Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Minhas Crônicas

Tórrido : Saudade

Tórrido, adjetivo:. quente em excesso; ardente.

Saudade, substantivo feminino: sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas

Preciso te dizer que eu errei.

Preciso te dizer que depois que eu te vi, eu me peguei pensando no que eu ainda não tinha vivido, fantasiei nosso amor, nossa casa e nossos filhos.

Preciso te dizer que eu também já te disse “eu te amo”, mas foi um engano, você nem me ouviu, mas ainda assim, mesmo sem me ouvir, você sorriu para mim.

Eu desejei ter suas mãos na minha cintura e minhas pernas circundando a sua, desejei teus lábios colados nos meus, desejei te deixar desnudo, prensado na parede, com meus lábios descendo por teu corpo. Eu desejei tanto que um dia cedi a eles e os transformei em realidade.

Preciso te dizer que era desejo.

Eu te olhei e cobicei o que não era meu, te disse eu te amo quando ninguém ouviu. Falei que seria meu quando não pertencias a ninguém, te apertei na parede e troquei minha respiração com a sua enquanto nos beijávamos.

Era uma noite tórrida no fim das contas…, mas eu me lembro de cada instante daquele pequeno e insistente momento.

Eu disse que não passaria daquilo, menti, voltei para os teus braços enquanto aproveitava teu abraço e desabotoava teus botões, te tirei a roupa e desci meus lábios por teu corpo, te jurei mentiras enquanto rodava minha saia e te arrastava para a cama.

Você me olhou em meio a surpresa e por leves instantes eu pensei que recuaríamos, mas eu estava mais uma vez errada, você me pegou pela mão e me puxou até o colchão.

Rolamos na cama em meio ao nosso riso, trocamos nosso olhar e compartilhamos segredos sem dizer uma única palavra.

Senti tua mão na alça da minha blusa enquanto perdia mais uma vez teus lábios por meu torço. Quando dei por mim eu já estava nua tentando com minhas mãos encontrar um lugar no seu corpo enquanto te olhava do alto do seu colo, sentada em sua cintura.

Era uma visão perfeita dos seus olhos, seu corpo virou meu mapa e suas mãos naquele instante se tornaram minhas guias.

Preciso dizer que não importa o que eu te diga, tudo que vai contar é o que você me prometeu.

Eu contei cada pintinha no seu corpo, contei cada uma: da pontinha do seu nariz até a ponta do seu dedão do pé.

Quando eu acabei de contar você me olhou sorrindo, se reclinou no colchão em meio a nossa bagunça particular e me deu um beijo, não um beijo voraz que me roubava os pensamentos, mas um beijo calmo e repleto de afeto.

Eu duvidei do que sentíamos enquanto via você invertendo nossas posições.

Eu me perguntei se você me amava realmente ou se amava aquele instante em particular, e como em um passo de mágica, você pareceu ouvir minha pergunta e sussurrou no pé do meu ouvido um “eu te amo”.

No fundo parecia uma trapaça para me fazer dizer o mesmo.

Sua boca desceu por meu pescoço, até chegar nos meus seios e me arrancar gemidos, eu senti cada dente me arranhando e sugando, eu arfei e você riu sem me olhar continuando sua árdua missão em encontrar diferentes maneiras de me tirar palavras.

Eu não te disse “eu te amo”, mas amei sentir sua boca me marcando, a sensação molhada que deixava no meu corpo quente, me afoguei no prazer que só você parecia saber me dar.

Eu realmente me permiti acreditar na sua promessa: de que iria ficar, que tudo permaneceria bem, que seríamos nós dois contra o mundo.

Confesso, eu sabia que você não iria ficar e talvez eu também não quisesse isso, mas ainda assim, foi bom saber que naqueles poucos instantes em que estivemos juntos você quis ficar, ficar comigo e por mim, quis me amar e fazer de nossas ilusões realidade.

Você não mentiu, naquela fração de tempo só existíamos nós no mundo, então tudo que disse ali, naquele quarto, era verdade.

Eu achei que eu te amava, mas amava o som da sua boca me dizendo o que eu queria ouvir, me fazendo sentir o que eu nunca senti.

Eu amei a forma como você parecia me ouvir sem eu nem mesmo falar, eu amei te ouvir enquanto encostava meu ouvido no teu peito e sentia suas mãos no emaranhado dos meus cabelos.

Eu amei ouvir nossos corpos no silêncio daquele quarto.

Eu amava teu toque tentando me descobrir. Amava a forma como nossas mãos pareciam tão perfeitas juntas em meio a nossa bagunça.

Eu amava o toque dos teus lábios me falando coisas indecifráveis enquanto dançava uma valsa inquestionável com sua língua.

Amava sentir suas mãos subindo por minhas pernas, era um misto de temperaturas, me arrepiava por inteira, sentir a pressão dos teus dedos nelas, me fazendo sentir algo que eu não sabia o que era, me fazendo perder as palavras e encontrar o instinto de me manter livre para receber cada parte de você.

Eu menti. Menti mais de uma vez, eu amei por mais de uma vez naqueles poucos instantes, amei segurar seus cabelos enquanto sua boca tracejava meu corpo e me sugava, me bebendo por inteira.

Eu não queria que terminasse, não, eu não queria que terminasse, eu queria te amar do jeito que você me amava.

