Crônica, Opinião, Preconceito, Racismo, Violência

O desconhecido engano…

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Ilustração: Zansky

O choro angustiante e incessante foi ouvido no alto do morro, o baque fatal levava a mulher com as mãos ensanguentadas ao chão, agarrada ao corpo do filho, mãos firmes tentavam violentamente a afastar, era apenas mais um corpo, eles a arrastaram dali a jogaram com tamanha brutalidade para longe enquanto colocavam o corpo no carro.

Quem ligaria? Quem se importaria? Era só mais um, mais um número, mais um pobre, mais um morador daquele morro, antes dele já foram tantos…

O braço estendido para o lado de fora do camburão aumentava ainda mais a dor, ele não era um objeto, era seu filho, era um ser humano que estava sendo tratado como um pedaço de qualquer coisa.

Os coturnos marcados pelo barro caminhavam de um lado para o outro, o céu antes quente se tornava frio, era noite, uma noite fria e tenra, os homens inquietos olhavam furiosos para todos os pares de olhos direcionados a si, as mãos por cima do uniforme tocando levemente a arma esperando em ansiedade pelo reforço, o choro permanecia do outro lado, logo surgia o aglomerado, ninguém andava ou se mexia, eles eram os monstros ali.

Apontaram as armas na direção dos punhos cravados e das pedras não lançadas.

A mulher ainda com as mãos manchadas tentava compreender a onde estava o erro, como aquilo poderia ocorrer? Trabalhou mais de oito horas diárias para que aquele menino chegasse aonde ela nunca chegou. Trocou plantões, fez horas extras, deixou de comer, dormiu em pé e tudo terminou assim, dessa forma, com um tiro no peito, um engano.

Uma agonia lhe consumiu mais do que em qualquer outro dia, uma agonia maior do que a de não saber como sobreviveria com aquela criança, mal tinha como se sustentar sozinha…, ironicamente, anos depois, a agonia é por não saber como sobreviverá sem aquela criança.

Mãe solteira, filha sem pais, irmã sem irmãos, mãe sem filhos, ela que era sozinha ganhou alguém e o perdeu assim dessa forma tão perversa, talvez, só talvez ela tivesse pensado que todo aquele esforço tivesse valido apena se ela o visse formado, segurando o diploma e a abraçando no fim da cerimônia, mas nada disso deixou de ser uma lembrança inexistente a sua memória, um sonho…

Os homens fardados ainda encaravam aquele corpo, mais um corpo, mais um, entre tantos números, a incerteza de não se saber quando um dia estiveram certo, fez um deles se questionar quando deixaram de se importar, quando deixaram de sentir, quando deixaram de respirar enquanto suas mãos puxavam o gatilho e davam fim a vidas.

Vidas, ela sempre chorou pelos filhos de outros, agradecia que em meio a tantas complexidades sociais, ele não ter se rendido a um sistema meritocratico que dava mais a quem já tinha muito. Ela achava que apesar de tudo ele iria reverter o sistema, que iria entrar com a cabeça erguida em alguma das empresas na qual já trabalhou pela porta da frente, que iria defender os pobres e ajudar os que necessitavam a chegar onde ele chegou, era o que ele sempre falou, era o que ele sempre fez, foi o que ela ensinou.

Engoliu todas as lembranças para se colocar de pé, caminhou com os pés apressados, ela já estava habituada a isso, sempre correndo, criou seu filho no mundo, um mundo incerto que sempre a dizia que ela não conseguiria, criou seu filho com os relógios dos patrões, com a solidão e com o medo, um medo que a fazia o esperar todos os dias acordada, um medo que não a deixava sair dos seus olhos sem um “eu te amo”, um medo que não esteve presente quando caminhou até aqueles homens.

Os encarou com um olhar devorador, eles conheciam aquele olhar, conheciam aquela fúria, por esse fato desviaram, desviaram seus olhos dos dela, pediram que ela recuasse, que se afastasse, mas ela não o fez, não teve medo, era seu filho ali, eram seus sonhos, era um pedaço de si abandonado como uma grande merda. Ela se colocou na frente deles, justamente daquele que se questionou quando eles deixaram de sentir, as mãos tremulas enluvadas não entendeu o que aquelas mãos tão calejadas faziam ao segurar sua mão e apontar a arma para o próprio peito.

Logo o tempo começou a estacionar, o silencio deu lugar a gritaria, outras armas foram direcionadas a si.

No chão estavam as horas de sono inexistentes de uma mãe que esperava acordada o filho voltar da Faculdade, estavam as lágrimas de comemoração pela Faculdade Pública, estavam os sonhos, todos os sonhos, juntos com horas de estudo e as xícaras de café, junto com o trabalho de meio período para pagar os livros, junto com o tênis furado e os bolsos vazios.

E em um mero espaço de tempo entre toda a correria que se fez junto aos gritos dos moradores locais tudo se perdeu, nada mais importava, não importa se por um engano eles atingiram seu filho ou a ela, continuaria a ser um engano se eles tivessem acertado outro, seria outra mãe ali em seu lugar, seriam outros sonhos enterrados junto a um corpo, seria outra vida perdida no alto do morro, outro completaria as estatísticas nas folhas de domingo.

Foi se perguntado por um desconhecido, que espreitava tudo por trás de uma coluna de concreto, o que eram sonhos? Justiça? Vida? Enganos?

Ele viu a hora do tiro, não foi um engano, a tal atividade suspeita do tal rapaz era dar ao morador de rua um dos sanduiches que ele vendia na Faculdade. O tal pacote, não era nada. A mãe estava lá do outro lado, como de costume, o esperando descer do ônibus para juntos irem para casa. Ela não viu carros, ela não viu nada a não ser seu filho, caído, jogado e abandonado no chão.

O desconhecido se perguntava o que dava a aqueles homens fardados o poder de se fazer justiceiro, de podar vidas, de escolher e condenar pessoas por sua classe social, por sua cor, por escolhas que não tiveram?

