Amor, Ansiedade, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, término

Até o fim do mundo

Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como um vendaval
Me joga na avenida que eu não sei qualé’

(Mulher do Fim do Mundo: Romulo Froes / Alice Coutinho)


Para todos que necessitam navegar por águas turbulentas e incendiar o que restou do Mundo, façam, façam sem dó, deixem o grito explodir, sintam a dor e não deixem as palavras morrerem na garganta.


Haviam muitas peças soltas no meu caminho, às pegar era algo relativamente complicado, já não era tão jovem, as mãos equilibravam coisas demais, algumas peças eram pequenas, outras estavam rasgadas, amassadas e até mesmo irreconhecíveis. Eram tantas, espalhadas por tanto tempo, que algumas eu até mesmo me recusava a resgatar, para onde eu iria não havia mais espaço para elas. 

A viagem duraria tempo demais, tinha que ser dessa forma, dolorosa e demorada. 

O choro embargou, a voz falhou e um medo que nunca pousou em meu peito começou a se fazer presente. Era uma viagem em um barco furado, remava com as mãos em águas turbulentas, me sentia sozinha, não havia direção, não havia para onde ir, para onde voltar, o que buscar, só restava isso, o frio, o vazio, o silêncio irreparável no fim do mundo. 

Os cheiros se misturavam, me enjoava, tudo parecia se acumular em meu peito, busquei apoio no que era incerto, me engasguei com as palavras na minha garganta, a ânsia veio junto com a vertigem, eu queria colocar para fora tudo que sentia, gritei, um grito surdo, escancarado, machucado e ainda assim um grito entalado, que não causou danos, não causou estragos e se deteve dentro de mim. 

O barco pareceu me compreender, mesmo sem uma ajuda relevante, me levou para longe, para um lugar escuro, onde eu poderia gritar sem me tornar um incômodo, onde todos poderiam continuar com suas vidas, curtindo seu próprio ritmo, vivendo sem me olhar. 

Molhei as mãos, encarei meu reflexo, limpei os lábios, os mordi, arranquei sangue tentando desviar de toda a dor acumulada no peito, a pressão parecia aumentar conforme eu me afastava,  o frio tão presente me paralisava, me encarava sem me reconhecer, não era a mesma, não era. 

A lembrança do que minha mãe sempre me ensinou, com uma constância irritante se fazia presente, não era para confiar, mas eu insisti, deixei o copo, sorri, vesti uma roupa bonita e acreditei que seria diferente, foi, mas não de um jeito bom. 

Gritei, gritei tanto que a garganta doeu, gritei tanto que por vezes isso pareceu alterar a reta do barco. 

A vertigem voltava, o medo acumulava conforme as peças passavam por mim, o espaço claustrofóbico não me deixava escolha, o que antes parecia bom, agora parecia torturante, encarava meus medos, meu passado e um futuro incerto sem ter para onde fugir. 

Queria gritar, queria quebrar as coisas, queria bater, mas não consigo, pareço ter perdido as forças, tudo parece bem diferente, é turbulento, indesejado, angustiante. A maresia me fazia colocar para fora o que eu nem sabia existir dentro de mim. 

Quanto mais peças eu tentava resgatar, mais eu tinha que equilibrar com o que já estava dentro, o barco parecia afundar enquanto eu tentava construir um equilíbrio frágil e inconstante.

Eu não via mais a margem, não via nenhum ponto de apoio, tudo que via era a ilusão de que conseguiria me esconder, em meio aos meus próprios desejos de me afogar, de me deixar ir e desistir. Tudo que restava era isso, um frio mesmo nos dias quentes, a escuridão mesmo nos dias mais claros, o desequilíbrio imoral causado pelo meu próprio desencaixe.

O mar nunca esteve calmo, as ondas sempre foram tortuosas, o barco sempre balançou, me afoguei tantas vezes que até mesmo me pergunto como permaneço aqui, como ainda existo? Não sei dizer quem me tirou de dentro daquela água fria, nem quanto tempo fiquei nela,  não sei qual mão segurei e nem por qual motivo eu fiz isso, mas ainda estou aqui, sem entender, sem saber como recomeçar, apenas seguindo a maré, seguindo sem rumo nesse barco cada vez mais instável.

Minha garganta doía querendo expurgar tudo que restava dentro de mim, meu corpo tremia, minha mente vacilava, a ânsia era um sentimento frequente, mesmo que não soubesse ainda pelo que ansiava.

