Amor, Ansiedade, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, término

Até o fim do mundo

Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como um vendaval
Me joga na avenida que eu não sei qualé’

(Mulher do Fim do Mundo: Romulo Froes / Alice Coutinho)


Para todos que necessitam navegar por águas turbulentas e incendiar o que restou do Mundo, façam, façam sem dó, deixem o grito explodir, sintam a dor e não deixem as palavras morrerem na garganta.


Haviam muitas peças soltas no meu caminho, às pegar era algo relativamente complicado, já não era tão jovem, as mãos equilibravam coisas demais, algumas peças eram pequenas, outras estavam rasgadas, amassadas e até mesmo irreconhecíveis. Eram tantas, espalhadas por tanto tempo, que algumas eu até mesmo me recusava a resgatar, para onde eu iria não havia mais espaço para elas. 

A viagem duraria tempo demais, tinha que ser dessa forma, dolorosa e demorada. 

O choro embargou, a voz falhou e um medo que nunca pousou em meu peito começou a se fazer presente. Era uma viagem em um barco furado, remava com as mãos em águas turbulentas, me sentia sozinha, não havia direção, não havia para onde ir, para onde voltar, o que buscar, só restava isso, o frio, o vazio, o silêncio irreparável no fim do mundo. 

Os cheiros se misturavam, me enjoava, tudo parecia se acumular em meu peito, busquei apoio no que era incerto, me engasguei com as palavras na minha garganta, a ânsia veio junto com a vertigem, eu queria colocar para fora tudo que sentia, gritei, um grito surdo, escancarado, machucado e ainda assim um grito entalado, que não causou danos, não causou estragos e se deteve dentro de mim. 

O barco pareceu me compreender, mesmo sem uma ajuda relevante, me levou para longe, para um lugar escuro, onde eu poderia gritar sem me tornar um incômodo, onde todos poderiam continuar com suas vidas, curtindo seu próprio ritmo, vivendo sem me olhar. 

Molhei as mãos, encarei meu reflexo, limpei os lábios, os mordi, arranquei sangue tentando desviar de toda a dor acumulada no peito, a pressão parecia aumentar conforme eu me afastava,  o frio tão presente me paralisava, me encarava sem me reconhecer, não era a mesma, não era. 

A lembrança do que minha mãe sempre me ensinou, com uma constância irritante se fazia presente, não era para confiar, mas eu insisti, deixei o copo, sorri, vesti uma roupa bonita e acreditei que seria diferente, foi, mas não de um jeito bom. 

Gritei, gritei tanto que a garganta doeu, gritei tanto que por vezes isso pareceu alterar a reta do barco. 

A vertigem voltava, o medo acumulava conforme as peças passavam por mim, o espaço claustrofóbico não me deixava escolha, o que antes parecia bom, agora parecia torturante, encarava meus medos, meu passado e um futuro incerto sem ter para onde fugir. 

Queria gritar, queria quebrar as coisas, queria bater, mas não consigo, pareço ter perdido as forças, tudo parece bem diferente, é turbulento, indesejado, angustiante. A maresia me fazia colocar para fora o que eu nem sabia existir dentro de mim. 

Quanto mais peças eu tentava resgatar, mais eu tinha que equilibrar com o que já estava dentro, o barco parecia afundar enquanto eu tentava construir um equilíbrio frágil e inconstante.

Eu não via mais a margem, não via nenhum ponto de apoio, tudo que via era a ilusão de que conseguiria me esconder, em meio aos meus próprios desejos de me afogar, de me deixar ir e desistir. Tudo que restava era isso, um frio mesmo nos dias quentes, a escuridão mesmo nos dias mais claros, o desequilíbrio imoral causado pelo meu próprio desencaixe.

O mar nunca esteve calmo, as ondas sempre foram tortuosas, o barco sempre balançou, me afoguei tantas vezes que até mesmo me pergunto como permaneço aqui, como ainda existo? Não sei dizer quem me tirou de dentro daquela água fria, nem quanto tempo fiquei nela,  não sei qual mão segurei e nem por qual motivo eu fiz isso, mas ainda estou aqui, sem entender, sem saber como recomeçar, apenas seguindo a maré, seguindo sem rumo nesse barco cada vez mais instável.

Minha garganta doía querendo expurgar tudo que restava dentro de mim, meu corpo tremia, minha mente vacilava, a ânsia era um sentimento frequente, mesmo que não soubesse ainda pelo que ansiava.

Quanto mais eu me afastava, menos vozes eu ouvia, mas as que ainda insistiam, passei a responder o que queriam ouvir, só queria que me deixassem, que deixassem o barco ir, que me deixassem me perder, eu não queria voltar, mesmo que lá fosse tudo sombrio, vazio, e barulhento, mesmo que eu estivesse me afogando, ainda assim era longe o suficiente do mundo, longe das perguntas e das respostas, longe do relógio, do tempo, do espelho. 

As peças que restaram, me faziam recordar de forma constante do queria esconder, os lençóis espalhados pelo chão, o grito preso na garganta, o toque brusco, os tombos, os joelhos ralados, me levantava sempre da mesma forma, tonta, o espelho marcava o tempo, e o relógio não dava trégua. 

Suspirei, fechei meus olhos, não havia o que pedir, mas ainda assim pedi, implorei para tudo passar, me engasguei com o pranto desordenado, o balançar do barco era insistente, tudo que eu precisava era de uma pausa no silêncio, queria ouvir um grito que me tirasse do lugar, queria chegar logo ao meu destino, e encontrar uma direção segura, com uma luz que incendiasse tudo. 