A pena de Morte existe nesse País, ela condena sem julgamento cada um que está fora do círculo, que se encontra fora dos padrões, que por não ter uma escolha encontra um outro caminho, condena as mães, os pais e os filhos, condena os órfãos de um Estado omisso que se esconde atrás de um de sistema excludente.

Feminismo, Violência

Eu não sou Culpada…

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Na madrugada de terça, 24 de maio, uma moça que poderia ser eu, minha irmã, amiga, conhecida ou desconhecida, qualquer uma de nós, ela foi violentada por trinta homens, que não satisfeitos com tamanha violência, ainda expuseram o vídeo em Rede Social, se vangloriando do ato, com frases como “ essa engravidou” e “foram mais de trinta”.

culpaNão se tem muito o que falar quando no dia seguinte ao ato, dia 25, a primeira visita pública ao Ministro da Educação, para se entregar uma proposta, provavelmente sobre as Escolas sem Partido, é um Estuprador confesso em Rede Nacional. Realmente não se tem muito a falar… principalmente quando o Suplente do atual Ministro da Saúde o deputado Federal Ricardo Barros (PP-PR) está preso desde fevereiro, Osmar Bertoldi, que teve a prisão decretada por cinco crimes, entre eles, estupro, agressão e cárcere privado da ex-noiva.

O Estupro, a cantada, o assédio, o cárcere, tudo isso é resultado de uma sociedade que ensina seus filhos a serem machos, a serem predadores, a não terem sentimentos e a tratarem mulheres como objetos de desejo sem vontades. Meninos são ensinados a serem abusivos, opressores, a excluir a eles mesmos, caso não caibam nessa concepção. Essa é a mesma sociedade que diz que a menina tem que ser sensível, respeitável, educada, linda, recatada e do lar, submissa aos homens.

O agressor se disfarça no comodismo dessa sociedade que não dá a nós (mulheres) direito sobre o próprio corpo. Se reclamos da cantada, eles dizem que são elogios, que é muito mimi; se reclamos das mãos, dos assédios, eles culpam nossas roupas, a bebida, a maquiagem; se somos colocadas em cárcere ou abusadas, a culpa é nossa, da nossa roupa, do horário que saímos, do local onde estávamos, por sermos infiéis, por dizermos não.

A sociedade grita na nossa cara que a Culpa não é do agressor e sim da vítima, eles nos culpam simplesmente por existirem.

Vivemos na cultura do Estupro, a prova disso é que a cada comentário que surgia criminalizando o ato, os agressores se justificavam dizendo que “a menina estava bêbada”, “se ela estivesse em casa estudando isso não ocorreria”, que “ela já estava acostumada”. A nossa sociedade banaliza tal violência assim como banaliza o racismo e a homofobia, tornando todos esses atos parte de uma rotina.

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Feminismo Empoderador (Página)

Rotina essa que faz parte da trama das novelas, onde um rapaz abusa de uma moça e é tudo romantizado, como se fosse algo normal, como se ela tivesse por obrigação gostar do ato que foi feito contra sua vontade. A televisão nos diz a cada instante como devemos ser e agir, nos dão um padrão idealizador de mulher perfeita que querem que sejamos.

Querem nos moldar, querem nos calar. Semana passada um ex BBB foi preso acusado de estupro, ao invés das pessoas culparem a ele, culparam a menina que tinha 13 anos que o “seduziu”, as reportagens ao invés de falarem dos crimes sexuais contra menores, falaram de como os “pobres” homens são enganados por menores de idades em baladas…

Ainda hoje, 26 de maio, me deparei com uma notícia na página do Coletivo de Mulheres da UFRRJ, uma das estudantes que havia sido violentada dentro do campus havia se matado. Essa estudante foi vítima não só desse agressor, como de toda uma comunidade que tentou culpabilizar a ela pelo ocorrido. Tal qual fez um professor das Ciências Sociais (UERJ), em uma postagem de uma amiga, que praticamente disse que uma mulher não pode entrar no quarto de um desconhecido.

Culpar, é isso que o Projeto de Lei 5069 pretende fazer, culpar a vítima, fazer ela se responsabilizar por algo que não teve culpa, a PL em questão, dificulta mulheres que sofreram violência a abortarem, aliás não só isso como também torna a essa criminosa, diz que ela tem que ser presa.RTEmagicC_violencia-contra-mulher.jpg

O nosso corpo não é nosso, é isso que esses babacas nos falam a cada segundo.

Não importa a idade dela, ou quem ela era, se tinha filhos ou não, se traiu o namorado ou não, se era viciada, o lugar onde se estava, nada disso importa, isso são apenas justificativas para que cada vez mais possa se culpabilizar a vítima. É isso que a nossa sociedade faz, culpa a vítima, por sua roupa, por seu batom, pela hora em que se encontra na rua, por ser mulher.

            Quem nunca tevê medo de andar sozinha na rua? Quem nunca desconfiou de um carro que misteriosamente diminuiu a velocidade no momento em que você passou por ele? Quem nunca teve seu corpo vítima dos olhares inquisitórios de homens? Quem nunca tevê medo dentro da própria Universidade? A grande realidade meus caros é que ser mulher nessa sociedade machista é praticamente nascer predestinada a sofrer com isso, como se nós, por sermos mulheres tivéssemos, que pagar uma pena por isso.

            Pena, punição… É isso nos culpam e nos penalizam, se vamos a delegacia relatar um caso de violência, nos tratam como loucas, nos olham como culpadas, impõe a nós uma outra violência que nos faz sentir uma #RaivaComRazão, aliás essa é a Tag nova levantada pela Organização Think Olga.

            prmeiroassedioA Culpa não é minha, a culpa não é nossa, a culpa não foi dela, da roupa, do lugar, da droga, a culpa é dessa sociedade que a culpou, a culpa foi dos 30 homens, pais, filhos, irmãos, a culpa foi deles, eles foram os criminosos, eles cometeram o ato, eles não se pronunciaram em defesa da vítima, nenhum deles e assim se fez 30 contra uma.

