunca sei como cheguei até lá, mas acontece quase sempre que algo foge do meu controle, é frio e solitário, não importa o que façam nada parece me alcançar nesses momentos. 

Desculpe-me por ser tão quebrado, eu gosto da sua companhia, gosto de sentar do seu lado e da forma como você me faz rir enquanto tenta me entender no silêncio. Mas daqui onde estou eu sei que se você ficar não vai ser para sempre, olhar para o futuro é sempre desesperador, é vazio, incerto e perturbador. 

O futuro é inebriante, uma cortina espessa de fumaça que cobre meu corpo e me impede de respirar.

Eu sei. Não importa o que digam você não tem culpa, não importa o que eu diga você não tem culpa, só me desculpa por te fazer chorar, por ser assim tão quebrável, você pode desistir, pode me deixar em silêncio, mas promete que volta para me abraçar, eu gosto do seu abraço, gosto de me aquecer no seu silêncio.

Promete?

Me pergunto caso você não volte se serei capaz de continuar lembrando do seu sorriso, da sua voz calma me acalmando e do seu abraço tão solar. Eu não queria sentir o que sinto, ou ter meus olhos inundados a cada pequeno desastre que eu mesmo cometo, mas eu sou assim. 

Tenho que te contar que eu não sei quem é você, mas você parece saber tanto sobre mim que tenho medo do que pode fazer comigo, tenho medo de você me jogar daqui de cima e eu me perder na escuridão. 

Respirar é sempre mais complicado quando isso acontece, minhas decisões são impulsivas, eu escolho sentir dor a pensar de forma repetitiva nas coisas que fiz. Tenho medo de me esquecer de quem eu sou, de me perder no meio dos meus escombros e ninguém me encontrar, tenho medo de você não me encontrar, de desistir, de fechar a porta e me trancar aqui dentro, de ir embora assim como chegou.

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I have a tale to tell

Para todos que vivem de abraços perdidos e perguntas não feitas, eu tenho uma história para te contar… 

Eu te via de longe, mesmo quando você se esforçava para ficar perto. 

Nunca me contou seus sonhos, medos ou o que te fazia ficar feliz. 

Sempre foi mais parecido com um ponto final, mesmo eu querendo que você se tornasse uma vírgula. 

Não me lembro quando me perdi do seu sorriso, quando deixou de ser real para ser alguém que vivia a esperar uma resposta do amanhã. 

Logo você que sempre corria na direção oposta ao tempo, que vivia a vida contando cada gota de emoção, que sempre demorava para chegar, quando chegava não parecia querer ir embora. 

Era estranho que seus passos tão apressados ficassem ali tão à vontade. 

Você estava comigo, sempre sentado ao meu lado, segurando minha mão e sorrindo um sorriso triste de quem queria me convencer de que tudo daria certo. 

Não deu tudo certo. 

Seus olhos me pareciam sempre prestes a explodir, pareciam gritar por socorro, você fugia das perguntas sem olhar para trás.

Você desaparecia tão logo chegava, não deixava rastro e nem perguntas, apenas ia. 

Parecia sempre pronto para uma despedida, te encontrar era sempre como ler uma história de um parágrafo único . 

Não respondia perguntas, não deixava dúvidas, você não queria deixar saudades. 

Eu não entendo todas as conjunções temporais que separam o que somos do que fomos, queria entender onde nos partimos e eu te deixei partir. 

Queria não ter te deixado ir tão rápido.

Ainda me lembro do som da sua voz enquanto me ensinava como me proteger do mundo. 

Eu não precisava ter medo, era o que você sempre repetia ao fim de cada história, eu sabia que era mentira, te ouvir contando sobre os perigos da vida era o único momento que eu conseguia te entender, você sentia medo, não medo do que viveu e ainda poderia viver, mas medo de mim, medo que eu me levantasse e fosse embora. 

Eu ficava mesmo sem querer ficar. 

Você me mostrou suas cicatrizes mesmo sem eu querer ver. 

Você sorriu mesmo quando queria chorar, e eu sabia disso. 