Amor, Ansiedade, Crônica, Minhas Crônicas, silêncio

Ansiedade: Solidão

Gatilho: Crise de ansiedade.


ho’oponopono, sinto muito, me perdoe, te amo e sou grato

O amor é um Deus de palavras profanas, que embala nossos sonhos e acalenta nossos corações. – Juliana M.


Ele proferiu palavras mundanas e se desesperou com o que sentiu, o ar que se alojava em seu ventre o impedia de respirar, era um peso que o paralisava no lugar.

Suas mãos tremulas manchavam sua pele, elas tracejavam caminhos incertos, ele se sentiu incapaz de controlar qualquer ato de seu próprio corpo, os primeiros soluços vieram de forma sôfrega, mas não tinham a intensidade de quando o ar finalmente saiu.

Quando o ar fugiu por seus lábios, ele sentiu que trouxe junto toda a sua vida, seu mundo desabou ali naquele instante, ele nem ao menos controlou tudo que saiu de dentro de si, os soluços já não cabiam dentro dele.

Quis se manter de pé, mas no momento que tudo aquilo saiu de dentro de si, saiu também seu equilíbrio, ele foi ao chão e não conseguiu mais se reerguer. É difícil para uma pessoa adulta admitir que seu chão tinha ruído e que ele tinha desabado, mas esse era o fato.

Repentinamente tudo pareceu escurecer e ele que já se via tão sozinho, se sentiu ainda mais vazio. Não conseguia sentir nada além de uma dor intensa, que se fazia presente em todo seu corpo.

Então ele resolveu mentir, mas não tinha ninguém além dele para enganar, ele mentiu para si mesmo, “vai ficar tudo bem”, ele sabia que era mentira, mas mesmo assim repetiu incansavelmente na frustrante missão de fazer tudo aquilo passar.

Não tinha mais nada para sair, tudo que restou dentro dele era o silêncio, que fazia questão de ocupar cada espaço do seu corpo. Seu silêncio era pesaroso e cheio de rancor, ele era frustrante.

Ele deu tanto de si para todos e tudo que recebeu foi o silêncio como recompensa, o peso das palavras que ele nunca falou e de todas as que já ouviu, chegaram a sua garganta e mais uma vez seu peito se encheu de uma dor, uma dor pequena que estava guardada dentro de si e que se inflamou com o seu silêncio.

O silêncio era tão assustador que ironicamente se tornava ensurdecedor, ele sentia seu peito arder e quando menos percebeu o barulho ritmado de seu coração invadiu seus ouvidos, era ainda mais assustador, era uma batida sem ritmo que se atropelava e levava junto seu corpo já tão frágil.

Ele tentou se encolher em meio a toda aquela tempestade que ele havia se tornado, sentiu o vento frio mais uma vez invadindo seu corpo, era um vento tão forte que levava a cada sopro um pouco do que restava de sua existência.

Ele não queria desistir, mas ele se sentiu encharcado pela tempestade, seus pés não tinham força para se levantar, seu peito queimava, sua garganta ardia, não restava quase nada de si, mas ainda assim ele não queria ir, ele queria ficar e sentir cada parte de tudo aquilo que ele já havia sido, ele queria que pedissem para que ele ficasse.

Em meio a inconsciência que tomava conta de todo o seu ser, ele pediu para que ao menos uma pessoa em meio a tudo aquilo o entendesse, uma, só uma. Ele implorou em meio ao devastador silêncio que o engolia.

O tempo parecia perdurar por uma eternidade, estava cansado, cansado de tudo, cansado de todos os que diziam falsamente se importar, a mágoa a todo instante crescia em meio ao seu desespero.

Sentiu um toque frio lhe apertando os braços, usou a pouca força que lhe restava para tentar se desvencilhar, era como gelo, tão frio que queimava sua pele, ele se debatia tentando se afastar.

Sentiu-se ser agarrado de forma abrupta, o corpo estava imobilizado e tudo que ele sentia era dor, era sufocante e por instantes era como estar prestes a morrer afogado, era como se ele não conseguisse alcançar a borda, era desesperador.

Ele já não tinha forças, já não tinha mais noção de tempo, só sentia dor, ele desistiu, não se debateu, se rendeu ao silêncio. O aperto não diminuía pelo contrário aumentava, ele sentiu um leve acalento em seus cabelos, era quase como se o silêncio o ninasse finalmente.

De repente seu preciso silêncio teve-se invadido por uma ritmada combinação de palavras, achou que era sua mente tentando-o enganar novamente. Deixou-se enganar, seu peito inflamado começou a seguir o ritmo daquela combinação de palavras.

“Isso, devagar…”, ele começou a entender o que significavam as palavras, o toque ainda apertado continuava, mas não era frio como o gelo, agora era quente, e ele se encolheu ali, tentando a todo custo se esquentar.

Sentiu um leve toque em seu peito lhe ajudando a guiar seu ritmo, era um toque quente, ele se agarrou desesperadamente a aquilo.

“Eu estou aqui, tá tudo bem”, ele repetiu, ele repetiu internamente que não estava sozinho, ele queria que aquilo não fosse uma mentira e por isso chorou, chorou desesperadamente porque não acreditava mais nisso, ele se engasgou novamente e tudo que saiu de seus lábios era que aquilo era uma mentira, ele estava sozinho.