Aos homens que leram esse texto, nós não vamos nos calar, vamos gritar, não foram 30 contra uma, foram trinta contra todas nós. A cada dia sofremos com esse machismo enraizado em nossa cultura. Nós merecemos andar na rua sem nos preocupar a cada 10 segundos com quem está atrás, merecemos ser livres e não enclausuradas em um mundo que nos culpa por tudo.

 

 

Feminismo, Violência

Enem 2015: Redação ou Relatos?

Eu estava no
meu trabalho quando pensei: Sabe, eu vou estudar, meus filhos já estão crescidos. Então saí do trabalho e vim ao colégio. Fiquei tão feliz quando consegui! Cheguei em casa e falei para os meus filhos e para o meu marido. Eles acharam legal e me deram a maior força para eu voltar a estudar. (Sandra Maria, 2009:86).

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      A fala em questão diz respeito a uma das muitas falas presentes na minha monografia, especificamente no terceiro capítulo que trata da questão de Gênero na Educação de Jovens e Adultos, voltar, abandonar, amar, construir versos pulados, estrofes abandonadas, isso tudo faz parte daquelas mulheres que compõe essa modalidade de Ensino, elas abandonaram tudo por outros e não por elas. É com essa fala que dou início ao texto de hoje.

          Em 2014, o Disque 180, Central de Atendimento a Mulher prestou atendimento a 485.105 pessoas, desses 52.957 faziam referência à relatos de violência esses dados são disponibilizados pela SPM-Secretaria de Políticas para as Mulheres. Ainda ontem os jornais noticiavam que 55 redações do ENEM 2015, segundo o MEC, tiveram relatos pessoais de violência sofrida, de acordo o Ministério, essas mulheres relataram serem vítimas ou testemunhas de alguma violência.

             Observar esses dados é perceber que nascer Mulher em um País com uma essência machista é nascer no Desprivilegio, nascer sem ter suas próprias escolhas, é nascer com a certeza de que sua vida sera incerta, que a sociedade colocará sobre si comandos que você não quer realiza, sua única certeza será que ao menos uma vez na vida você será subjugada a alguma violência física ou psicológica apenas por ser mulher.

         Dede muito cedo os filhos desse país são ensinados a serem machistas, nossos pais são machistas, nossos amigos, nós somos machistas, fomos criadas diante a uma ideologia que trata as mulheres como frágeis criaturas que são incapazes de decidir por si mesma suas ações, roupas, costumes e maquiagens, somos veladas e cultuadas para bel prazer, nos dizem o que é certo e o que é errado, e o que para muitos é cuidado na verdade é machismo, violência, controle emocional.

          Vozes gritam a cada dez segundos que elas tem ESCOLHAS, que nós temos Escolhas, mas isso não é verdade, as frases são convincentes, os gritos são muitos, nos calam e calam, as razões são muitas, filhos, pais, dependência, baixa alta estima, opressão seletiva, falta de apoio, é difícil nadar contra maré diante a tantos fatores, afinal meninas brincam com bonecas para desdê pequenas aprenderem que a elas competem os filhos, a casa, o cuidar e o amar, não foi nos dado escolhas. Recorro mais uma vez a minha monografia para falar de tal ato:

Escolha? Ela parecia inexistente em um mundo de certezas, certezas que não eram as suas. Sentiu-se culpada por seus sonhos irem além dos seus casulos, se sentiu culpada pelos olhares famintos, e pelas dores alheias, se sentiu culpada por não saber dizer não e por ser obrigada a dizer sim, se sentiu culpada por sua roupa, por seus medos, por tudo que era relacionado a si, porque simplesmente nesse momento ela era outro. (SILVA. Juliana. UERJ)

           A essas mulheres como Sandra, Tereza, Maria, minhas tias ou avós competia uma única coisa abdicar de seus direitos em prol de outros, estudar, viver, sair, sua vida não a pertencia mais e isso significava que todas as suas escolhas eram em função dos que estavam a sua volta, cuidar dos irmãos enquanto os pais trabalhavam, cuidar dos filhos enquanto o marido trabalhava, cuidar da casa e do marido, abandonar os estudos para trabalhar, abandonar o trabalho para cuidar da casa e dos que nela residem. 

           O machismo tá ali, logo ali, no canto da sala ouvindo os gritos de Não pode da mãe e as ordens do pai, se encontra na desistência em prol de um amor, nos gritos calados, nas manchas roxas inquestionáveis, nos gritos de choro, nos desabafos…

            A redação do ENEM que para muitos foi algo perfeitamente normal para outros se tornou um diário secreto, um diário aberto, um veículo para gritar ao mundo que tudo aquilo que vemos relatado no Facebook, nos jornais não é mera ficção, não é algo difícil de se encontrar, que aquilo que outros tem tanta facilidade de escrever para ela ou para ele é algo extremamente torturante pois aconteceu com a irmã, com a mãe, com a tia, com a avó, com ela.

       Essa infantilidade humana de se dizer perfeita e olhar apenas para as notas 1.000 e não questionar as notas baixas, os zeros, os motivos que foram muitos para tal ato acontecer. Para muitos pode parecer impossível que alguém que fale e lute com tamanha propriedade sobre esse assunto consiga tirar uma nota abaixo de 600, mas essa não é a realidade, não falo apenas de coesão, coerência e toda aquela finalidade da língua portuguesa, se expressar em palavras é algo muito difícil ainda mais para quem viveu algo assim. Quem garante que os mais de 104 alunos que tiveram nota mil ao menos alguns não eram os agressores que praticam tal ato, falar de agressão se torna fácil quando se é o manipulador que convence a todos que é o inocente.