Você não queria perguntas, não sabia como responder, e eu deveria ter entendido isso. Só queria ser ouvido em silêncio. 

Eu nunca soube como reagir. 

Sempre me perguntei os motivos do seu sorriso ser tão triste e de você mesmo falando verdades parecer me contar mentiras.

Abuso, Ansiedade, cartas, Cronicas 24/25, depressão, Minhas Crônicas, Violência

Believe me

Escrevo para todos que guardam a dor de ter seus corpos violados, que carregam uma culpa que não tem, que se desesperam com lembranças involuntárias. Desejo que que todos os silêncios possam ser ouvidos sem julgamentos.

Eu me lembro perfeitamente do dia que aconteceu e isso ainda faz meu estômago revirar, minhas pernas ainda doem e tudo a minha volta parece girar mais e mais rápido. Era uma quarta feira de cinzas, as ruas estavam lotadas, as serpentinas arrebentadas se espalhavam no chão, os cheiros se misturavam, bebida, urina, suor, era indecifrável e inebriante, meus olhos piscavam e minha cabeça parecia não pender no lugar, pequenos e involuntários espasmos se espalharam pelo meu corpo, enquanto tudo dentro de mim parecia vir para fora. 

A esperança, o amor, o afeto, tudo parecia uma grande massa cinza que eu não conseguia conter que me engasgava e tirava o meu ar.

Não consegui compreender as mãos que me tocavam tentando me levantar, minhas mãos tentaram de forma desesperada afastar aqueles intrusos, tentei recolher meu corpo e me proteger, mas era impossível, tudo queimava, os toques, as palavras, meu corpo. 

“CHAMEM AJUDA, UMA AMBULÂNCIA…” – alguém gritou, eu não conseguia dizer nada, os barulhos se intensificaram e isso fazia minha cabeça girar ainda mais. Quando dei por mim, já estavam me deitando em uma maca fria com um fino colchão, a coberta não saciava meu frio e nem escondia meu medo, meu corpo ainda tremia a cada olhar invasivo e toque indesejado. 

Falhei quando tentei me reerguer, não queria ajuda, tranquei minhas portas e janelas, fechei meus olhos, me cobri para o mundo, não me importo deles saberem o que aconteceu, mas me importo deles me culparem, os olhares se repetem dia após dia, e é como se tudo se repetisse, passo horas sentindo aqueles toques, sentindo aqueles cheiros, vomitando aquela dor, todo dia é uma quarta feira de cinzas diferente. 

Falhei em achar que ficar só me deixaria bem, o silêncio me lembra incansavelmente de todas as minhas faltas, de tudo que poderia ter feito e não fiz, o silêncio intensifica minha culpa e eu não consigo segurar os soluços advindos dela. 

Eu tento gritar, mas sei que gritar não adianta mais, ninguém vai ouvir ou entender, ninguém vai ficar. 

No meu mundo não existe estabilidade, tudo é instável, mesmo que eu tente esquecer, mesmo que as pessoas não saibam, sempre terá algo para reafirmar aquela quarta feira, aquele neblina no meio da purpurina, o caos pigmentado que pintava minha roupa naquele dia, fez com que cada cor carregasse um pedaço da dor que senti, um pedaço de mim que se tornou apenas uma mancha no passado. 

E eu que tentei de tantas formas me transformar em muitos, agora estava me reduzindo a nada, a um pedaço de lamentação que não tinha onde esconder. Sinto falta do silêncio carregado de felicidade que era ter alguém ao meu lado, sinto falta dos pecados que cometia disfarçados de amor, sinto falta dos sorrisos que envolviam as pequenas histórias de fim de tarde. Sinto falta…

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Sangrando

Dedico esse texto aos corações que se sentem desalinhados, que se sentem usados e observados, que deixam cair pelo caminho tudo que é desimportante e que não conseguem olhar para o passado sem se machucar.

Constantemente sangro por coisas que não entendo, eu quero gritar, mas minha voz não saí, minhas mãos tremem, meu coração dispara, o choro se entala na minha garganta e dificulta minha respiração.