“Eu estou aqui, tá tudo bem”, a voz era insistente mas sua mente também era, tudo que sua voz já enfraquecida respondia era que era mentira, pois ele estava sozinho.

Em meio a todo aquele insistente diálogo ele ouviu aquilo que precisava ouvir “eu não vou sair daqui, porque eu te amo”. Então ele chorou, chorou sua tempestade caótica e se agarrou a aquela esperança de que ao menos um alguém havia se importado e o amado.

Amor, Ansiedade, Capitalismo, cartas, Crônica, depressão, Minhas Crônicas, Opinião, Padrão, Poesia, Sem categoria, silêncio

Armário bagunçado

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Para uma outra criança que encontrei por aí… talvez ela seja tão bruxa quanto eu.

Tudo era uma confusão.

Não sabia o que sentia, não entendia nada que acontecia, as vezes tudo que sabia era que a incerteza eram sua única certeza;

Não contava mais quantas vezes seu riso escapou ou quantas vezes suas lágrimas surgiam sem motivo aparente.

Não entendia como respirar podia ajudar, sentir a vida se esvaindo entre sua corrente respiratória nunca ajudou.

Era pesado sentir tudo aquilo entrando e saindo de dentro de si…

Contou todas as vezes que deixou cair algo importante enquanto respirava:

Deixou cair seu coração…

Deixou cair seu equilíbrio…

Deixou cair o que acreditava ser certo.

Tudo escapou naquele espaço tão pequeno que existia entre os sentimentos e o vazio.

Sentir…

Era bom sentir, sabia que vivia assim dessa forma: sentindo.

Era ruim sentir, era devastador não poder controlar o que sentia.

Tentou guardar tudo no armário, mas era muita coisa e quase nada cabia naquele espaço tão pequeno, as portas logo cederam e tudo desmoronou em cima de si.

O ar fugiu, e tudo ficou mais turvo do que costuma ser.

Se deparou com coisas que nem ousava pensar ter guardado, havia guardado realmente muita coisa.

Encontrou seus gritos escondidos no fundo do armário.

Encontrou as palavras carregadas de sentimentos que guardou por baixo de todas as tralhas desimportantes.

Encontrou as vozes, aquelas que queria esquecer, mas que não podia negar a existência, elas se multiplicavam.

Se culpou, afinal não soube guardas as coisas dentro do armário.

Se culpou porque quando olhavam para si viam aquela bagunça toda que escapava daquele espaço tão pequeno.

Se culpou porque supostamente sua bagunça havia respingado em outras pessoas.

Era estranho, complicado e inteiramente desconfortante.

Tudo que sentia era rápido e não podia controlar, não entendia muito bem como as outras pessoas escondiam tão bem tudo dentro de seus armários.

Não entendeu quando quis se enfiar por inteiro dentro daquele espaço tão pequeno e quebrado.

Respirar doía e ninguém deveria sentir dor enquanto respirava, mas nem sempre era assim.

As vezes respirar era bom, sentir todo aquele ar correndo dentro de si era confortante, era sinal de liberdade, de vida, de história.

Queria ser como o vento, livre, entrar e sair sem pedir licença.

Queria sair sem que perguntassem o motivo, queria sentir que era vida, que era a vida que existia nos outros e em si.

Queria sentir e saber o que sentir.

Preferia pontos finais á vírgulas, não gostava de criar continuação para nada, até gostava, mas se preocupada demais com tudo, pontos finais eram rápidos emergências e não precisavam de explicação.

Era difícil entender que tudo que sentia era seu, eram suas angustias, seus medos, suas alegrias e amores, tudo era seu e de mais ninguém.

Ninguém poderia engavetar o que sentia, ou guardar nos cantos do armário aquilo que não agradava por muito tempo.

Era difícil, era dolorido, era confuso, mas também era bom, afinal as vezes é bom no meio de toda aquela bagunça que desaba sobre nós descobrirmos que lá dentro também está guardado o que somos.

É bom nos reencontrarmos, redescobrirmos o que sentimos e entender ou desentender o que nos faz chorar e sorrir.

 

Amor, Ansiedade, cartas, Crianças, depressão, Minhas Crônicas, Padrão, Sem categoria, silêncio, Violência

Mentiras sobre “nós”

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Atenção: esse texto contém menção a depressão, abuso e suicídio. Se achar que isso pode ser um gatilho, por favor não continue essa leitura.

Nó: Enlaçamento de fios, de linhas, de cordas, de cordões, fazendo com que suas extremidades passem uma pela outra, amarrando-as. [Figurado] Vínculo; ligação estreita entre pessoas por afeição ou parentesco. [plural] nós.

Nós:Pessoa que fala e mais uma ou várias;

Dicionário: dicio

Quando a criança falou, eles não ouviram;

Quando tropeçou enquanto tentava fugir, ninguém estava na sua frente para frear seus passos;

Quando disse “não”, ninguém desconfiou que era medo.

Quando disse “sim”, ninguém percebeu que ele gritava por dentro dizendo não.

Fugiu, ninguém percebeu;

Gritou, falaram que era birra, “coisa de criança”;

Seu corpo não parava quieto, mas “era o efeito da hiperatividade”;

Roeu as unhas, puxou os cabelos, mordeu os lábios, “era de ansiedade”;

Cresceu, e quanto mais crescia mais remédios de nomes complicados conhecia;

Não gostava de chorar, de falar, de respirar, “o nomearam como depressivo”;

Não queria engolir a comida, já engolia muitas palavras enquanto diziam ser só mais “alguns de seus delírios”.