Quanto mais eu me afastava, menos vozes eu ouvia, mas as que ainda insistiam, passei a responder o que queriam ouvir, só queria que me deixassem, que deixassem o barco ir, que me deixassem me perder, eu não queria voltar, mesmo que lá fosse tudo sombrio, vazio, e barulhento, mesmo que eu estivesse me afogando, ainda assim era longe o suficiente do mundo, longe das perguntas e das respostas, longe do relógio, do tempo, do espelho. 

As peças que restaram, me faziam recordar de forma constante do queria esconder, os lençóis espalhados pelo chão, o grito preso na garganta, o toque brusco, os tombos, os joelhos ralados, me levantava sempre da mesma forma, tonta, o espelho marcava o tempo, e o relógio não dava trégua. 

Suspirei, fechei meus olhos, não havia o que pedir, mas ainda assim pedi, implorei para tudo passar, me engasguei com o pranto desordenado, o balançar do barco era insistente, tudo que eu precisava era de uma pausa no silêncio, queria ouvir um grito que me tirasse do lugar, queria chegar logo ao meu destino, e encontrar uma direção segura, com uma luz que incendiasse tudo. 

Nos últimos dias o único desejo que habita em mim é incendiar, incendiar as memórias, os pedaços largados pelo meio do caminho, o barco que foi minha âncora e que me trouxe até aqui. Nos últimos dias tudo que desejo é o fim, uma luz no meio do caminho, uma desculpa para não voltar, para não olhar para trás.

Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Crônicas 2026

O que restou de mim

Aos que fingem uma felicidade que nem sempre é verdadeira, desejo não só a sorte de encontrar pessoas que escolham acolher sua tristeza e permanecer no seu silêncio. Mesmo quando tudo parecer tempestade, ainda assim desejo um arco-iris no fim do túnel.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

(Se eu quiser falar com Deus / Gilberto Gil)


O meu futuro sempre me pareceu meio incerto, nunca souberam exatamente o que esperar de mim, quando parecia atender a todas as expectativas ainda assim, parecia não caber nos espaços destinados a mim, fui crescendo sem saber o que era, sem responder perguntas, cresci com medo de crescer, cresci querendo me esconder ao mesmo tempo que, cresci fingindo saber o que eu era. 

Me tornei um ótimo mentiroso, especialista em fingir sorrisos, um bom recepcionista, que mesmo quando a casa tá cheia, ainda assim se sente sozinho, tudo parece uma lembrança para o quão vazio estou, e não há nada que me doa mais do que deixar que percebam isso. 

Dói, dói mais do que eu poderia descrever, dói mais do que eu deixo que transparecer, as vezes tudo parece difícil de ser disfarçado, me sinto como alguém prestes a transbordar, um copo meio cheio embaixo de uma goteira que esqueceram de tampar, eu tento não soluçar alto, tento me esconder, tento não me deixar derramar, mas não dá certo. 

Cada gota que transborda, parece uma tempestade, uma angústia, um veneno alojado na carne, eu sinto o cheiro de sangue, só eu vejo a ferida aberta, me sinto paralisado, sem saber como reagir, tenho medo. Tento me esconder em conversas, risos, festas, para afastar essa sensação, mas aqui dentro tudo piora, se alastra, se torna maior, tudo sangra, manchando meus passos aonde quer que eu vá. 

Às vezes meus dedos ansiosos buscam uma distração, criam histórias, curtem memórias, me fazem ler coisas que eu não queria, e até mesmo isso me parece uma punição em loop. Se eu fechar os olhos me perco em um lugar deserto, que ecoa as vozes daqueles que acham saber tanto sobre mim, que enfatizam minhas quedas, que me fazem sangrar bem mais do que os arranhões adquiridos. Eu me perco com certa facilidade, nesse lugar, ninguém parece me encontrar aqui e mesmo que seja solitário de alguma forma me sinto confortável. Lá, até mesmo a dor é previsível.

As vezes prefiro me perder ali, naquele deserto frio e solitário, do que conviver entre os conhecidos e desconhecidos, eu não gosto de surpresas, não gosto de esperar ser machucado, não gosto de depender dos sorrisos, dos abraços e das migalhas de afagos. Eu sei que eles sabem que eu sangro, sei que me olham, mas ainda assim, eles não parecem ligar, parecem achar divertido e até mesmo inapropriado, exigem de mim um excesso de mentiras que eu não sei fazer existir. 