Nos últimos dias o único desejo que habita em mim é incendiar, incendiar as memórias, os pedaços largados pelo meio do caminho, o barco que foi minha âncora e que me trouxe até aqui. Nos últimos dias tudo que desejo é o fim, uma luz no meio do caminho, uma desculpa para não voltar, para não olhar para trás.

Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Crônicas 2026

O que restou de mim

Aos que fingem uma felicidade que nem sempre é verdadeira, desejo não só a sorte de encontrar pessoas que escolham acolher sua tristeza e permanecer no seu silêncio. Mesmo quando tudo parecer tempestade, ainda assim desejo um arco-iris no fim do túnel.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

(Se eu quiser falar com Deus / Gilberto Gil)


O meu futuro sempre me pareceu meio incerto, nunca souberam exatamente o que esperar de mim, quando parecia atender a todas as expectativas ainda assim, parecia não caber nos espaços destinados a mim, fui crescendo sem saber o que era, sem responder perguntas, cresci com medo de crescer, cresci querendo me esconder ao mesmo tempo que, cresci fingindo saber o que eu era. 

Me tornei um ótimo mentiroso, especialista em fingir sorrisos, um bom recepcionista, que mesmo quando a casa tá cheia, ainda assim se sente sozinho, tudo parece uma lembrança para o quão vazio estou, e não há nada que me doa mais do que deixar que percebam isso. 

Dói, dói mais do que eu poderia descrever, dói mais do que eu deixo que transparecer, as vezes tudo parece difícil de ser disfarçado, me sinto como alguém prestes a transbordar, um copo meio cheio embaixo de uma goteira que esqueceram de tampar, eu tento não soluçar alto, tento me esconder, tento não me deixar derramar, mas não dá certo. 

Cada gota que transborda, parece uma tempestade, uma angústia, um veneno alojado na carne, eu sinto o cheiro de sangue, só eu vejo a ferida aberta, me sinto paralisado, sem saber como reagir, tenho medo. Tento me esconder em conversas, risos, festas, para afastar essa sensação, mas aqui dentro tudo piora, se alastra, se torna maior, tudo sangra, manchando meus passos aonde quer que eu vá. 

Às vezes meus dedos ansiosos buscam uma distração, criam histórias, curtem memórias, me fazem ler coisas que eu não queria, e até mesmo isso me parece uma punição em loop. Se eu fechar os olhos me perco em um lugar deserto, que ecoa as vozes daqueles que acham saber tanto sobre mim, que enfatizam minhas quedas, que me fazem sangrar bem mais do que os arranhões adquiridos. Eu me perco com certa facilidade, nesse lugar, ninguém parece me encontrar aqui e mesmo que seja solitário de alguma forma me sinto confortável. Lá, até mesmo a dor é previsível.

As vezes prefiro me perder ali, naquele deserto frio e solitário, do que conviver entre os conhecidos e desconhecidos, eu não gosto de surpresas, não gosto de esperar ser machucado, não gosto de depender dos sorrisos, dos abraços e das migalhas de afagos. Eu sei que eles sabem que eu sangro, sei que me olham, mas ainda assim, eles não parecem ligar, parecem achar divertido e até mesmo inapropriado, exigem de mim um excesso de mentiras que eu não sei fazer existir. 

Não que eu desgoste deles, mas os anos fazem tudo ficar ainda mais difícil, eu não consigo olhar para o passado sem me entalar com o meu silêncio, sem me machucar, sem querer arrancar de mim esse sentimento, por vezes sinto-me como se cada palavra fosse o suficiente para me fazer transbordar, para me tirar o ar, para me colocar em uma prisão sem portas e janelas, onde só escuto palavras que me machucam. 

Eu não tenho para onde fugir, não tenho como fugir, a mistura de aromas parecem me atravessar, a cabeça dói, a sensação de afogamento se transfigura ali, tento me mover mas tudo que consigo é me arrastar mais para baixo. 

Eu tento, tento de verdade ser a minha melhor versão, fazer da melhor forma, vestir a minha melhor roupa e fingir que eu não ligo enquanto me perco em silêncio. 

Mas ainda dói.

Tudo dói e eu não sei como parar, não sei como pedir para que parem, não sei não me machucar. 

Não sei… 

Amor, Ansiedade, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, término, Violência

A valsa dos desavisados

Escrevo para todas que necessitam gritar para recomeçar, para todas que sentem seu mundo ddesabar em uma noite de domingo e precisam buscar forças para recomeçar na segunda.


Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não, e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo como se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

(Oswaldo Montenegro)


O cheiro amadeirado tomou conta do ambiente e se misturou fácil ao cheiro da chuva, trazendo lembranças. 

Já era noite.

Os gritos acusatórios atravessavam o quarto de quem deveria não ter preocupações. 

Acordou, se escondeu, tentou inventar histórias e escapar de tudo que acontecia do lado de fora do seu castelo. 

Não deu certo.

Ouviu o som dos passos pesados e apressados, pensou ter acabado, mas não houve coragem para sair dali, tentou fechar os olhos e fazer o que mandavam, “dormir”. 

Lá fora, não havia despedida, ou um último toque, só restou lembranças.

Algumas dolorosas demais para serem registradas, mas ainda assim ficaram marcadas, como um álbum de fotografia antigo demais para ser recuperado.

Tudo que restou foi o cigarro apagado por cima do móvel antigo, as cinzas abandonadas e levadas pelo vento.