Me sinto em uma rua deserta, com luzes apagadas de forma permanente, não há barulho, não há esperança, sinto um silêncio muito maior dentro de mim do que do lado de fora. 

Me sinto viciado nessa sensação, não que eu goste, mas não sei viver de outra forma, não sei não me proteger do mundo, é como se a todo instante alguém pudesse ascender as luzes e iluminar meus defeitos, me interrogando, me questionando, me apontando. 

Tudo dentro de mim parece desencaixado eu respondo sim, mesmo quando quero dizer não, eu faço graça, engulo meu choro e sorrio, propositalmente é mais fácil fingir ser quem eu não sou, do que deixar perceberem o quão perdido estou. 

Tropeço nos meus pés, sinto um incômodo no joelho, o choro por vezes escapa, procuro por abraços mas não há ninguém, parece que fugi durante tanto tempo que agora não há ninguém.

O escuro tão incômodo e silencioso me ajuda a sobreviver e a me camuflar, ajuda a esconder toda a dor que eu finjo não sentir, enquanto respondo de forma atravessada todas as perguntas incômodas…

Não sei se iriam entender toda a confusão que me tornei, não sei nada sobre mim, não sei o que quero e tenho medo do desconhecido, mas eu queria não estar sozinho, queria confiar nas minhas certezas. 

Não sei viver sem essa dor, não sei amar sem me machucar.

Talvez a culpa seja minha, talvez a culpa seja do outro, só sei que viver é como morrer um pouquinho a cada instante, e ninguém parece se importar com o quanto eu morro, com o quanto de mim se perde pelo meio do caminho. 

Costumo sonhar acordado enquanto tropeço em uma realidade que parece não me pertencer.

Queria que enxergassem meu pranto, ouvissem meu silêncio e alimentassem meus sonhos, mais do que os meus medos. É, eu tenho muitos medos, tenho medo de me perder e ninguém me encontrar, tenho medo de não acordar, tenho medo que não me escutem e que tudo que faço se torne indiferente. 

Ainda não me acham quebrado, me olham e enxergam uma peça perfeita, completamente útil e disponível, às vezes eu queria que não me enxergassem, talvez eu finja bem, porque eu não me sinto assim.

Me sinto desalinhado com o mundo, mas se precisam de mim, eles me usam e alinham conforme suas necessidades, tenho medo de não ser mais útil e de me tornar descartável. 

Eu não enxergo nada além dos meus pés, o ar é rarefeito, cruel, machuca meu peito, quanto mais eu penso e tento descobrir o que me falta, mas me falta ar. 

Queria não ter encontrado tantas portas fechadas. Queria tentar buscar por ajuda da forma correta, de forma que me entendessem. 

Eu deixei tudo desarrumado para trás, fugi do que me dava medo e abandonei tudo que achei impossível, e ainda assim, tudo permaneceu ali.

Estava tudo jogado no tempo, uma bagunça repleta de entulhos, eu queria ter forças para arrumar sozinho, só que eu não sabia por onde começar, eram caixas e caixas, algumas pesadas e outras leves que eu tentei entender como pude deixar para trás. 

Me machuquei enquanto tentava desentulhar tudo aquilo, quis desistir, não queria estar sozinho. O choro que saiu era diferente, parecia descomprimir tudo que eu sentia e nunca tinha entendido. A dor era diferente, o medo parecia ter sentido, e tudo era barulhento demais para ser despercebido. 

Ansiedade, Crônica, Cronicas 24/25, silêncio

Quando o carnaval passar…

Para todos aqueles que criam um outro “eu” para se protegerem das tempestades, eu sei que ai dentro é vazio e parece que ninguém entende, respira, tem sempre alguém que vai te reconhecer no meio da tempestade e abrigar teu coração em meio a um abraço acolhedor.