Se retraía, tentou se esconder, encolheu seu corpo e tremeu, “não suportou tudo que teve que segurar”. Não estava frio, mas tremeu.

Chorou como chorava quando era criança, não adiantou, ninguém veio em seu socorro, tudo continuava no mesmo lugar, a cama, o chão, as paredes, e os gritos que com o tempo aprendeu a conter.

No fim de tudo, nada restou, as lágrimas caiam, e a dor que o dilacerava era mais cortante que o objeto que ele usou para dar fim a tudo.

Não se despediu, não disse “eu te amo”, não mandou sinais de aviso. Ele apenas foi, foi ser livre enquanto deixava suas verdades finalmente saírem e como se não se importasse se iriam ou não acreditar nelas depois de tanto tempo. Ele apenas foi, sem se importar com tudo que podiam dizer.

Amor, Crianças, Minhas Crônicas, Opinião, refugiados, Sem categoria, silêncio, Violência

Diáspora

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Diáspora : dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.

Se perderam…

Não era silencioso, havia correria, era turbulento…,

se perderam mesmo de mãos dadas.

Eram rostos tão diferentes, vozes diferentes, ninguém se entendia, ninguém se conhecia e os que se conheciam se perdiam, ou haviam perdido.

perdido, perdido tudo, desde abraços, afagos até lembranças.

Não existiam mais as paredes que guardavam segredos, ou a escadas responsável por tantos tombos, não tinham como voltar para os braços que recebiam sempre abertos.

Tudo se perdeu não só para si como para todos.

Eram desconhecidos que reconheciam suas dores, as mãos que consolavam eram igualmente consoladas.

O peito subia, o peito descia, as pernas tremiam, a voz falhava, não se reconhecia, procurava por quem lhe pertencia.

Seu pedaço da história havia se perdido de si, o vento era quente e sufocante, lhe roubava todo o ar, era como se sua cabeça não conseguisse se concentrar, pesava.

Tudo pesava, pesava mais do que quando o carregou no ventre, pesava mais do que quando o carregou pela primeira vez nos braços.

Não entendia o que acontecia, uma hora o tinha tão perto de seus braços e no outro o perdia.

Não havia vento, e ainda assim sentia como se seus passos fossem a cada instante apagados.

Não havia como olhar para trás, não tinha como voltar.

Nada mais existia, nada além do desespero de não se ter para onde ir e pra quem voltar.

Transforam as lembranças em poeira, tiraram seu futuro das suas mãos.

Sentiu a dor dos que perderam seus amores, sentiu sua própria dor enquanto gritava em desespero.

Doeu, se dilacerou por dentro.

Fechou os olhos e viu a massa cinzenta, o fogo, e o vermelho carmim que manchava tudo inclusive sua roupa.

Se perdeu,

aos poucos se perdeu dentro de si.

A escuridão foi aos poucos enevoando tudo…

Quando mais se apertavam para caber naquele espaço tão pequeno, mais sua cabeça recordava os gritos.

A dor aumentou, não existia luz.

A angustia entalou na garganta, não tinha o que mais por pra fora além de seus gritos.

Atravessamos o mar Egeu
O barco cheio de fariseus
Como os cubanos, sírios, ciganos
Como romanos sem Coliseu
Atravessamos pro outro lado
No Rio Vermelho do mar sagrado
Os Center shoppings superlotados
De retirantes refugiados

(Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte)

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Cora Coralina – Aninha e suas pedras

coracoralina

Não sei…

se a vida é curta

ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,

se não tocarmos o coração das pessoas.

(Não sei)

Cora Coralina (1889-1985),  morreu quando eu ainda nem era nascida, em 1985 meus pais nem sonhavam em se conhecer. Quando conheci seus versos, eu já havia me tornado adulta, quase tão adulta quanto Aninha em algumas daquelas linhas.

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces.

Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha um poema

(Aninha e suas Pedras)

Me encantei por Cora entre os corredores frios e cinzas da UERJ, os versos pareciam ecoar por cada canto daquele lugar. Suas confissões de menina, faziam eco ao meu coração, suas linhas não eram nem versos e nem poesia, “era um jeito diferente de contar história”. Por mais que ela falasse dela, e eu soubesse disso, parecia que falava de mim, ao mesmo tempo que parecia falar de outras, sua voz não era singular, era plural. Era a voz de quem havia se deparado com muitas pedras e as transformado em poesia.

“Entre pedras

cresceu a minha poesia

Minha vida…

Quebrando pedras

e plantando flores”

(Das Pedras)

Ana Lins dos Guimarães Peixoto, era Cora e Cora era Ana, Aninha, a terceira das quatro filhas, orfã de pai praticamente ao nascer, estudou até a terceira série, teceu ainda na infância seus primeiros versos sem vírgulas, palavras ou linhas, mas que tinham cheiro de mato, de terra molhada, de bolo recém assado pelo vó.

“Era só olhos e boca e desejo

daquele bolo inteiro”

(Antiguidades)

Escreveu suas linhas para fugir de tudo que a machucava, eram sobre o que sentia, sobre o que viveu, e sobre o que ainda queria viver, eram lembranças de uma menina, contadas por uma senhora que continuava a devorar o mundo e a mostrar a ele todas as suas pedras, todas as suas lutas.