As lágrimas logo vieram, o soluço forte, o ego ferido entorpecido por momentos felizes. Ela queria que ele fosse, mas mesmo ele indo, ainda assim ele ainda parecia dominar todos os passos da sua vida.

Gritou. 

Gritou forte, não acreditando no que aconteceu, sentiu nojo, sentiu vontade de colocar fogo em tudo, nos lençóis, na cama, nas fotografias que registravam todo aquele tempo. 

Se sentiu perdida, abandonada, traída, culpada. 

Seus pensamentos buscavam uma resposta para compreender quando aquilo se iniciava, se em algum momento havia sido diferente, riu de forma amarga, não havia desculpa, ela sabia que não havia, sempre houve sinais demais que ela preferia ignorar. 

Sempre foi tão mais fácil colocar a culpa em si, sempre… Não entendeu bem quando deixou de ser fácil, de ser lascivo para se tornar apenas casto, barulhento e ainda assim perverso e sem sentimento. 

Tossiu engasgando-se, fechou os olhos e lembrou de tudo que falavam, parecia que teria que aceitar a imperfeição dos fatos, não havia remendo, não havia como reparar.

As mãos se fecharam, as unhas machucavam, a dor parecia mínima diante a tudo que sentia. 

Engoliu o choro, hoje era domingo, mas amanhã seria segunda, o tempo continuaria a girar mesmo sem ele, mesmo sem as palavras, mesmo sem os toques, mesmo sem tudo, ela ainda teria que continuar. Sempre teve, mesmo quando todos não percebiam que seu mundo desabava, ainda assim ela sempre teve que continuar. 

Fingiu sorrisos, fingiu gostar, fingiu que a culpa era sua…, não seria tão difícil fingir que nada havia mudado. 

Sentiu a bile subir a garganta, engasgou-se, perdeu a força e se jogou por ali mesmo, preferiu esquecer que do outro lado da porta a frente existia um outro alguém que também chorava. 

Precisava ser egoísta, não havia muito tempo, ainda era domingo, mas logo seria segunda e com ela iriam surgir as perguntas, os debates, e ela não estava preparada para isso. Não estava, nunca esteve. 

Queria ser corajosa, mas sentiu-se covarde, o peito ardia tanto que parecia inflamado, a respiração era tão desritmada quanto a tempestade que caía, se lembrou do que queria esquecer, não mandou mensagem, não ligou pedindo colo, apenas permaneceu ali, esperando a segunda chegar e tentando descobrir como seria o recomeço.

E chegou… 

E fingiu mais uma vez não sentir, pois não tinha escolha. 

Recomeçou, recomeçou a passos lentos, sem afagos ou palavras bonitas, por vezes em silêncio, por vezes culpando o mundo, mas nunca sozinha. 

Nunca.

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Diáspora do Fim do Mundo

It’s like the walls are caving in
Sometimes, I feel like giving up
But I just can’t

Para todos que fogem para encontrar algo melhor, que deixam um coração para trás, que não tem para onde voltar, que desabam sem ninguém ver…


Então eu finalmente consegui.

Cheguei.

Meus braços doem, meu corpo treme, eu não consigo olhar para trás e encarar tudo que deixei, não existe mais nada, não existe para onde voltar. 

Ainda ouço os gritos, ainda sinto o cheiro salgado e metálico do sangue, ainda vejo os passos apressados, os tropeços, o medo estampado nos olhos daqueles com tão pouca idade que nada entendiam. 

Cheguei só, mesmo que tenha tentado carregar outros comigo, eles não conseguiram, foram atravessados pela vida. 

Haviam dias que o baque da perda doía mais do que outros, eu lembro de tudo que senti, da angústia que parecia comprimir meu peito como se fosse uma parede me esmagando. Eu escorregava em meus soluços, e tentava me esconder das lembranças, é assustador reviver tudo em detalhes tão ínfimos. 

Quando cheguei não havia cama, abraços, ou pessoas para me receber, eu era um intruso protegido por uma fina burocracia social. Não me queriam, não me aceitavam, mas eu continuava aqui, preso, respirando de forma desesperada pronto para ser ouvido. 

Sentia o cheiro da chuva que molhava a terra, e sentia saudades do tempo que dançava com ela, os cheiros, da chuva e da saudade, se misturavam aos meus sonhos dissipados, era isso que eu queria mas ainda assim nada é como eu pensei. 

Nos primeiros dias eu não só sentia medo, mas também sentia frio, me senti desprotegido, mesmo que não houvesse motivo para isso. Era como me forçar a respirar mesmo me faltando ar, eu deixei que me levassem ao limite, que me testassem, que me tirassem o sono e que fizessem por mim planos, eu deixei pois não tinha mais forças para lutar…

Ainda tenho medo do escuro, tenho medo de não enxergar o que tá a minha frente, tenho medo de me perder e ninguém me encontrar, tenho medo por não ter ninguém que procure por mim. 

Se eu cair, será que vão sentir minha falta? Será que vão me ver desabar? Será que vão tentar me segurar, agarrar minhas mãos e me abraçar para não me deixar escapar? Será que eu vou continuar?

Tudo era diferente, até mesmo as minhas perguntas eram diferentes, o lugar era maior, mais frio, eram pessoas demais por perto e ainda assim todos pareciam bem distantes. Eu era invisível mesmo todos me conhecendo, senti vontade de anestesiar todas essas sensações. 