Quando o carnaval passar

Vamos dançar

qualquer coisa é melhor que tristeza

(Cícero – Laiá Laiá / Canções de Apartamento)

A purpurina se espalhou com tamanha facilidade, as serpentinas estavam por todo canto, as músicas saiam automaticamente enquanto você reconhecia outras línguas, mas estranhamente se sentiu vazio, as pernas se cansaram, se sentou no chão, tudo rodou, não conseguia sorrir, ninguém pareceu ligar, o bloco seguiu e você ficou. 

Ficou… 

O vazio parecia ecoar mais forte…

Doía o ouvido, a cabeça rodava, algo se entalava na garganta, um cheiro amargo incendiava suas narinas.

Ninguém parecia sentir aquilo…

Se sentiu deslocado, machucado, magoado. 

Queria entender o que faltava dentro de si. 

Tentou se levantar e caminhar, mas tudo parecia rápido demais, respirou como se seu mundo dependesse disso, mas algo dentro de si desencaixou, foi um desencaixe barulhento mas ainda assim oculto por todo barulho da cidade.

Um choro amargurado surgiu, os soluços saíam em meio a tempestade que parecia cair sobre você, era vazio mesmo com tanta gente ali, a purpurina escorria misturando-se ao suor, quis fugir, mas não conseguia saber como voltar.

Se sentiu perdido.

Os olhos pareciam não acompanhar toda aquela movimentação.

Atravessou a avenida colorida, tropeçou nas garrafas espalhadas, caiu entre os papéis coloridos.

Se machucou mais do que já estava machucado.

Não havia sangue ou algo que foi ralado, mas doía, doía tanto que a dor te guiou sem nem perceber, mesmo não reconhecendo o caminho, você chegou.

A porta parecia aberta, como se alguém tivesse abandonado o lugar às pressas.

Não reconheceu o lugar que deixou, mesmo que o endereço fosse o mesmo, mesmo que nada parecesse ter sumido.

Estava tudo fora do lugar, empoeirado, as certezas escondidas pareciam ainda mais escondidas dentro dos armários bagunçados. 

Sentiu o cheiro da saudade de um tempo que não voltava, comprimiu o ar, encolheu o corpo, sentiu frio.

Arrepiou a coluna, mordeu os lábios, engoliu as lágrimas. 

Não se lembrou da bagunça, não se lembrava de nada, o vazio aumentava, o choro ganhava força em meio ao silêncio que ecoava ali.

Era vazio, frio e silencioso, seus pensamentos pareciam dar eco.

Uma mistura de medo e agonia apoderou-se de você.

Tentou fechar os olhos, mas descobriu o medo de escuro e de toda a solidão ali representada. 

Tentou caminhar devagar entre os destroços, paralisou se dando conta de que não conseguia sozinho, era impossível se reconhecer ali, quis gritar, se desesperou, tudo estava diferente.

Se olhou no espelho, não reconheceu o reflexo ali, a dor aumentou, o vazio ecou e o espelho se quebrou. 

Eram tantos de você, ali espalhados naquele chão frio que você se escondeu. 

Tropeçou.

Se machucou.

Gritou.

Tentou se levantar e se perdeu em si mesmo, nas lembranças, nos sorrisos em lágrimas.

Lembrava-se vagamente que nas primeiras vezes tentou falar o que sentia, mas não foi suficiente, te pediram sorrisos e você sorriu, pediram para ficar e você ficou, te pediram para ser quem não era, e você fez. 

No começo não fazia tanta diferença, mas depois começou a caminhar no automático, respirou a fumaça dos seus sonhos incendiados entre as palavras não ditas e as lágrimas que secaram antes de cair. 

Você seguia por linhas retas mesmo que quisesse fazer curvas.

Seguia por caminhos conhecidos para não desconfiarem do que restou de si, para se proteger e manter aquela parte desconhecida protegida de tudo.

Mas não deu certo, você brincou durante tanto tempo de pique esconde com si mesmo que não se reconhecia, não entendia o choro, não conseguia guardar os sentimentos nos lugares, não acompanhava os próprios passos porque não tinha para onde ir ou para o que voltar, era como se embriagar na incerteza de nunca ser quem deveria ser. 

Não havia jeito de voltar a ser o que era e a você bastava apenas ser quem realmente era.