Aos 70 anos aprendeu datilografia para que suas poesias pudessem ser enviadas aos editores, aos 75 anos publicou seu primeiro livro, morreu aos 95 anos… Drummond dizia que ela era: “uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é”.

“Sendo eu mais doméstica do
Que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e racionalizada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a consciência
de ser autêntica.
Nasci para escrever, mas o meio,
o tempo,as criaturas e fatores
outros contramarcaram minha vida.
Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes………
Nunca recebi estímulos familiares para ser literata
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.”

(Cora Coralina, quem é Você?)

Cora assinava aquilo que Aninha vivia, se tornou poesia em meio a resistência, era tão única quanto o nome inventado, fugiu, amou, vendeu livros, lavou roupa, sofreu a dor da perda, mais de uma vez, se fez doceira que conservava histórias, foi mulher rendeira que teceu seu próprio destino. Dentro de si, existiam tantas e tantas vozes, que ler suas linhas é como caminhar na corda que tece a vida, não só a de Aninha, mas a de Cora e também a minha.

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,

sem preconceitos,

de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera
das obscuras!

Links Literalmente Legais (L³):

Documentário Cora Coralina – todas as vidas

4 poemas de Cora Coralina 

A sabedoria de Cora Carolina em 4 poemas

Enciclopédia Itaú Cultural 

Cora Coralina – por Elder Rocha Lima

15 Poemas de Cora Coralina

 

 

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Muito pouco, (IN)sanidade.

loucuraa

Pronto

Agora que voltou tudo ao normal

Talvez você consiga ser menos rei

E um pouco mais real

 (Muito pouco, Moska)

Olhou…, não reconheceu aquele espaço, era tudo tão igual a antes, mas ainda assim tão diferente, como não percebeu que tudo mudou?

Seus sonhos não estavam no lugar certo, estavam todos encaixotados, empoleirados, deixados de lado no canto de um quarto empoeirado.

Andou por todos os cantos, mas nenhum canto era o seu. Olhou-se no espelho e não se reconheceu, as roupas, o cabelo, o tênis, era o seu corpo, mas não era ele. Escorregou os dedos no espelho e sentiu o toque gelado, não havia diferença no reflexo e em si. Quando ficou assim?

Afastou a mão e levou ao rosto, não sentiu o habitual sorriso, nem se lembrava quando aquele canto dos lábios deixou de abrigar sua alegria.

Viver tá me deixando louco

Não sei mais do que sou capaz

Gritando pra não ficar rouco

Em guerra lutando por paz

Seus pés não estavam descalços mais ainda assim doíam como se estivesse andando a horas em círculos, era tudo sempre igual, deslizou-se por qualquer parede, respirou fundo e se sufocou com as lembranças.

A música que tocava era a mesma de ontem, e de todos os dias anteriores, era um disco repetido que o lembrava que o condenaram por não seguir a um mesmo ritmo, por não andar na linha, por não seguir à realidade dos fatos.

Era tudo tão chato, era sempre mais do mesmo. Era insuportável ver a mesma paisagem da janela, ter seus passos milimetricamente controlados, se sufocar dentro da roupa e de si mesmo. O suspiro sobrepôs à música, foi alto e desesperador, era um grito sem palavras que ecoou por todos os cantos.

Fechar os olhos não adiantava, ele não esqueceria, mas não reconhecia aquela certeza que tantos tinham como absoluta.

Pesos e medidas não servem

Pra ninguém poder nos comparar

Porque

Eu não pertenço ao mesmo lugar

Viver…, quando viver passou a ser sinônimo de “não viver”? Seus dias eram eternas tempestades, tropeçava nos próprios pés, eram os mesmos gostos, os mesmos caminhos, e aquilo, aquilo não bastava.

Era tudo tão cinza, uma eterna neblina que escondia tudo inclusive a si.

Sentiu saudades dos seus sonhos e abriu uma das caixas, eram tantos, lembrava-se de quando eles transbordavam de dentro de si e inundavam o mundo. Respirou fundo, sentiu todo aquele aroma de liberdade, quando havia se contentado em aprisionar seus sonhos?

Mal percebeu quando suas mãos rasgaram cada uma das caixas, o perfume da liberdade inundava a casa, as roupas estavam o sufocando, ele não era o mesmo, preferia transbordar a se conter.

Deixou-se transbordar enquanto respirava cada sonho, cada lembrança, cada parte daquela realidade particular, que criou para sobreviver dentro da “verdadeira” realidade tão insana.

E muito pra mim é tão pouco

E pouco é um pouco demais

Viver tá me deixando louco

Não sei mais do que sou capaz

  • Música utilizada
  • Muito Pouco – Paulinho Moska
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Corpos sem Rima….

As mãos trafegam o corpo,

Na pele, nas curvas, no leito suspiros,

O desejo entre os arranhões e gemidos,

Apertou o lençol, arqueou-se, mordeu os lábios,

Suspirou mais de uma vez enquanto encarava o corpo marcados por si,

O beijou,

Se beijaram, entre os gemidos e as confissões do acaso,

Era só prazer e por isso era intenso,

Era casual,

Eram dois e não um.