Eu não consigo respirar direito, minhas mãos tremem e tudo aqui parece apertado demais, minha garganta seca, as palavras somem, não havia ninguém para ouvir meu lamento ou paredes para proteger o som do meu choro, um choro vazio e ardido que me afogava sem o mínimo esforço. 

O cheiro do sangue misturado ao álcool parecem me completar. Juro que eu tentei evitar por muito tempo a ambos, mas depois de um tempo tudo parece meio impossível.

Queria correr, mas não havia para onde ir, eu não conseguia voltar, não conseguia fazer nada além de ficar travado ali, entre todos que me rodeiam, tentando inventar finais para aqueles que já deixei, tentando me imaginar em um futuro distante. 

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Tudo que começa acaba

Vocês sabem que eu escrevo sobre coisas que sinto, na verdade não escrevo sobre o que sinto, mas sobre os sentimentos que não são meus e me atravessam em forma de escrita. Tem uns dias que os Fãs Clubes do Jão andam atravessando minhas redes sociais, e eu acabei mergulhando em informações sobre ele. Ele curte escrever cartas, então eu escrevi uma carta que até agora eu não entendi se é para ele ou não. 

Oi,

Tenho um monte de perguntas para te fazer…, mas não sei se tenho esse direito. 

Eu sumi…, e ao contrário dos contos de fadas não deixei pistas, me perdi no meio de uma floresta densa sem deixar lembranças ou migalhas para serem seguidas, me senti um pouco estúpido, não sei se alguém vai entender, mas eu precisava sentir tudo aquilo que tinha dentro de mim, precisava sentir tudo que eu era e parar de mentir, eu me escondi em um lugar que só eu conhecia, meu frágil castelo de cartas que me mantinha aquecido mesmo quando estava desabando.

Queria esquecer todas as coisas que me fazem chorar, queria dizer que tá tudo bem, mas ainda não tá, eu não sei se você vai entender, mas espero que entenda, aqui dentro de mim ainda passa um filme, um filme que quase ninguém conseguiu assistir, eu sempre me considerei um roteiro ruim de assistir de perto, faço coisas sem sentido, coisas que quase ninguém entende, sou um bom vilão das minhas histórias. Me falam isso quando apareço com algum machucado novo, eu sou realmente um bom vilão…

Às vezes me pergunto se eu me tornei tudo que queria…, me desenhei e redesenhei tantas vezes que me perco em que me tornei…

Desculpa se eu não fui um bom herói, mas eu não sei como arrumar esse roteiro, não sei o que tirar e o que colocar no lugar, ainda tenho medo de tudo que eu sinto e do que posso fazer com isso, eu ainda não me acho essa pessoa legal para qual você escreve cartas, mas eu juro que estou tentando me encontrar, tentando ser um pouquinho mais parecido com aquela criança que você conheceu… 

Eu ando lendo, mesmo que em doses homeopáticas, o que escreveu para mim, eu sinto vontade de chorar, eu choro, e acho isso bom, você enxerga alguém que ainda não sei quem é, tenho que te agradecer por isso. 

Queria te contar que aqui o tempo passa devagar e eu não sinto saudade de como o tempo passava rápido, ando chorando de saudade e também de medo, isso me machuca mais do que cura, não sei se no fim de tudo eu vou conseguir voltar e salvar o dia, ou se alguém vai vir e me salvar… 

Talvez eu não precise ser salvo, mas eu ainda quero que alguém tente, ainda quero me sentir importante, desculpa pelo pensamento egoísta, mas eu espero que com o tempo me perdoe, espero que minhas palavras ainda possam ser importantes, e mesmo que eu não seja mais o herói na sua parede, espero que você ainda possa ter um tempo para me ouvir falar da vida, mesmo que de forma triste. 

Eu queria ter tido mais tempo, ter construído uma fortaleza mais forte do que as cartas de baralho que cercam esse castelo, mas não deu tempo…, eu sempre achei que dava, e por isso demorei para voltar.  Meses são anos, e eu aprendi isso enquanto desabava por tudo que perdi…

É estranho olhar para tudo que passou, ainda carrego todos os arranhões da minha última queda, não me lembro das noites mais divertidas, tudo parecia meio entorpecente, os cheiros eram ambíguos demais e de repente todo mundo pareceu gostar mais dessa minha versão, queria me tornar essa versão, eletrizante, apaixonante, fugaz…

Sempre fui bom em me remontar… Fugir era algo que eu era bom em fazer, as quedas não me machucavam, os medos não me assustavam, tudo parecia bem guardado aqui dentro. 

Ainda sinto a adrenalina desses dias, ainda sinto os toques, mesmo não me lembrando dos rostos, eu não sei explicar quando tudo começou a desabar, foi rápido, uma montanha russa em queda livre, sem freio, sem aviso, me senti frágil demais, pequeno, inseguro, quebrado, culpado, era como se tudo tivesse voltado novamente, só que com mais intensidade. Tudo que eu sempre evitei apareceu ali diante de mim. 

Meu peito apertava a cada palavra solta, os assuntos pareciam desinteressantes e tudo que vivi parecia uma lembrança distante do que eu não consegui viver, de repente tudo pareceu um erro maior do que um acerto, é estranho, era tudo que eu sempre quis, mas agora me faltavam palavras para entender o que eu havia me tornado… 

Queria fugir novamente, mas minhas pernas pareciam presas, e eu fui obrigado a assistir tudo que eu sonhei passar em um filme bem diante dos meus olhos, senti dúvidas, senti culpa. Não consegui fugir para nenhum outro lugar que não fosse aqui… 

Eu desejava desaparecer, assim como outras tantas vezes, então vim parar aqui, nesse lugar tão seguro e ainda assim tão frágil, me perguntei se o mundo era mais bonito do alto da torre de cartas, mesmo me achando incapaz de a escalar, sempre tive medo do que eu iria encontrar por lá, tive medo de gostar do silêncio, de desabar as cartas no meio do precipício e de gostar da queda. 