Ansiedade, Cronicas 24/25

Nada ficou no lugar

Aos corações que necessitam de saudade para continuar a bater, dedico esse texto, que dezembro termine sereno como a brisa de um verão no fim de tarde, mas se houver tempestade que haja também quem não te deixa sozinho. Eles entendem e eles vão ficar…

Sobrevivo do caos de não saber quem eu sou, não consigo descrever tudo que sinto e meu coração se aperta diante de gatilhos que eu não sei identificar. Quando percebo lágrimas já inundam meus olhos o que torna turva minha visão, eu não consigo ver e entender o que acontece, eu só sei que continua a acontecer independente da minha existência.

Às vezes eu volto para casa, eu preciso me sentir parte de algo, preciso que entendam o que eu sinto e eu sinto saudade de quando me bastava existir sem dar nada em troca. Tudo continua no mesmo lugar, em cada cômodo uma saudade diferente, ao mesmo tempo que nada permanece igual e por mais que digam que existe saudade, tudo que sinto é saudade de quando tudo isso era de verdade. 

De forma ínfima percebo que o tempo passou e me deixou todas as lembranças que eu não sabia existir, tudo que antes parecia tão pequeno agora parece me causar uma dor desproporcional, eu revisito cada diálogo, cada sentença, cada erro cometido por mim e por outros, é como rebobinar uma fita mofada de forma insistente, é assim que me sinto.

Eu choro mesmo sem lágrimas, eu grito sem nenhum som, eu não entendo o que eu fui e se um dia eu fui algo diferente, sinto saudade de quando respirar não me causava tanta dor, a cada novo suspiro é como se algo me machucasse por dentro, dói, dói tanto que eu não consigo explicar o tamanho dessa dor.

Eu me escondo em lugares desconhecidos, eu invado espaços que não me pertencem, às vezes tudo que sinto é saudade mas tudo que me resta é a lembrança do cheiro de mofo nas paredes, o tempo é cretino, ele leva tudo até mesmo os sonhos…

Constantemente eu preciso de ajuda para organizar meus pensamentos, tudo me foge, me perco nas horas, tudo é muito rápido, é como se eu constantemente estivesse em uma corrida na última posição, me sinto ofegante, trêmulo e solitário. Me afogo todos os dias nos meus pensamentos, é um mergulho sem volta em uma piscina sem borda. Eu quero fugir, mas me sinto preso sem ter para onde ir.

Agora mesmo que só tenha passado pouco tempo, parece que tudo me cansa, tudo por mais conhecido que possa ser, se torna desgastante demais  para lidar sozinho, sem ajuda, eu não queria precisar dessa ajuda, mas eu me perco até mesmo por caminhos conhecidos, eu me escondo de tudo que não conheço e eu tento me fazer presente para que não me esqueçam, não esqueçam o que eu fui e não percebam o que me tornei.

Sinto saudade de quando a solidão não era um problema, agora por mais que eu ame, eu não consigo me manter presente mesmo que eu queira, mesmo que eu insista, eu me sinto como um eterno visitante nos corações que eu julguei que fossem casas. Eu não consigo evitar essa sensação, eu me tornei um desencaixe em um mundo de peças perfeitamente polidas, me tornei aquele que deixam de lado mesmo quando sou convidado. 

Sinto vontade de chorar, sinto que me esconder é necessário, eu sinto como se todos os abraços que me acolhem fossem vazios, como se eles não quisessem realmente estar ali, me ouvindo, não sei como reagir, quando me perguntam como me sinto, eu não sei responder, quando respondo ou tento responder, todas as vozes se calam e somem… 

Não acho que isso é culpa de alguém além de mim, talvez eu tenha me tornado uma pessoa desinteressante, um rastro interminável de saudade do que um dia eu fui, talvez só isso mantenha a porta aberta para essas pessoas se manterem aqui, inclusive eu. Talvez seja eu que esteja empurrando essa porta para ser fechada. 