            O tema da redação na verdade expôs um problema grande no Brasil a violência e a banalidade com a qual a tratamos, uma menina não pode ser assediada em um programa de televisão e isso ser tido como normal, uma mulher não pode ser morta e isso virar piada, nascer mulher não é nascer como um pedaço de carne que qualquer um pode avançar e pegar. O tema da redação expôs algo muito pior não estamos preparado para lidar com nossos erros, a sociedade te puni pela saia curta, pelo batom vermelho, pela calça apertada, pela forma como anda, a sociedade não aceita que isso é uma violência, não aceita que oprimir o outro não te faz pior ou melhor do que quem comete violências físicas, te torna igual e igualmente opressor.

         Banalizar, normalizar e romantizar, nós conjugamos esses verbos, disfarçamos a violência e impomos a elas rótulos que não cabem, ter ciúmes não dá o direito de agredir, matar e humilhar o outro. Não sei se alguns de vocês acompanham a nova minissérie da Rede Globo, Ligações Perigosas, baseada em um livro que já teve milhares de adaptações, eu não li e nem vi nenhuma delas, muito menos essa mas a internet ferve e eu vejo, mas isso não vem ao caso, o ponto que quero chegar é no Estupro que tendenciosamente foi romantizado nas telas da dramaturgia, o problema não foi a demonstração do ato, o problema foi a direção da telenovela ter romantizado o ato como se aquilo fosse algo normal, uma virgem tendo sua primeira experiência, aprendendo e deixando de ser menina, a banalidade como a cena foi tratada foi tamanha que até mesmo o site da emissora em questão apenas noticiou que fulanos ”dormiram” juntos, como se ambos quisessem consumar o ato.

         É nesse momento em que a ficção se mistura com a realidade no momento em que deixarmos de pensar que violar um corpo é algo normal, que a culpa pela violação é de quem foi violado, no momento em Pensarmos que as pessoas tem escolhas, tem desejos, elas podem dizer NÃO, elas não são obrigadas, não é por ser mulher que eu tenho que ser assediada pela minha roupa curta ou por descer até o chão. O fato de eu nascer mulher não deve significar que eu tenha que seguir uma linha reta daquilo que a sociedade espera de mim, aliás a sociedade não pode esperar nada de mim, porque nem eu mesma espero algo de mim.

         Nós como sociedade temos que olhar para outro como se outro fossemos nós, afinal nós fazemos parte da sociedade e só quando percebemos o significado da palavra empatia aprenderemos o que é viver em sociedade. 

Texto publicado por Juliana Marques em 12/01/2016

Feminismo

#PrimeiroAssédio – tantos gritos silenciados…

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Eu começo esse texto parabenizando à todas e todos que compartilharam seu #PrimeiroAssédio ou algum outro #Assédio ao longo de suas redes sociais, a algumas horas, uma página da Universidade, UDD (UERJ dá Depressão), cujos moderadores são estudantes da mesma e assumem a função de informar, compartilharam uma das coisas mais intensas que eu já li, Luísa Guimarães, estudante, filha, irmã, amiga que nas suas palavras e nas de tantas outras iguais a ela sofreu assédio ao longo de sua vida, ela não relatou o primeiro, ela não relatou o segundo, ela relatou algo que mudou sua vida e que quase acabou com ela, ela relatou o estupro, cometido pelo taxista que deveria leva-la para casa, ele não só a ameaçou com uma arma, como também chamou um amigo para consumar o ato, ler aquelas linhas e me imaginar no lugar de Luísa era algo tão inevitável, que me pego chorando enquanto escrevo, imaginando o tamanho desespero ao acordar sozinha, ao ser vê daquela forma, me pego imaginando o tamanho de sua dor durante todos esses dias e meses.

A dor da Luísa é a dor de milhões de mulheres, crianças, filhas e filhos, mães… amigas, desconhecidas (e também desconhecidos).

Eu já disse não consigo me lembrar de um assédio quando pequena, ele provavelmente ocorreu, lembro que minha mãe sempre me mandava correr se eu visse um carro suspeito no caminho para o colégio, lembro do pai meu falando para eu não chegar tarde, ele sempre dormiu depois de eu chegar, lembro do meu irmão que nunca foi de demonstrar tanto afeto, coisas de irmão, me abraçando em meio a olhares devoradores. Eu não me lembro do primeiro assédio, mas lembro de ser constantemente lembrada que ele, o assédio, existi, sentar na fileira do corredor, andar armada com um guarda-chuva, usar calça ao invés de saia no Metro.

Me lembro que certa vez, no meu primeiro ano do Ensino Médio, no Colégio (Estadual) Normal Heitor Lira, enquanto pegava o 906 um senhor que deveria ter idade para ser meu avô entrou no ônibus para assediar as moças, para azar dele eram muitas contra um. Também me lembro de levantar do meu lugar e preferir ir em pé porque o rapaz que estava do meu lado se masturbava enquanto me olhava. Me lembro de fingir ter uma arma e encarar meu assediador enquanto mostrava uma faca de cozinha e sorria apertando o cabo do guarda-chuva, ele desceu dois pontos depois, nunca mais sai de casa sem guarda-chuva não por ser uma pessoa prevenida, mas por me sentir segura portando aquele objeto. Eu também me lembro que não andava tarde da noite com meu uniforme de normalista pelo simples fato de não me sentir segura, afinal era uma constante caminhoneiros, motoristas de ônibus e de carros suspeitos já me faziam acelerar o passo o suficiente a luz do dia, a verdade é que assumo eu não me sinto segura e nem nunca me senti segura andando sozinha.

Segurança, medo, revolta… a dor do outro é a minha dor.

Ler sobre o #PrimeiroAssédio, pensar nos assédios que já vivi enquanto trafegava tantas vezes antes das sete pelas desertas ruas que me levam a UERJ me fizeram pensar nas roupas que não vesti, dos caminhos que criei me desviando dos meus algozes, das vezes em que tampei meus ouvidos e apressei meu passo ou ainda das vezes que não curti meu sono porquê quem estava ao meu lado era um homem, lembro também das vezes que gritei, encarei, xinguei, das vezes que fiz tudo isso e ainda assim senti em mim o medo.