Meu coração ainda dói, parece que caí de lugares ainda mais altos, tenho dias bons e dias nem tão bons assim, a vida de todos pareceu andar tão bem sem mim, sinto medo de voltar e não me encaixar mais naquele lugar, eu ainda lembro dos risos e dos abraços, das palavras e dos afagos, mas tudo parece tão distante, que já não sei quanto tempo passou. É, o tempo passa realmente devagar aqui. 

Eu não sei se mudei, sei menos do que sabia sobre mim, eu ainda sinto vontade de me esconder, mas parece meio inevitável voltar, me olhar já não é algo tão assustador assim, já consigo me ouvir sem querer me esconder.

Os dias aqui tem cheiro de saudade, são quentes como um fim de tarde no Arpoador, às vezes são coloridos, barulhentos, mas outras tantas são cinzas, repetitivos, um loop enjoativo que me lembra de tudo que não volta mais. Nesses dias, a dor é mais forte e parece que nada vai fazer passar…, eu sei que vai passar, nesses dias eu não preciso de nada além de abraços quentes e silêncio. 

Eu voltei a escrever igual quando eu era criança, sabe, me sinto feliz com isso, não é algo bonito de se ler, mas ainda assim me sinto feliz… 

Me pergunto como o tempo anda por aí? se seu coração se acalmou ou se o tempo fez tudo ficar ainda pior?

Será que você sente o mesmo que eu senti?

Será que também já quis fugir no meio de uma tempestade? 

Será que já se afogou enquanto chorava lembrando de tudo que passou. Será que correu descalço, pisando em pedras, enquanto ouvia o coração gritar que deveria ficar mesmo que em migalhas?

Se você me fizer essas perguntas, não saberei responder, aqui tudo tá igual, mas também tá diferente, acho que aprendi a respirar com um pouco mais de calma, aprendi a ouvir meus gritos e a aceitar ajuda para secar minhas lágrimas. Ainda dói enquanto corro e por vezes parece que não tem ninguém que me entenda, às vezes tenho vontade de fugir para mais longe, mas não posso. 

Sentir é ruim para um caramba, dói, mas dói ainda mais não sentir nada. Continuo um filme bem ruim de assistir, mas agora ao menos eu ofereço pipoca para quem aceitar ficar, sei lá, pode parecer uma piada ruim, mas é quem eu sou e talvez eu não seja tão ruim assim.

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Tempo rei

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, Pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Quando um animal morre em seu habitat, seu corpo se transforma em vida, se transformando em abrigo, comida e refúgio, nós somos animais e o fim nunca é realmente o fim. Para todos os que pensam qual o legado a ser deixado, para todos que precisam deixar-se ir para encontrar a paz.

Música…

Minha vida sempre foi uma música estranha, uma balada que embalava os meus sonhos mais improváveis, eu sonhava acordada e me perdia fácil entre os acordes, não existia como passar por mim sem se perder na melodia que embalava minha vida. Mas as vezes me canso, a música com o tempo se tornou nublada, abafada e desconexa, ainda me perco entre os acordes, mas agora tudo é uma melodia melancólica e abafada…

As tempestades se tornaram frequentes, embalavam meus sonhos e tornavam o amanhã improvável, as melodias antes tão agitadas agora eram alcoólicas, nubladas, um solo de guitarra no meio do silêncio.  Tudo se tornou turbulento, uma despedida entre sorrisos tristes e suspiros cansados. 

Se tudo passa, por qual motivo ainda permaneço aqui, por qual motivo ainda não passou? Cada olhar era uma despedida incansável que eu não queria, mas eu precisava dançar mesmo que eu não quisesse, eles precisavam disso mais do que eu, eu precisava de outra música, outro tom, precisava dançar até cansar todas as músicas que ainda tinham dentro daquela pequena jukebox. 

Retirei meus sapatos, senti a areia da praia, dancei uma música que só eu ouvia, uma melodia inexistente e até mesmo desacreditada entre todos os mortais, eu gritei, um grito miserável, solitário, agudo, era assim que eu me sentia, mesmo aqui, mesmo agora.

Eu atravessei tudo que podia, mergulhei quando insistiam que eu deveria permanecer segura na terra, tive medo de me perder, me perdi, me encontrei, conheci tudo que queria 

Talvez tenha chegado a hora de iniciar uma nova canção, de dançar um novo ritmo, de me despedir da forma certa e deixar as lágrimas rolarem sem as interromper no meio do caminho. 

Talvez agora seja tarde demais para passar, agora eu já não quero que passe, já não quero que vá, eu só quero estar, viver e sentir, não importa por quanto tempo, eu quero deixar uma marca mesmo que não seja o plano inicial, tudo que quero é um tempo maior, mesmo que por um segundo.

O tempo a muito se tornou inconstante, o medo é praticamente solúvel, dissolve os sonhos, o orgulho, o amor, mesmo com tantos abraços, mesmo com todo o carinho, mesmo sentindo tudo que sinto, o amor também é solúvel e por ele eu tento permanecer, porque eu quero sentir mais um pouco de tudo isso. 