Eu vivo de saudade, de tudo que um dia eu fui, de acompanhar o riso, de andar entre os sonhos, de não me perder com facilidade nas conversas e de não ligar para o meu desencaixe, eu sinto saudade de quando tudo que me bastava era o encaixe dos braços envolta do meu coração. 

Sinto saudade de quando minhas decisões bastavam, de quando eu não me importava com as palavras, com os olhares ou os suspiros. Apesar de não me arrepender das minhas decisões eu sinto saudades de quando tudo era mais simples, de quando isso tudo não causava tanta dor, de quando eu não tinha que engolir tudo que sentia para permanecer ali. 

Sinto saudade de quando meu soluço não precisava ser contido, de quando minhas palavras não precisavam ser escondidas e de quando eu sabia me encontrar mesmo nas maiores tempestades, sinto saudade de quando eu não sentia dor por cair e me machucar, agora tudo dói demais, minha presença não é mais tão importante, meus abraços já não são necessários e meu medo de desaparecer se torna cada dia mais frequente. 

Talvez tudo que reste seja o cheiro da inconstante saudade de tudo que fui, de tudo que vivi em cada canto desta casa. Nunca senti que desapareceria realmente, mas se eu pensar bem o desaparecimento é tudo que me resta, tudo se foi mesmo que todos ainda estejam aqui, de todas as tempestades que eu poderia enfrentar essa sem dúvida é a pior. 

Sugestão de escrita diária
Quais são seus maiores desafios?

 

Ansiedade, Cronicas 24/25, silêncio

Suficiente

Eu ainda não entendi muito bem como a morte do Liam bateu em mim, não era fã da banda, não acompanhei a carreira solo, eu seguia umas páginas de fãs, mas era só isso. De alguma forma a morte me pegou de um jeito diferente do habitual e isso foi muito estranho, talvez eu esteja ficando velha demais para olhar para o mundo da mesma forma e dizer “tá tudo bem”.

Quanto mais eu curtia coisas sobre ele, mais apareciam, então mesmo que eu não soubesse nada sobre suas relações, amigos, ou do tempo de banda, agora eu literalmente estou inundada de informações que não me fazem bem.  

Eu sou uma pessoa que apesar de bem racional, consigo ser sensível à dor dos outros e perceber que esse rapaz se doava tanto e tinha tantas dores é algo complicado de assimilar. Meu pensamento mais irracional do dia foi: “Caraca, alguém podia ter aparecido, será que ele sabia que era tão amado?”

Dedico esse texto aos corações que sentem e se doam demais, que precisam gritar para serem ouvidos… vocês foram suficientes e necessários…


De repente tudo desabou, 

não houve um único aviso de que as paredes iriam ruir. 

Eu realmente queria receber um aviso sobre isso, foram tantos dias de paz, foram realmente bons, pude respirar sem engasgar com todos os meus pensamentos. 

Às vezes me pergunto o quão fraco eu fui, eu não corri quando percebi que tudo desabaria, eu não gritei alto suficiente por socorro, será que alguém realmente ouviu? Será que se ouvissem viriam me socorrer? Eu não sei, nada parece fazer sentido no momento, eu desabei junto com essas paredes e agora só posso esperar pelo fim. 

Não queria que o meu mundo fosse um grande álbum de fotografia, onde reviro as páginas e percebo mudanças em todos menos em mim. Eu passei a colecionar sorrisos, que não eram meus. 

Eu me importo demais, me importo com o tamanho dos sorrisos, com o aperto do abraço, com as palavras soltas, eu queria não ser egoísta, mas eu queria que houvessem feito o mesmo por mim. Queria saber gritar na direção certa, queria entender como o mundo funciona, queria não me sentir como me sinto, queria não ter confiado tanto e ter dito mais não do que sim, eu não me arrependo, eu tentei, eu acho que tentei…

Não acho que o mundo é justo, me desculpem mas não acho. Acho que eu vivi bons momentos com pessoas boas, durante um tempo as fazer sorrir me bastava para ter felicidade, mas depois passou a não ser suficiente, tudo parecia doer demais, fazer sorrir era tudo que me restava para ser visto. Ainda não sei se isso foi suficiente para ser lembrado, mas foi suficiente para me fazer dormir. 