O compromisso ficou do lado de fora, junto com os problemas e as desavenças, lá dentro só cabia os dois corpos e a intensidade entre eles.

O cheiro de sexo,

A inexistência da obrigação, a existência do acaso, do único, das pernas, das suas pernas em outra cintura que não a conhecida.

A bagunça dos lençóis que quase inexistiam na cama.

A cor inexistente dos pares de olhos inexplicavelmente fechados, para não guardar as memórias,

Para não criar desejos, para não desejar histórias, para as histórias não serem lidas novamente.

Mas era ilusório, a ilusão era prazerosa…

Suspiraram,

Desejaram,

Odiaram a colocação necessária de seus corpos naquele ambiente tão pequeno.

Uma das mãos derrubou a lata de cerveja e a ilusão de que não estavam sóbrios.

Estavam cientes, sóbrios e queriam.

A nicotina trafegou mais do que os lábios, desceu pelos seios, e chegou no ventre, entre os suspiros e as lembranças surgiu o aperto nos cabelos curtos que mal cabiam entre seus dedos, se confundiu entre o prazer e a culpa.

Culpou-se no momento em que se sentiu livre, seus dedos apertaram-se, e os gemidos saiam, a culpa voltava, mas era tão momentânea quanto a fumaça do cigarro, só restou o aroma.

Puxou o rosto para si e provou seu próprio gosto enquanto encarava os olhos que agora sabia que teria que se despedir, antes do banho frio, dos sonhos furtivos, ou dos famosos “até a próxima”, ela saiu.

Saiu sem deixar nome, endereço ou telefone, apenas deixou seu cheiro entre a bagunça do quarto e os travesseiros jogados no chão.

Saiu deixando tudo que não queria deixar, lembranças…

 

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Compositor de destinos

coracao-e-vida
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Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

(Caetano Veloso)

Dedico esse texto aos meus amigos, irmãos, por me ensinarem que viver é florescer entre a tempestade. Dedico esse texto aos amores incondicionais que conjugam o verbo amar da maneira mais intensa possível. Eu amo vocês por me ensinarem tanto de tantas formas.

Em meio a aquele silêncio, ouvia-se um choro,

tão íntimo,

tão pequeno,

tão vulnerável,

Era o primeiro encontro de ambos, seu olhar o encontrou de forma que soubesse que mesmo naquele primeiro momento, aprenderia bem mais do que o ensinaria.

Sorriu, sorriu de maneira tão inusitada ao o segurar, que se esqueceu de como estava sensível, não ligou, continuou a segura-lo de maneira meio torta, meio incerta, de maneira certa, bem ao lado do seu coração, o som estranhamente descompensado acalmava aquele ser tão pequeno, o choro cessava enquanto seguia o embalo daquela voz rouca e dos soluços.

O ninou em seus braços, com toda a experiência que lhe faltava.

Se perguntou desde quando o conhecia? O olhou novamente como se tentasse se lembrar, fechou os olhos e sentiu aquele cheiro meio seu, meio dele, era algo tão improvável, mas sentia, era como se reconhecer ali. Não, com toda certeza não era o primeiro encontro de ambos, soube disso quando o tiraram de seus braços pela primeira vez, sabia que não existia lugar melhor do que ali nos seus braços, e mesmo assim o levaram.

Sentiu o aperto, e reconheceu a saudade imensurável que nunca havia sentido.

Dormiu de cansaço, mesmo não querendo dormir.

Se preocupou, mesmo sabendo que não deveria se preocupar.

Disse que estava tudo bem, apenas para que se preocupassem com ele e não com si.

Por mais que soubesse o que era amar o outro, não sabia descrever aquela sensação, não era racional, era como se a sua dor não existisse, então soube o que era verdadeiramente se doar pelo outro, sentiu necessidade de protege-lo, de o guardar em seus braços, aprendeu um outro significado de amar, bem mais intenso, bem mais voraz, um amor incondicional e sem respostas.

Quando acordou não se importou com as olheiras, ou com qualquer coisa que foi lhe perguntado, esperou ansiosamente para o encontrar novamente, ainda não sabia lidar com tudo aquilo, era tudo meio novo, e nada correspondia a suas expectativas, era tudo mais intenso, antes mesmo de o acolher em seus braços já sentia seu calor tão peculiar.

Independente de todas as crenças que poderia ter, sabia que daquele momento em diante todas as suas preces seriam para ele, para seus sorrisos, para seus machucados, para seus sonhos, para seus abraços.

O alimentar era como regar um pequeno broto, sorria com esse leve pensamento, era como se aquilo os ligasse eternamente, era como se sua vida regasse aquele ser tão pequenino, enquanto ele despreocupadamente sugava cada gota. Não conseguia pensar em mais nada enquanto o encarava.

Era o seu pequeno pedaço do mundo, era o seu mundo, nunca o imaginou tão pequeno, nunca imaginou que algo tão grande pudesse caber nos seus braços, mas cabia, sabia que não caberia para sempre e inquestionavelmente sentiu um súbito medo dos dias tão distantes em que não bastaria o seu amor, seus braços, suas palavras, respirou fundo e ignorou todos esses pensamentos, por enquanto ele ainda era o seu pequeno pedaço do mundo, tão pequeno que cabia nos seus braços.