Ainda estou aqui, estou na gota de suor, nas lágrimas de despedida, nas palavras de amor, nas paredes desenhadas, no pôr do sol, eu estive, estou, estarei… Não sei por quanto tempo poderei conjugar esse sentimento, mas eu sinto que eu quero existir no agora e se for para ir que seja da melhor forma, eu quero sentir e quero que sintam, quero que me sintam.

Não sinto mais os abraços, o cheiro, o gosto… tudo se perdeu, menos meu eu, ainda estou aqui, sentindo a inexistência de não poder passar, eu queria deixar ir, me deixar ir, ao mesmo tempo que queria apenas sentir. 

O toque antes ágil agora é demorado, guardando a saudade do que não volta. 

De repente sinto-me como água, sinto frio, sinto sede, sinto-me afogando em sentimentos indesejados, em sentimentos de despedida, uma despedida indolor, quente, calma. O relógio não voltou, os ponteiros pararam, todas as despedidas pareciam se fazer presente naquele instante e então tudo passou por mim: Passou o amor, o cheiro, os abraços, o medo e finalmente eu passei.

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Era uma vez eu no meio da vida

Para todos que se sentem uma criança perdida no Mundo.

Era uma vez um menino, ele nem era tão pequeno assim, queria abraçar o mundo, gostava de abraço apertado e conversas no silêncio, sua existência era peculiar, tinha cheiro de saudade e abraços tão aconchegantes quanto a areia da praia. Às vezes ele era céu azul outras tantas tempestade… 

Dentro da sua cabeça existia uma guerra interminável, uma avalanche de palavras que vez ou outra causava um desmoronamento em suas certezas. Quanto mais ele corria, mas aquele eco lhe perseguia, ele tropeçava, caía e se machucava, se machucava sem ninguém ver, secava às lágrimas e continuava a seguir mesmo machucado. A guerra dentro da sua cabeça era barulhenta, e talvez por isso ele tenha aprendido a viver de silêncios. 

Não que ele gostasse do silêncio, pelo contrário, o silêncio incomoda e é dolorido, ele prefere a casa cheia, mesmo que isso também signifique ficar com seu coração vazio. Era uma sensação de ter o sol no inverno, não era suficiente, mas era o necessário, isso bastava. 

Talvez ele nunca tenha se achado suficiente, o que é muito estranho, afinal, ele sempre foi tão cheio de certezas, sempre foi colo e abrigo, como podia não se achar suficiente? É, mas ele não se achava, pelo contrário.

O mundo mundo parecia não o compreender e isso fazia com que aquele menino que parecia tão pequeno crescesse muito rápido, mas era momentâneo, logo ele se sentia pequeno novamente, as palavras doíam, ele não entendia, machucavam mesmo sendo desconhecidos, tudo se misturava dentro de si e ele se perdia em tudo que sentia sobre si mesmo.

Pequenas palavras sempre foram guardadas no dicionário da guerra que existia em sua cabeça, por isso ele detesta jogos de palavras, ele guardava cada verso fora do compasso, cada história mal contada e cada resposta atravessada, é nessas horas que sua cabeça iniciava a guerra, refazendo cada momento como se ele por milagre pudesse ser mudado, era torturante e desgastante. 

Se sentia perdido, brincava de pique sózinho na esperança de alguém o encontrar e ouvir tudo que ele tinha para contar. Ele queria gritar, queria explicar o que estava acontecendo, tudo parecia tão óbvio, mas não era, era difícil buscar tantas palavras, os desmoronamentos aconteciam com frequência dentro de si.

Constantemente respondia que sua cor preferida é a que o céu tem. O mesmo céu que ilumina as tardes frias, é o que causa tempestades devastadoras, e bem, esse menino tem tempestades devastadoras dentro de si, tempestades que ele nunca soube quando começavam ou terminavam. Nunca soube definir o que sentia, talvez se ele tivesse a cor do céu fosse mais fácil. 

Queria que soubessem que seus dias não são só de sol, nem sempre são quentes e aconchegantes, que seu sorriso às vezes é bem enevoado e que suas tempestades acontecem mesmo quando tudo é parecido com uma tarde de verão.

Não tinha como controlar, se sentia culpado por isso, ele passou a ensaiar sorrisos, não que ele não quisesse ficar ali perto de todos aqueles abraços e risos, se sentia triste por não se achar suficiente, passou a sufocar tudo que sentia e sorrir, um riso nublado e incômodo que lhe tira o ar. 

Talvez ele já não soubesse conjugar os verbos: amar, sorrir e viver. Ele apagava constantemente sua conjugação em nome do que ele achava ser o certo para os outros. 

Cultivava o amor, tal qual um florista que insiste em cuidar das rosas sem luvas, se espetava com espinhos e não cuidava dos machucados. Era a única forma de amar que ele conhecia, uma forma dolorida, que escondia o choro mesmo quando visivelmente estava magoado.

Tudo que restava a ele era a busca incansável por alguém que ficasse e entendesse seu silêncio, que não o fizesse sentir um incômodo, que afastasse de si todas as palavras que insistiam em ser repetidas na sua cabeça. 

O peito doía, o corpo amolecia, ele não conseguia sobreviver sem os abraços, tudo cheirava a saudade mesmo com todos ali, se sentia culpado por sua tempestade invadir outros abraços, sentia medo das pessoas cansarem e irem embora sem avisar. Era como ser um passarinho na gaiola, ele não podia voar e seu canto era limitado.