Queria ter lido todos os livros da minha estante, ou ter ligado para todos que me falaram “eu te amo”, queria que a sensação de que tudo ficaria no lugar fosse verdadeira, mas ela durou tão pouco que me sinto preso dentro da minha cabeça, dentro de todas as expectativas que eu quebrei, não sei de devo me desculpar, não sei se me sinto culpado, eu não sei de nada.

Não entendo porque a paz não pode durar por mais tempo, por qual motivo tudo não pode ficar como era antes. Eu nunca fiz o suficiente para evitar que tudo desabasse, talvez eu realmente fosse fraco, talvez eu devesse parar de tentar ser suficiente, talvez eu devesse me conformar com tudo que o mundo me oferece, mesmo sendo tão pouco. Será que eu não mereço sorrir por conta própria? Será que tudo que me basta é tão pouco? 

Antes de tudo ruir eu senti o cheiro do cimento misturado a água e um vazio alcançou meu peito, era o início de tudo que eu nunca terminei. Eu detesto que tudo tenha que ser tão melancólico, mas eu realmente sinto falta de tudo que um dia eu fui. 

Mesmo quando me falam que eu continuo o mesmo, eu não acredito, não posso acreditar, o mundo mudou, as pessoas mudaram, nada ficou no lugar, incluindo meus pensamentos, meus sonhos e meus medos, tudo se intensificou. 

Eu queria alcançar a lua e conquistar o mundo, um dia eu realmente achei que isso seria possível, eu queria parar guerras e fazer lágrimas se transformarem em sorrisos, sério, pode parecer infantil, mas eu sempre quis ser lembrado por tudo que fiz, não importa se tudo desabar, mesmo não tendo conquistado planetas, alcançado a lua ou desarmado o mundo, pelo menos consegui secar algumas lágrimas. Isso agora parece bem pouco. 

Ouvi o primeiro “crec”, o segundo, e o terceiro, foi rápido, certeiro, tudo veio a baixo, senti que meu coração parou, ficou escuro, foi difícil respirar. Não me lembro quando foi a última vez que isso aconteceu, mas toda vez que acontece parece que fica mais forte e mais difícil de levantar, sempre acho que vai ser a última vez. 

Quanto mais eu me afundava, mais eu desacreditava de mim mesmo e acreditava nas coisas que diziam sobre mim. Os sorrisos já não me bastavam, os abraços me faltavam e tudo que queria era me esconder; 

Eu não deveria estar aqui, não deveria sorrir ou me aproveitar desse lugar. 

Eu não queria ouvir, eu quero me desculpar por toda preocupação causada, pelas ligações não atendidas, por todo o silêncio causado, eu queria me desculpar por tudo que eu quis ser e não fui.

Eu não consigo acreditar quando dizem que sou bom, que sou realmente bom, porque tudo que ecoa, é que não sou suficiente. Eu constantemente me pergunto por qual motivo insisto. 

Quando tudo fica escuro, quando todas as paredes parecem pesadas demais eu me esforço para escutar, para procurar o mínimo sussurro de “eu te amo”, para sentir os abraços e enxergar os sorrisos, e isso me basta, não sei por quanto tempo, mas me basta. 

**Eu escrevi esse texto ouvindo One Direction, eu nunca ouvi de forma consciente essa banda…

Ansiedade, cartas, Crônica, Cronicas 24/25, depressão, Saúde

Dissociar

dissociar

desfazer uma associação; desunir(-se), separar(-se), dissolver(-se)…

Ao contrário de todas as outras vezes, dessa vez eu sei por qual motivo escrevo e para quem escrevo. Eu nunca acompanhei a banda One Direction, mas quando eu soube do falecimento do Liam Payne e vi as famosas homenagens, isso me afetou de alguma forma, nós tínhamos quase a mesma idade e mesmo eu não o acompanhando não consegui não me importar. 