Medo…

A campanha, #PrimeiroAssédio, surgiu com o coletivo Feminista Think Olga, alertando para o assédio a crianças, tais quais Valentina e tantas outras, incentivando mulheres (e sim alguns rapazes) a contar sobre a primeira vez em que foram assediadas. Tantas e tantas vezes as cantadas são tidas como elogios, coisas normais, os olhares na bunda, nos seios, as mãos bobas, os fiu-fiu são deverás naturalizados por quem os comete, pela vítima e por quem cerca a vítima.

Não, não é um elogio, quando um carro para na sua frente e grita ‘’Oh lá em casa!’’, ‘’Gostosa’’, ‘’Quero te ter toda molhadinha’’,  seu coração para e você sente vontade de correr e de chorar, quando um homem vem na sua direção te encarando você tenta desviar, você anda atenta, você muda o caminho e você ouve ‘’Gata’’, ‘’Gatinha será que mia’’, ‘’Bom Dia’’, isso não é elogio, isso não é brincadeira, isso não é natural, isso é assustador.

A três semanas o Twitter e o MasterChefe Junior andam em total sincronia negativa, primeira o assédio, depois a homofobia e agora o sumiço da participante, a equipe do programa diz que a edição foi feita de acordo com a evolução dos participantes, fato é que direta ou  indiretamente isso ocasionou em algo muito comum no julgamento humano, culpar a vítima, sumir com ela, esconde-la, a culpa é dela, a culpa é minha, a culpa é nossa, pela roupa, pelo batom, pela saia, pelo vestido, por ser mulher…

Ler o que Luísa escreveu me fez pensar no que meus pais falavam, dizendo o quão inseguro era andar dentro de um transporte sozinha com um homem, não gosto de táxi, também não gosto de Vans vazias e ônibus apenas com motorista e trocador, mas mesmo assim os pego, com medo e o meu medo aumenta cada vez que leio algum relato, algumas vezes desço no meio do caminho, corro, mudo de roupa e deixo de passar batom, outras tantas percebo que não posso viver escondida, que não posso viver no medo, na escuridão, eu não sou culpada eles são os criminosos, eles são os verdadeiros culpados, eu não posso mudar minhas roupas, minha maquiagem, minha forma de ser e os caminhos por onde ando, eu luto, eu grito, eu bato e até empurro, mas mesmo assim para alguns eu faço por nada.

Lembro que enquanto lia, o segundo sexo de Simone de Beauvoir, eu fiquei tão feliz quando ela dizia que os comportamentos sociais são impregnados em nós, existe ainda uma esperança para a humanidade, eis aí o motivo da celebre frase ‘’mulheres não nascem mulheres, tornam-se mulheres’’, todo comportamento relativo ao que sou para a sociedade foi me imposto por ela, assim como o machismo, assim como a culpa da vítima, assim como se mudar para não ser assediada.

Deixo aqui todo o meu amor a Luíza, Valentina, Ana, Sofia, Teresa, Juliana, Maria…. a tantas outras e outros que sofreram, que choraram, que mudaram seus caminhos, suas roupas por medo, deixo a todos o meu abraço de gratidão por não desistirem, por lutarem, por compartilharem tantas palavras para mostrar que outros devem se pronunciar, que isso não é algo comum, para provar o mundo que nascer com o sexo feminino não é sinônimo de nascer como  um pedaço de carne, como uma vaca que a qualquer momento pode ser levada para o abatedouro por olhares raivosos e mãos abomináveis, ser mulher não pode ser uma condição para ser assediada, para ser abusada e ser consumida.

Deixo todo o meu amor à essas pessoas, minha solidariedade, minha sorosidade, meu abraço mais apertado a todos que já fá foram vítimas de alguma forma.

Para ler a postagem da Luísa é só clicar no nome dela.

#PrimeiroAssédio Maioria de participantes de campanha sofreu 1º abuso entre 9 e 10 anos https://t.co/wehmYkLHFl pic.twitter.com/Eu8eRFbBHx

— BBC Brasil (@bbcbrasil) 29 outubro 2015

Tinha uns 8 anos e esperava minha mãe nas compras. Dois rapazes passaram por trás, pegaram na minha bunda e saíram rindo. #PrimeiroAssédio

— Bruxa Onilda (@byankarruda) 21 outubro 2015

Texto Publicado Por Juliana Marques em 30/10/2015

Crianças, Feminismo

Keep Calm é só o ENEM! (Ou será que é a vida?)

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Sobre o ENEM: Sim, estou muito feliz com o fato do ENEM fazer jus ao rótulo de Exame Nacional de Ensino Médio, e de fato ir além das questões programadas que os cursinhos e algumas escolas se propõem a ‘’ensinar’’, mas eu continuo achando esse sistema de avaliação deverás arcaico, não por privilegiar uns e outros, até porque o ENEM é baseado em currículo Nacional, mas eu não acredito em um sistema de avaliação que te ponha a prova durante dois dias, em meio ao seu nervosismo e as insistentes crises de TDAH, preferia em uma ideia utópica ser avaliada por minhas competências, assim seria mais fácil e justo.

Mas falemos das questões do ENEM, teóricos conceituados, FREIRE, MARX, Beauvoir, e um monte de outras pessoas que tentaram mudar o mundo, história e geografia aplicada de maneira social e cultural, segundo relatos as questões de português também estavam trabalhadas na amorosidade, nas variações linguísticas e bem a provas de ciências exatas era a prova de ciências exatas.

O que eu quero dizer é o seguinte tanto se foi comemorado durante o dia sobre tudo isso, sobre esses pensamentos, sobre esses autores, sobre tudo, que uma questão pairou em minha cabeça o dia inteiro, esses autores são trabalhados da forma que se devem ser trabalhados com os alunos em sala? Eles são ensinados a refletir sobre esses assuntos? E se eles que tanto quiseram quebrar o sistema estavam sendo usados a favor do sistema eles estavam agora excluindo?