Se pegou rindo para o nada, respondendo perguntas inexistentes, inventando músicas sem refrão, era tudo tão único que nem ligava para que os outros diziam, nem todos os manuais de instruções poderiam sugerir como seria seus dias agora.

O cansaço batia, o choro surgia, e o único verbo que conseguia conjugar era o amar, o conjugava das maneiras mais improváveis e impossíveis.

Meu canto hoje dobra as tuas notas
Me olhas como se fosse normal
Me coro ao seguir a tua rota
Meu abraço te amarrota
Meu estranho natural

_Maria Gadú_

Amor, Cores, Crônica, Minhas Crônicas, Sem categoria

Pena & Tinta: Entre corpos e purpurina

carnavalEm meio ao confete e a serpentina, ela retocava o batom verde neon na mesa do bar enquanto esperava sua companhia, não acreditava que estava trabalhando no primeiro dia de carnaval, levou mais uma vez a garrafa de água com gás aos lábios enquanto o procurava em meio a toda aquela purpurina, piscou mais de algumas vezes quando viu a camisa colorida e a maquiagem extravagante marcando o rosto, ele estava ali com aquele sorriso sorrateiro puxando a cadeira do bar pois o escritório estava fechado, arqueou a sobrancelha e mostrou as anotações resolveu esquecer a fantasia nada discreta e indecifrável que ele trajava, terminaram a conversa falando de política e do lixo acumulado na cidade, era sempre assim, mas dessa vez era diferente, ela se despediu dele e pediu ajuda para colocar a máscara no rosto, errou o local do beijo, se devoraram ali, ninguém se importou, todos estavam fazendo a mesma coisa.

Ela olhou a hora no relógio dele enquanto tomava o último gole d’agua, ele roubou um beijo novamente enquanto pegava a garrafa e jogava em uma lixeira qualquer, mal perceberam quando já subiam a rua em direção ao apartamento dela, girou a chave rapidamente, fechou a porta e se viu prensada ali, fechou os olhos, ainda conseguia se lembrar da última vez, retirou os botões apressadamente das casas, riu percebendo o péssimo gosto dele, jogou a camisa longe enquanto o puxava pelos cabelos e o mordia, detestou usar um dos seus batons que não eram alta durabilidade, podia perceber as pequenas marcas deixadas em verde neon no corpo alheio.

O arrastou até o quarto e quando percebeu ele havia deixado aquela bermuda por algum canto de sua sala sem ela perceber, sentiu quando desceu o fecho do vestido quase em câmera lenta os olhos dele a devorando vendo o tecido negro cair, o pulou enquanto se livrava do salto e abria o fecho do sutiã, o soltou por qualquer canto, enquanto ele mergulhava entre seus modestos seios, riu vendo que a maquiagem dele era deixada por seu corpo, uma trilha colorida que pintava seu corpo, sentiu a mordida e mordeu seus próprios lábios, abaixou a mão na cueca branca e apertou, o apertou e o sentiu ali, desceu o elástico quase na mesma velocidade em que ela sentia os beijos descendo no seu corpo, ele a ajudou na árdua tarefa de se livrar daquela pequena peça, se viu livre quando ela o apertou mais, ainda estava de calcinha, mas rapidamente não estava mais, sentiu quando ele desenhou com suas mãos seu corpo, enquanto fazia leves cócegas em sua perna esquerda.

Colou seus lábios no dele e sentiu a mão subindo por suas pernas, retirou a máscara e encarou mais uma vez aqueles olhos tão negros, o sorriso de lado que a devorava sem ao menos tocar, sentiu o hálito de hortelã se aproximando, se deitou, ele a acompanhou naquela dança nada planejada, mais um beijo, as mãos já passeavam por seu corpo, sentiu os lábios mergulhando em seu ventre, arqueou o corpo, respirou profundamente quando sentiu um beijo profundo e molhado lhe descendo a virilha, agarrou o emaranhado negro enquanto sorria e esperava impacientemente ele mergulhar furtivamente dentro de si, com sua língua, com seus lábios, com tamanha intimidade, respirou fundo enquanto inalava o cheiro de ambos, fechou os olhos enquanto cravava as curtas unhas no lençóis brancos, mordeu os lábios, e sentiu quando ele a sugou como se sugasse suas forças, sentiu a língua subindo e deixando um rastro delicadamente por cada parte do seu corpo.

Ela o puxou, o puxou com urgência e pelos cabelos, o puxou para selar seus lábios e o devorar sentindo seu próprio gosto, viu o riso frouxo que tanto amava em meio ao colorido da purpurina que enfeitava seus corpos, bagunçou com carinho aqueles fios negros enquanto suas pernas dançavam pelo corpo dele, o pé com as unhas pela metade brincava ali com os pelos de seu abdome, ela sorriu enquanto o fazia deitar para que ela ficasse por cima, talvez aquela natureza tão aquariana não ligasse para o fato de estarem uma hora atrasados para o tal bloco de carnaval, quem liga? Não era da natureza dela ser obrigada a cumprir compromissos, sorriu furtivamente pronta a devora-lo, mordeu os lábios já marcados por seus dentes e pelo resto do batom neon que usava, respirou profundamente ali no pescoço dele, o lambeu arrancando risadas, mergulhou-se ali, marcando-o, suspirou em seus ouvidos e cruzou seu olhar com o dele, não o beijou, não, não ainda, o lambeu em meio  a uma arqueada de sobrancelha e um piscar de olhos, desceu calmamente pelo pescoço, mais um cheiro, dessa vez do lado esquerdo suas mãos se apoiaram na cama enquanto ela se inclinava no peito dele.