Sempre foi mais fácil lançar palavras para desconhecidos, eles vão embora e não significam nada, mas os conhecidos, esses, ele tem medo de perder, e por isso sobrevive de silêncio, falando o que querem ouvir, sorrindo quando queria se esconder.

Era uma vez um menino, ele nem era tão pequeno assim, sobrevivia das grandes tempestades que existiam dentro de si, vivia dos abraços no acaso e de risos tempestuosos, mas o que ele não sabia é que mesmo com toda a tempestade dentro de si, ele ainda é capaz de produzir dias quentes, quando ele descobrir isso, talvez o medo de deixar suas palavras voarem comece a ir embora…

Ansiedade, cartas, Crônica, Cronicas 24/25, depressão

I’m only human after all

Para todos que necessitam traduzir o que sentem enquanto se machucam quando o mundo dentro de si começa a desabar.

Preciso te contar uma coisa, eu sei que você disse que iria ficar mesmo se eu te expulsasse, que foi você que bateu na porta, mas não é tão fácil assim, eu sou complicado, na maioria das vezes eu faço escolhas ruins, ainda assim te deixar ficar me pareceu uma boa escolha. 

Desculpe-me por abrir a porta, por ter aceitado sua ajuda e por ter permanecido ao seu lado mesmo quando eu deveria ter te mandado embora 

Eu gosto do seu sorriso enquanto me conta coisas bobas sobre o seu dia, para me entreter e mesmo que pareça que você sabe tão pouco sobre as estrelas, ficar do seu lado, é como me sentir aquecido pelo sol, eu gosto disso, pode não parecer mas eu gosto. Me desculpe por gostar. 

Às vezes eu me perco por lugares frios demais… Preciso te contar que às vezes eu demoro para voltar desses lugares, que caminho até meus pés doerem porque quando sinto dor, não me lembro do que aconteceu. 

Quando não sinto dor as coisas tendem a ficar complicadas, tudo parece turbulento demais, mil palavras vem de encontro a mim, muitas vezes desejo ser surdo para não as ouvir. Eu me machuco para não lembrar do quão machucado já fui, é estúpido, eu sei, mas é a forma que encontrei para sobreviver. 

As vezes eu sinto dúvida se você se preocupa de verdade, eu tenho dúvidas se você é real, se só é uma alucinação criada por mim em meio ao desespero, eu não sei, costumo não saber de muitas coisas quando estou assim. Você disse que ficaria, você ficou, sem fazer perguntas e isso nunca aconteceu. 

Preciso te contar que eu queria que você perguntasse como vão as coisas, como estou e onde estou, você disse que ficaria e isso deveria me bastar, mas pela primeira vez eu sinto falta das perguntas, das suas perguntas.

Me pergunto se te pagaram? Será que foi o suficiente para ficar? Será que vai durar para sempre…?

Preciso te contar que você tem cheiro de saudade, tem cheiro de infância, de carinho e de medo, eu tenho medo de você, isso me machuca, tenho medo de você não voltar, tenho medo do que vai restar de mim, eu enxergo o mundo do alto do precipício e isso é sempre assustador, não há nada para olhar, tudo tá sempre apagado, tenho medo, tenho medo desse sentimento aumentar. 

Preciso te contar que é sempre bem frio na beirada do precipício, eu nunca sei como cheguei até lá, mas acontece quase sempre que algo foge do meu controle, é frio e solitário, não importa o que façam nada parece me alcançar nesses momentos. 

Desculpe-me por ser tão quebrado, eu gosto da sua companhia, gosto de sentar do seu lado e da forma como você me faz rir enquanto tenta me entender no silêncio. Mas daqui onde estou eu sei que se você ficar não vai ser para sempre, olhar para o futuro é sempre desesperador, é vazio, incerto e perturbador. 

O futuro é inebriante, uma cortina espessa de fumaça que cobre meu corpo e me impede de respirar.

Eu sei. Não importa o que digam você não tem culpa, não importa o que eu diga você não tem culpa, só me desculpa por te fazer chorar, por ser assim tão quebrável, você pode desistir, pode me deixar em silêncio, mas promete que volta para me abraçar, eu gosto do seu abraço, gosto de me aquecer no seu silêncio.

Promete?

Me pergunto caso você não volte se serei capaz de continuar lembrando do seu sorriso, da sua voz calma me acalmando e do seu abraço tão solar. Eu não queria sentir o que sinto, ou ter meus olhos inundados a cada pequeno desastre que eu mesmo cometo, mas eu sou assim. 

Tenho que te contar que eu não sei quem é você, mas você parece saber tanto sobre mim que tenho medo do que pode fazer comigo, tenho medo de você me jogar daqui de cima e eu me perder na escuridão. 

Respirar é sempre mais complicado quando isso acontece, minhas decisões são impulsivas, eu escolho sentir dor a pensar de forma repetitiva nas coisas que fiz. Tenho medo de me esquecer de quem eu sou, de me perder no meio dos meus escombros e ninguém me encontrar, tenho medo de você não me encontrar, de desistir, de fechar a porta e me trancar aqui dentro, de ir embora assim como chegou.

Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Cronicas 24/25, Minhas Crônicas

I have a tale to tell

Para todos que vivem de abraços perdidos e perguntas não feitas, eu tenho uma história para te contar… 

Eu te via de longe, mesmo quando você se esforçava para ficar perto. 

Nunca me contou seus sonhos, medos ou o que te fazia ficar feliz. 