Eu realmente fiquei feliz pelo ENEM fazer jus a uma formação Humana, que aliás se faz presente com a obrigatoriedade do ensino de sociologia e filosofia, mas a questão é: Mesmo que as ideias mais contemporâneas sobre igualdade de direitos tenham sido expostas nessa prova, na prova anterior (2014) e nas demais (que vão vir e já vieram), isso não vai significar nada se a formação de alunos e professores continuar a ser uma formação que valorize a reprodução, a programação e a desigualdade, onde a lógica da exclusão se faz presente em um exame que deveria incluir, afinal quantas escolas entre públicas e particulares se preocupam realmente com isso??? Quantas escolas ouvem seus alunos??? Quantas escolas de fato fazem o que é proposto pelas Diretrizes???

Entre os milhares de comentários de comemoração pelos temas propostos ouso a falar que o barulho foi feito sem reflexão alguma, é fácil falar do que é machismo, violência, exclusão do lugar onde estou, acabei a faculdade de pedagogia, minha formação é em humanas e digo com clareza que as crianças que prestaram esse vestibular em sua maioria não tomaram ciência política da metade das questões naquela prova. Sim, eu os chamei de crianças, cada dia mais cedo eles prestam vestibular, se preparam para um mercado de trabalho no jardim de infância enquanto aprendem o terceiro idioma, mas isso é um outro texto.

Chega a ser engraçado em meio a um dia em que uma prova e sua redação pro vestibular causou tanto rebuliço uma pequena reportagem do Fantástico chamar atenção justamente pela controvérsia, um dos quadros, intitulado ‘’o grande plano’’ com a presença de três artistas acima de sessenta ( Berta, Vilma e Elke), a participante a pedido do marido teria que mudar seu estilo de se vestir por causa do marido, ele achava suas roupas apertadas, curtas e transparentes, e as três senhoras concordaram, em meio a uma grande discussão sobre direitos das mulheres ideias tão ultrapassadas se fazem presente, ‘’o que as pessoas vão pensar’’, as pessoas não deveriam pensar nada, o corpo é dela, a vida é dela, ela se veste como ela quiser e ninguém tem o direito de falar algo sobre isso.

Vivemos em um mundo onde o machismo se encontra tão impregnado que não conseguimos nunca achar a raiz do problema, o tamanho da roupa, a cor do batom, o solto, a falta de pintura, pequenas ações, detalhes que são nos impostos todos os dias como forma de controlar nosso corpo, não somos objetos, somos mulheres.

Deixo aqui a minha reflexão sobre esse ENEM, talvez essa seja a pequena revolução que começou no lugar mais improvável para que futuramente os vestibulandos não precisem decorar formulas e formulas em meio a um desespero para passar no vestibular. Quem sabe seja essa a hora de refletir sobre o que é ensinado nas escolas desse país?

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas

Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas

(Chico Buarque)

Texto de Juliana Marques (publicado no dia 26/10/2015)

Feminismo, Sexo

Sexo, sexo, sexo e Mulheres

silhueta-adesivoE eu te farei as vontades

Direi meias verdades

Sempre à meia luz

E te farei, vaidoso, supor

Que és o maior e que me possuis

(Chico Buarque, Folhetim)

Atire o primeiro verso quem já não ouviu uma cantada na rua por causa da roupa que vestia, ou só por se mulher? Quem não se sentiu constrangida e até mesmo com medo por conta disso? A grande realidade é que nós, mulheres, apesar do século, ainda somos vistas como um pedaço de carne, uma prenda, uma caçada, algo que tem que ser alcançado. ‘‘Prendam suas cabras que meu bode está solto’’.

Não, eu não gosto de me ver comparada a um objeto sexual, e pior ser ligada a bebidas alcoólicas, ter meu corpo rotulado e comercias me dizendo que tenho que ser sexy e provocante. Posso até ser sexy e provocante, mas eu tenho o direito de não ser só isso, de ser mais do que simplesmente o meu corpo, de ser um pouco mais do que as curvas das modelos, das famosas grifes europeias, desculpe-me não sou Europeia e meu biótipo não me fez assim, não me prenderei a isso, julguem-me…

Atire o primeiro copo quem nunca se olhou no espelho e não se sentiu perfeita da forma que era, quis quebra-lo, taca-lo longe, esconde-lo com um pano preto, afinal a culpa era dele de não sermos como as moças dos comercias e as modelos, a imagem do feminino é inventada pela mídia que nos faz pensar que somos imperfeitas e comprar mais e mais a imagem da perfeição nas prateleiras de cosméticos. Tudo bem, gostamos de nos sentir bonitas, e por isso compramos, opa houve um erro nessa frase! Compramos para nos sentir bonitas, mas quem definiu esse padrão de beleza? Para quem queremos ser bonitas, para outros ou para nós?

E é nesse ponto que finalmente chegamos, o consumismo, o mercado, as prateleiras, as revistas, as academias, os produtos Detox, não vejo nenhum problema em nenhum desses itens. Mentira, eu vejo todos os problemas, incluindo no meu pote de sorvete e no chocolate que como para compensar minhas frustrações, eu sei que cada um deles vende uma imagem de mulher perfeita, que a sociedade espera que eu siga. Eu não sou perfeita, e pior não tenho a menor ideia, se a ideia de beleza que eu tenho foi algo que eu criei ou se me foi completamente induzida.