Não que eu desgoste deles, mas os anos fazem tudo ficar ainda mais difícil, eu não consigo olhar para o passado sem me entalar com o meu silêncio, sem me machucar, sem querer arrancar de mim esse sentimento, por vezes sinto-me como se cada palavra fosse o suficiente para me fazer transbordar, para me tirar o ar, para me colocar em uma prisão sem portas e janelas, onde só escuto palavras que me machucam. 

Eu não tenho para onde fugir, não tenho como fugir, a mistura de aromas parecem me atravessar, a cabeça dói, a sensação de afogamento se transfigura ali, tento me mover mas tudo que consigo é me arrastar mais para baixo. 

Eu tento, tento de verdade ser a minha melhor versão, fazer da melhor forma, vestir a minha melhor roupa e fingir que eu não ligo enquanto me perco em silêncio. 

Mas ainda dói.

Tudo dói e eu não sei como parar, não sei como pedir para que parem, não sei não me machucar. 

Não sei… 

Amor, Ansiedade, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, término, Violência

A valsa dos desavisados

Escrevo para todas que necessitam gritar para recomeçar, para todas que sentem seu mundo ddesabar em uma noite de domingo e precisam buscar forças para recomeçar na segunda.


Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não, e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo como se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

(Oswaldo Montenegro)


O cheiro amadeirado tomou conta do ambiente e se misturou fácil ao cheiro da chuva, trazendo lembranças. 

Já era noite.

Os gritos acusatórios atravessavam o quarto de quem deveria não ter preocupações. 

Acordou, se escondeu, tentou inventar histórias e escapar de tudo que acontecia do lado de fora do seu castelo. 

Não deu certo.

Ouviu o som dos passos pesados e apressados, pensou ter acabado, mas não houve coragem para sair dali, tentou fechar os olhos e fazer o que mandavam, “dormir”. 

Lá fora, não havia despedida, ou um último toque, só restou lembranças.

Algumas dolorosas demais para serem registradas, mas ainda assim ficaram marcadas, como um álbum de fotografia antigo demais para ser recuperado.

Tudo que restou foi o cigarro apagado por cima do móvel antigo, as cinzas abandonadas e levadas pelo vento.

As lágrimas logo vieram, o soluço forte, o ego ferido entorpecido por momentos felizes. Ela queria que ele fosse, mas mesmo ele indo, ainda assim ele ainda parecia dominar todos os passos da sua vida.

Gritou. 

Gritou forte, não acreditando no que aconteceu, sentiu nojo, sentiu vontade de colocar fogo em tudo, nos lençóis, na cama, nas fotografias que registravam todo aquele tempo. 

Se sentiu perdida, abandonada, traída, culpada. 

Seus pensamentos buscavam uma resposta para compreender quando aquilo se iniciava, se em algum momento havia sido diferente, riu de forma amarga, não havia desculpa, ela sabia que não havia, sempre houve sinais demais que ela preferia ignorar. 

Sempre foi tão mais fácil colocar a culpa em si, sempre… Não entendeu bem quando deixou de ser fácil, de ser lascivo para se tornar apenas casto, barulhento e ainda assim perverso e sem sentimento. 

Tossiu engasgando-se, fechou os olhos e lembrou de tudo que falavam, parecia que teria que aceitar a imperfeição dos fatos, não havia remendo, não havia como reparar.

As mãos se fecharam, as unhas machucavam, a dor parecia mínima diante a tudo que sentia. 

Engoliu o choro, hoje era domingo, mas amanhã seria segunda, o tempo continuaria a girar mesmo sem ele, mesmo sem as palavras, mesmo sem os toques, mesmo sem tudo, ela ainda teria que continuar. Sempre teve, mesmo quando todos não percebiam que seu mundo desabava, ainda assim ela sempre teve que continuar. 

Fingiu sorrisos, fingiu gostar, fingiu que a culpa era sua…, não seria tão difícil fingir que nada havia mudado. 

Sentiu a bile subir a garganta, engasgou-se, perdeu a força e se jogou por ali mesmo, preferiu esquecer que do outro lado da porta a frente existia um outro alguém que também chorava. 

Precisava ser egoísta, não havia muito tempo, ainda era domingo, mas logo seria segunda e com ela iriam surgir as perguntas, os debates, e ela não estava preparada para isso. Não estava, nunca esteve. 