Sempre foi mais parecido com um ponto final, mesmo eu querendo que você se tornasse uma vírgula. 

Não me lembro quando me perdi do seu sorriso, quando deixou de ser real para ser alguém que vivia a esperar uma resposta do amanhã. 

Logo você que sempre corria na direção oposta ao tempo, que vivia a vida contando cada gota de emoção, que sempre demorava para chegar, quando chegava não parecia querer ir embora. 

Era estranho que seus passos tão apressados ficassem ali tão à vontade. 

Você estava comigo, sempre sentado ao meu lado, segurando minha mão e sorrindo um sorriso triste de quem queria me convencer de que tudo daria certo. 

Não deu tudo certo. 

Seus olhos me pareciam sempre prestes a explodir, pareciam gritar por socorro, você fugia das perguntas sem olhar para trás.

Você desaparecia tão logo chegava, não deixava rastro e nem perguntas, apenas ia. 

Parecia sempre pronto para uma despedida, te encontrar era sempre como ler uma história de um parágrafo único . 

Não respondia perguntas, não deixava dúvidas, você não queria deixar saudades. 

Eu não entendo todas as conjunções temporais que separam o que somos do que fomos, queria entender onde nos partimos e eu te deixei partir. 

Queria não ter te deixado ir tão rápido.

Ainda me lembro do som da sua voz enquanto me ensinava como me proteger do mundo. 

Eu não precisava ter medo, era o que você sempre repetia ao fim de cada história, eu sabia que era mentira, te ouvir contando sobre os perigos da vida era o único momento que eu conseguia te entender, você sentia medo, não medo do que viveu e ainda poderia viver, mas medo de mim, medo que eu me levantasse e fosse embora. 

Eu ficava mesmo sem querer ficar. 

Você me mostrou suas cicatrizes mesmo sem eu querer ver. 

Você sorriu mesmo quando queria chorar, e eu sabia disso. 

Você não queria perguntas, não sabia como responder, e eu deveria ter entendido isso. Só queria ser ouvido em silêncio. 

Eu nunca soube como reagir. 

Sempre me perguntei os motivos do seu sorriso ser tão triste e de você mesmo falando verdades parecer me contar mentiras.

Abuso, Ansiedade, cartas, Cronicas 24/25, depressão, Minhas Crônicas, Violência

Believe me

Escrevo para todos que guardam a dor de ter seus corpos violados, que carregam uma culpa que não tem, que se desesperam com lembranças involuntárias. Desejo que que todos os silêncios possam ser ouvidos sem julgamentos.

Eu me lembro perfeitamente do dia que aconteceu e isso ainda faz meu estômago revirar, minhas pernas ainda doem e tudo a minha volta parece girar mais e mais rápido. Era uma quarta feira de cinzas, as ruas estavam lotadas, as serpentinas arrebentadas se espalhavam no chão, os cheiros se misturavam, bebida, urina, suor, era indecifrável e inebriante, meus olhos piscavam e minha cabeça parecia não pender no lugar, pequenos e involuntários espasmos se espalharam pelo meu corpo, enquanto tudo dentro de mim parecia vir para fora. 

A esperança, o amor, o afeto, tudo parecia uma grande massa cinza que eu não conseguia conter que me engasgava e tirava o meu ar.

Não consegui compreender as mãos que me tocavam tentando me levantar, minhas mãos tentaram de forma desesperada afastar aqueles intrusos, tentei recolher meu corpo e me proteger, mas era impossível, tudo queimava, os toques, as palavras, meu corpo. 

“CHAMEM AJUDA, UMA AMBULÂNCIA…” – alguém gritou, eu não conseguia dizer nada, os barulhos se intensificaram e isso fazia minha cabeça girar ainda mais. Quando dei por mim, já estavam me deitando em uma maca fria com um fino colchão, a coberta não saciava meu frio e nem escondia meu medo, meu corpo ainda tremia a cada olhar invasivo e toque indesejado. 

Falhei quando tentei me reerguer, não queria ajuda, tranquei minhas portas e janelas, fechei meus olhos, me cobri para o mundo, não me importo deles saberem o que aconteceu, mas me importo deles me culparem, os olhares se repetem dia após dia, e é como se tudo se repetisse, passo horas sentindo aqueles toques, sentindo aqueles cheiros, vomitando aquela dor, todo dia é uma quarta feira de cinzas diferente. 

Falhei em achar que ficar só me deixaria bem, o silêncio me lembra incansavelmente de todas as minhas faltas, de tudo que poderia ter feito e não fiz, o silêncio intensifica minha culpa e eu não consigo segurar os soluços advindos dela. 

Eu tento gritar, mas sei que gritar não adianta mais, ninguém vai ouvir ou entender, ninguém vai ficar. 

No meu mundo não existe estabilidade, tudo é instável, mesmo que eu tente esquecer, mesmo que as pessoas não saibam, sempre terá algo para reafirmar aquela quarta feira, aquele neblina no meio da purpurina, o caos pigmentado que pintava minha roupa naquele dia, fez com que cada cor carregasse um pedaço da dor que senti, um pedaço de mim que se tornou apenas uma mancha no passado. 

E eu que tentei de tantas formas me transformar em muitos, agora estava me reduzindo a nada, a um pedaço de lamentação que não tinha onde esconder. Sinto falta do silêncio carregado de felicidade que era ter alguém ao meu lado, sinto falta dos pecados que cometia disfarçados de amor, sinto falta dos sorrisos que envolviam as pequenas histórias de fim de tarde. Sinto falta…