Simone de Beauvoir um dia falou que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Atire o primeiro vestido, de preferência o rasgue quem nunca se teve estigmatizada só por que preferiu os livros a balada, as lutas ao balé? A sensibilidade feminina é algo inventado, já houve um tempo em que as mulheres sequer criavam seus filhos, até mesmo o amor materno é uma invenção moderna para segurar as mulheres. O que são as bonecas, as casinhas, a divisão de brinquedos em azul e rosa, em brinquedos de menina e menino se não a rotulação do que as meninas podem e não podem ser…

Pensem amados leitores, mulheres foram presas apenas por dizer que amavam e que esse amor não eram por seus maridos aos quais foram obrigadas a se casar, ao longo dos séculos nossa liberdade foi fielmente castrada, nossos desejos extintos, nossas roupas redesenhadas não para nos agradar mas agradar aos olhares, calça não era coisa de mulher descente, nossos cabelos foram quimicamente tratados para ceder a um padrão de beleza que não era o nosso, nos foi ensinado a obedecer sem questionar, a não falar sobre determinados assuntos, a torna-los tabus e só serem tratados nas rodas de amigas.

O que somos, sobre o que falamos, o que vestimos, o tamanho da minha saia, meu jeans apertado, nossos gostos, curvas e desejos, não deveriam ser tabus. Somos seres humanos antes de tudo, não derretemos como açúcar na chuva, não necessitamos que alguém nos proteja, nossa roupa não deveria ser controlada, quem vai vesti-la somos nós e não eles, temos desejos e sentimos vontades, isso não é privilégio do sexo masculino. Atire o primeiro batom quem nunca deu aquela olhada na bunda do rapaz, sentiu um enorme desejo de gritar ‘’gostoso’’, ‘’ah lá em casa!’’, ou quem sabe ainda em um pensamento mais ousado sentiu vontade de passar aquela mão boba, “ops, escorregou! ’’. A verdade caros leitores é que nós mulheres não fazemos isso, não com frequência, se fazemos somos rotuladas de inúmeros adjetivos que não vale aqui mencionar, enquanto os rapazes são rotulados com adjetivos que exalam sua masculinidade. E só como ressalva a esta frase mal formulada os corpos sejam do sexo que for, devem ser respeitados e tocados apenas quando for do desejo e do consentimento de ambos, não somos objetos que são simplesmente manuseados a vontade alheia.

Meus caros leitores, porque essa introdução para falar de sexo? Simples, sexo não é algo simples, é algo que vai além dos desejos e das mãos nas inúmeras partes de dois corpos, ou dos inúmeros orgasmos em uma única noite, ou ainda dos gemidos naquele pequeno cômodo, sexo é isso, mas também é aquilo. E quando eu falo “aquilo”, refiro-me à liberdade de se fazer quando e a onde quiser, da forma que quiser, e principalmente com quem quiser, sexo é um tabu comercializável e rentável. E todas aquelas ideias da mulher perfeita se empregam finalmente a esse ponto, no sexo, nos orgasmos fingidos, em toda a ideia do corpo perfeito por baixo dos pedaços de pano que componha a fantasia, para quem nos vestimos nessa hora? Queremos muito mais do que apenas nos sentir desejada, queremos que seja bom, queremos o desejo e o prazer e não só simplesmente dar…, só uma ressalva nós olhamos e também comparamos, afinal é para isso que servem as famosas rodas femininas forjadas nos banheiros, mesas de bar, shopping, praia e salas de aula.

Me perguntei durante um bom tempo o motivo de cinquenta tons de cinza fazer tanto sucesso entre as mulheres, eu sinceramente não sei, já li livros mais interessantes, e que fique claro eu não li cinquenta tons, eu não consegui passar da página 15, gosto realmente é algo indiscutível.

A liberdade sexual feminina, a liberdade feminina no geral, foi algo que ocorreu muito recentemente, quem éramos nós para falar de sexo? Meros objetos que apenas davam prazer, que não recebiam e nem sentiam…, para mim esse é o X do sucesso de vendas, não que o livro seja bom, mas sim o fato dele ser escrito por uma mulher para mulheres, uma escrita que fez milhares de mulheres falarem indiretamente ou diretamente aos seus parceiros que não estavam satisfeitas na cama, que os gritos na hora H na verdade não existiam, que elas queriam inovar outras posições, que existiam outras formas de se fazer sexo oral que não fosse ela nele e sim ele nela. Eu particularmente faria o querido e problemático Gray, sentar no meu divã para curar o seu egocentrismo, obsessão e o machismo, mas não estamos falando dele no momento e sim no fato dele proporcionar prazer, a problemática, submissa e dependente Anastácia.

Como puderam perceber não sou muito fã do livro, na verdade a literatura erótica, e até mesmo na não erótica, no geral faz de nós mulheres objetos de prazer, algo a ser consumido e domesticado, algo frágil e que merece ser protegida a personagem principal que na verdade é mera figurante faz suas ações girarem entorno do galã másculo e viril, olhando por uma ótica generalizadora acaba por fazer o mesmo que o mercado de consumo nos vende a ideia de mulheres sem alma, prontas para o abate, mulheres perfeitas e quebráveis, mulheres de plástico sem desejo ou vontades, mulheres de papel completamente moldáveis.

Acho que vocês vão gostar de saber que estou sentada escrevendo esse texto completamente despenteada, pensando na garrafa de coca cola e na rabanada absolutamente gordurosa na geladeira, Minhas unhas pela metade do esmalte, e o lápis de olho borrado. Quem liga para isso afinal? E daí se estou assim? Meus pais sempre me dizem que se é para me arrumar que seja por mim e não por outros, acho que estou seguindo esse conselho…

Texto de Juliana Marques (publicado Originalmente no dia 31/08/2015)

 

Homofobia, Sem categoria

Opção

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Já viram a lua hoje? Não, eu não quero falar da lua cheia, apesar de ter sido uma notícia TOP, eu realmente não quero falar nela, isso não é uma opção caros leitores, isso é uma realidade, não me renderei a essa lua duplamente cheia, onde os cientistas discutem sobre o motivo da nomeação de lua azul, se eles não se acertaram muito bem, quem sou eu para dissertar sobre isso…

Mas já que eu falei sobre opção, você realmente sabe o significado dela? Pois bem, opção é o ato, faculdade ou efeito de optar; escolha, preferência… Eu nunca entendi porque algumas pessoas utilizam opção para tantas coisas onde não há opção:

Você não tem a opção de escolher outra família mesmo quando sente vontade de mandar a casa com todos dentro para o espaço…

Assim como, você não escolhe de quem gosta, classe social, cor, aparência estética.