Para todos que já se perderam de alguém que precisava ser encontrado…

Eu não me lembro quando você começou a gritar, quando suas lágrimas caíram pela primeira vez ou quando seu sorriso tão expansivo começou a se fechar. Eu me lembro do seu abraço apertado e de como você me acalmava em silêncio, mesmo quando tudo que eu queria era solidão.

Você sempre foi melhor lidando com dores, seu abraço sempre foi abrigo, suas palavras acalento, sua companhia sempre foi calmaria, você que sempre dizia o que sentia, repentinamente tinha ficado em silêncio antes mesmo de todo nosso mundo escurecer, não vai ter abraço, acalento e calmaria, tudo que vai ter é um silêncio ensurdecedor e soluçante. 

Eu queria ter te olhado da mesma forma como você sempre me olhou, queria ter percebido suas fugas, queria ter entendido o quão fragmentado você se fez para atender a tantas expectativas, eu queria ter te conhecido por inteiro, você se partiu em tantos para se proteger, separou seu tempo, seus limites, criou uma persona que aparecia sempre que preciso para te proteger de si mesmo, até que tudo se quebrou e você não voltou, nenhuma parte sua voltou… 

É tão desesperador que me sinto egoísta, eu te conhecia, sabia seus gostos, seu ritmo, suas manias, mas ainda assim não consigo pensar no que não conhecia você tão bem assim. Não me lembro quando suas pausas em nossas conversas começaram a ficar muito longas, você parecia pensar na vida, em uma vida que não tinha mais volta. Mas eu agora também queria que voltasse. 

Talvez eu tenha sido negligente, talvez eu tenha pensado que tudo era reflexo da nossa vida corrida e da nossa falta de tempo, talvez eu esteja tentando me enganar e sanar a culpa que eu sinto. São tantas alternativas que me sinto impotente, afinal não adianta pensar em tudo que nunca aconteceu, em algum momento eu me perdi de você, perdi seu choro, sua angústia, seu pedido de socorro. 

Eu fecho meus olhos e penso em tudo que passou na sua mente naquele momento, refaço seus passos milimetricamente; eu choro, sorrio e me culpo, é um loop que passou a me atormentar, você não me disse nada quando perguntei. Desculpa se parece que estou te culpando, mas você não disse e eu não soube interpretar seu silêncio, suas pausas e sua constante saudade. 

Eu me sinto culpado, e talvez tudo que eu faça seja para aliviar minha culpa, se tivesse te encontrado, ficado ao seu lado, te abraçado até tudo ficar bem, se eu soubesse te entender, como você me entendeu, talvez você ainda estivesse aqui.

Tudo que sinto agora é essa angústia que esmaga meu peito, é um acúmulo que dilacera o que sinto e me deixa sem saber como reagir. Eu fico pensando em como você estava, como se sentiu, se queria conversar, eu não consigo parar de pensar em tudo que eu sempre quis te dizer e nunca falei. 

A dor que sinto é dilacerante e parece retirar cada órgão do lugar, queima, confunde e se espalhar, tudo que resta são as lágrimas, é um choro que deixa de ser contido, que busca por consolo, que busca migalhas de entendimento, que busca respostas, respostas que nós sabemos que eu não terei. Eu me pergunto se essa dor que sinto chega perto da dor que você sentiu, se eu te fiz sentir algo parecido, se você me perdoou por tudo que eu deveria ter sido e não fui. 

Você partiu tantas vezes e de tantas formas que eu não acreditei que você realmente iria embora algum dia, deveria ter sido mais atento, ter te olhado como tantas vezes você me olhou, eu queria não ter que me despedir, não ter que acordar, não ter que dizer adeus ou acreditar que nosso último abraço foi tão rápido, que o até logo foi para sempre, que tudo se foi como o vento. 

Eu não me lembro a última vez que eu ouvi sua voz, não me me lembro quando escutei seu riso pela última vez, não me lembro se eu disse tudo que sentia sobre você, não sei se te agradeci por tudo que você fez, não sei se te abracei por tempo suficiente para que soubesse o quanto foi amado.