Ele a olhava curioso enquanto ela dissipava leves arranhões por seu corpo, retraiu-se, sentiu peito descer no momento em que encostou seus lábios gélidos nos dela, ela o beijou ali, enquanto as mãos brincavam com os pelos do corpo dele, os enrolou nos dedos enquanto devorava o mamilo, mal acreditou quando ela o mordeu bem ali, a olhou incrédulo enquanto a mão descia, ela o mordeu mais uma vez enquanto o segurava, ele arfou, quase perdeu o ar, havia gostado, era diferente, sorriu quando abriu os olhos e a viu descendo por seu corpo nu, deixando marcas vermelhas pinceladas de pigmentosos brilhantes, trilhou até seu pênis já ereto, ela o beijou, enquanto o envolvia com as mãos, o lambeu, ela fez tudo isso o encarando, soltou as mãos enquanto o sugava, o estimulou enquanto apertou a farta carne de sua bunda, doce virilidade masculina, o arranhou ali entre a costela, ele perdia as contas de quantas vezes fechou os olhos se controlando para prender suas mãos no lugar, ele sabia o quanto ela detestava quando puxava seus cabelos, mais era quase inevitável, principalmente quando ele sentia-se tão cheio, iria explodir e tentou alerta-la, ela não ligou, aconteceu ali, e quando percebeu ela o beijava de maneira tão intensa enquanto compartilhavam o seu gosto.

Ela sorriu sorrateiramente enquanto encaminhava seu corpo para o canto da cama e abria a gaveta, ele, admiravelmente puxava a outra mão sugando os dedos dela, apresou-se em pegar a embalagem roxa e o entregou, nem ligou para o resto que caia no chão e para o riso que ele deu quando viu o ocorrido, ela apenas esperou que ele rapidamente fizesse o que tinha que fazer, ela gostava dele, gostava de verdade, gostava quando seus dedos se perdiam naquele emaranhado negro que eram aqueles cabelos, gostava tanto quando aquelas mãos inquietas se perdiam entre suas pernas e a fazia suspirar, mordeu os lábios quando viu aquele sorriso perdido a encarando ela engatinhou felinamente até ele e o pegou pelas mãos, o amava mais do que amava as sextas feiras, o amava mais do que amava os dias anteriores aos feriados, se encaixaram perfeitamente, eles eram assim se encaixavam bem, mesmo quando não combinavam em nada.

Reparou mais uma vez que ela também estava com purpurina e em meio ao balançar dos corpos, reparou as mãos perdidas em sua cintura, os olhos fechados, os apertos, ela o abraçou desejando que todos os dias fossem carnavais, sentiu quando os braços dele a enlaçaram também, caíram juntos na cama, se encararam quase que ao mesmo tempo que encararam o relógio, o bloco de  rua tinha se dissipado, tinham certeza que os celulares estavam entulhados de mensagens, o tempo pareceu parar em meio a um beijo calmo, se perguntaram silenciosamente o que aconteceria depois daquele dia, o que restaria daquele dia, tudo seria esquecido mais uma vez no fim da quarta-feira de cinzas?

Sentaram-se na cama e riram de suas aparências, estavam ensopados, completamente bagunçados, ainda ouviam alguma marchinha de carnaval passando na rua, ela se encostou nele pensando em qual o motivo de eles nunca darem certo, ele era de virgem ela aquariana, os ascendentes eram acidentes astrais, nenhuma das luas se cruzava, não tinham nada em comum e se dependesse dos astros eles nem ao menos trabalhariam juntos, ela riu mais uma vez enquanto ele se arrastava até o banheiro.

_Você vem? – ela não soube o que responder, ficou parada enquanto ele catava as roupas no chão e adentrava o banheiro.

Respirou fundo, estava com fome, queria mais, talvez fazer do resto do ano um grande carnaval não fosse tão ruim, mal percebeu quando seus passos tortos caminharam até o banheiro, abriu a porta de vidro e o abraçou por trás a água fria inundou ambos os corpos, enquanto eles respiravam aceleradamente a procura de uma resposta.

Ele a amava mais do que sorvete de chocolate, ele amava aquele riso engasgado em suas costas, amava a admirar enquanto ela buscava soluções inteligentes para mudar a órbita do mundo, para o tirar de órbita, ele se sentia perdido sempre que estava perto dela, já havia jurado tantas vezes se afastar, mal percebeu quando ela o apertou mais e soluçou, ele raramente a via chorando, se virou rapidamente se soltando dela, e levantou seu rosto, beijou seus olhos como tantas vezes ela fazia com si.

_Eu não quero mais… – o peito dele parou e ele concordou enquanto fechava o registro, quando se preparou para sair daquele pequeno espaço ela o segurou. _Eu não quero que seja passageiro, quero que não acabe na quarta-feira de cinzas.

Ele mal acreditou quando ouviu aquelas palavras tão doces saindo da boca daquela que jurava não se amarrar a ninguém.

_Aceita fazer do meu ano um eterno carnaval?

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Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) em cima de temas predeterminados mensalmente. Um dos temas de Fevereiro é Amor de Carnaval.

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