Bem você não escolhe, mas as vezes parece que escolhem por nós:

Ouvia-se os gritos,

Ninguém respondeu,

Silêncio,

Era um menino conhecido,

Meu amigo,

Seu filho, irmão, vizinho…

Suas roupas foram rasgadas,

Havia sangue,

Ele não queria, claro que não queria…

Ele não teve escolha…, mesmo as pessoas falando que havia,

Mesmo que ele pedisse, ajoelhasse, clamasse, as coisas nunca mudaram.

Ele não compreendia, ele gritava, se desculpava, mesmo não fazendo nada de errado.

Fazendo tudo da forma como todos queriam, que diziam ser o certo.

Mas o que era certo?

As roupas, as falas, os gostos, tudo era controlado, ele nem sabia quem era.

Ele tentava, mas não dava certo.

Ele não sentia, não conseguia gostar.

Sentiu angustia, medo, dor…

Sentiu tudo…, menos o que deveria sentir de verdade amor.

Ele odiou até mesmo quem deveria amar,

Odiou a si mesmo por não conseguir sentir algo diferente.

Odiou as palavras de Fé direcionadas a ele,

Todos o recriminavam, tentavam o curar,

Ele não era doente,

Não veio com erro, ou rótulo de validade vencido,

Mas mesmo assim, ele pedia, da forma sempre foi ensinado: Perdão,

Ele nem sabia o porquê mas pedia, pedia para mudar, mas nunca mudava,

Ele nem ao menos pensou que talvez o errado fosse certo, e por isso nunca foi atendido.

Talvez tenha pensado…,

Talvez não tenha pensado,

Ele não aguentava, por mais que pensasse que podia ser certo, todos pensavam que era errado.

Ele se jogou, se machucou, se feriu…

E finalmente pensou que poderia viver o seu errado sem ninguém lhe dizer o que era certo.

Texto de Juliana Marques (publicado no Meu Inexplicável Mundo em 30/07/2015)

Homofobia, Opinião

Suicídio do Nós.

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De tudo restou-lhe o nada,

Restou o silencio em meio as gotas de chuva em seu telhado,

Restou-lhe conforma-se com o silêncio já quem nem suas próprias palavras ele conseguia escutar.

Mas mesmo assim gritou, não deu muito certo, estava tão deserto que o eco de sua voz o assustou…

Restou-lhe o desespero em se ver sozinho, desesperado, imerso na solidão, depois de tanto tempo não bastava apenas enxergar-se…

Ligou a televisão e viu a reprise dos dias em que as ruas estavam lotadas,

Correu na janela, mas as ruas ainda estavam vazias,

Negou-se a acreditar que nunca se importou com os que estavam ali,

as vezes nos abrigos outras no relento.

Pegou seu pequeno aparelho telefônico, seu único contato com o mundo…

Mas do outro lado da linha ninguém estava para escuta-lo.

Ligou o computador estavam todos conectados e ao mesmo tempo tão desligados,

Será que não sentiriam saudade?

Restou-lhe apenas a si e isso não bastou.

Deitou-se no chão e fechou os olhos.

Restou-lhe apenas as lembranças de um tempo de perfumes e abraços,

Um tempo sem tempo para acabar, mas que mesmo assim acabou.

Um tempo que durou mais do que uma ligação telefônica,

Ou uma conversa nas redes sociais,

Sentiu saudade do aperto, das risadas, de sentir-se quente e vivo em meio ao toque humano,

Não queria ser separado pela fria tela de um computador,

Ou pelas mensagens curtas e automáticas de um sms,

Ele queria ouvir um bom dia de novo,

E esbarrar em estranhos,

Queria paixões vivas além das manipulações de imagens,

Queria ver os rostos e toca-los,

Queria escorregar e errar sem consultar um corretor ortográfico,

Queria sentar no chão e conversar com os que ali estavam,

Queria ouvi-los e ser ouvido,

Queria a imperfeição e os desejos de uma tarde de verão,

Queria que os outros sentissem falta também…..

Texto de: Juliana Marques

Homofobia, Opinião, Sem categoria

A vítima

silencio

Silêncio…,

O recinto não estava vazio, ele nunca esteve e talvez esse fosse o erro,

O silêncio foi causado pelo corpo que caia ao chão,

Os olhares que antes se desviavam, se inquietavam procurando um culpado,

estávamos sempre lá,

estavam todos lá quando aconteceu,

ouvindo calados, sentados, em pé, passando, perambulando, olhando.

Estávamos lá…,

antes do primeiro soco ou até mesmo da primeira lágrima,

estávamos lá quando a primeira palavra foi pronunciada,

e os risos que diziam ser tão inocentes foram clamados,

e os olhares esses se direcionavam procurando motivos para o ato,

cor,

sexo,

olhos,

cabelo,

amores,

desejos,

diferenças,

uma mão tentou parar um dos socos, mas era uma única mão contra todas,

as lágrimas desse se cruzou com a da vítima…, eles se conheciam…

era sua família,

amigo,

conhecido,

amor.

Alguns se identificaram com essa dor, e sentiram como se ela também fosse sua,

mas houve apenas uma única mão que tentava parar tantas mãos.

Ouvia-se gritos, gritos de raiva.

Olhares enfurecidos, quase tão vermelhos quanto o liquido que saia daquela vítima.

Os olhos novamente procuravam por algo,

ou talvez apenas tentassem se esconder em meio a aquilo tudo.

”mas continuavam ali”.

E finalmente todos os olhares se cegaram pela cena,

estava caído ao chão a vítima de todos nós.

Texto de: Juliana Marques