Queria ser corajosa, mas sentiu-se covarde, o peito ardia tanto que parecia inflamado, a respiração era tão desritmada quanto a tempestade que caía, se lembrou do que queria esquecer, não mandou mensagem, não ligou pedindo colo, apenas permaneceu ali, esperando a segunda chegar e tentando descobrir como seria o recomeço.

E chegou… 

E fingiu mais uma vez não sentir, pois não tinha escolha. 

Recomeçou, recomeçou a passos lentos, sem afagos ou palavras bonitas, por vezes em silêncio, por vezes culpando o mundo, mas nunca sozinha. 

Nunca.

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Diáspora do Fim do Mundo

It’s like the walls are caving in
Sometimes, I feel like giving up
But I just can’t

Para todos que fogem para encontrar algo melhor, que deixam um coração para trás, que não tem para onde voltar, que desabam sem ninguém ver…


Então eu finalmente consegui.

Cheguei.

Meus braços doem, meu corpo treme, eu não consigo olhar para trás e encarar tudo que deixei, não existe mais nada, não existe para onde voltar. 

Ainda ouço os gritos, ainda sinto o cheiro salgado e metálico do sangue, ainda vejo os passos apressados, os tropeços, o medo estampado nos olhos daqueles com tão pouca idade que nada entendiam. 

Cheguei só, mesmo que tenha tentado carregar outros comigo, eles não conseguiram, foram atravessados pela vida. 

Haviam dias que o baque da perda doía mais do que outros, eu lembro de tudo que senti, da angústia que parecia comprimir meu peito como se fosse uma parede me esmagando. Eu escorregava em meus soluços, e tentava me esconder das lembranças, é assustador reviver tudo em detalhes tão ínfimos. 

Quando cheguei não havia cama, abraços, ou pessoas para me receber, eu era um intruso protegido por uma fina burocracia social. Não me queriam, não me aceitavam, mas eu continuava aqui, preso, respirando de forma desesperada pronto para ser ouvido. 

Sentia o cheiro da chuva que molhava a terra, e sentia saudades do tempo que dançava com ela, os cheiros, da chuva e da saudade, se misturavam aos meus sonhos dissipados, era isso que eu queria mas ainda assim nada é como eu pensei. 

Nos primeiros dias eu não só sentia medo, mas também sentia frio, me senti desprotegido, mesmo que não houvesse motivo para isso. Era como me forçar a respirar mesmo me faltando ar, eu deixei que me levassem ao limite, que me testassem, que me tirassem o sono e que fizessem por mim planos, eu deixei pois não tinha mais forças para lutar…

Ainda tenho medo do escuro, tenho medo de não enxergar o que tá a minha frente, tenho medo de me perder e ninguém me encontrar, tenho medo por não ter ninguém que procure por mim. 

Se eu cair, será que vão sentir minha falta? Será que vão me ver desabar? Será que vão tentar me segurar, agarrar minhas mãos e me abraçar para não me deixar escapar? Será que eu vou continuar?

Tudo era diferente, até mesmo as minhas perguntas eram diferentes, o lugar era maior, mais frio, eram pessoas demais por perto e ainda assim todos pareciam bem distantes. Eu era invisível mesmo todos me conhecendo, senti vontade de anestesiar todas essas sensações. 

Eu não consigo respirar direito, minhas mãos tremem e tudo aqui parece apertado demais, minha garganta seca, as palavras somem, não havia ninguém para ouvir meu lamento ou paredes para proteger o som do meu choro, um choro vazio e ardido que me afogava sem o mínimo esforço. 

O cheiro do sangue misturado ao álcool parecem me completar. Juro que eu tentei evitar por muito tempo a ambos, mas depois de um tempo tudo parece meio impossível.

Queria correr, mas não havia para onde ir, eu não conseguia voltar, não conseguia fazer nada além de ficar travado ali, entre todos que me rodeiam, tentando inventar finais para aqueles que já deixei, tentando me imaginar em um futuro distante. 

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Tudo que começa acaba

Vocês sabem que eu escrevo sobre coisas que sinto, na verdade não escrevo sobre o que sinto, mas sobre os sentimentos que não são meus e me atravessam em forma de escrita. Tem uns dias que os Fãs Clubes do Jão andam atravessando minhas redes sociais, e eu acabei mergulhando em informações sobre ele. Ele curte escrever cartas, então eu escrevi uma carta que até agora eu não entendi se é para ele ou não. 

Oi,

Tenho um monte de perguntas para te fazer…, mas não sei se tenho esse direito. 

Eu sumi…, e ao contrário dos contos de fadas não deixei pistas, me perdi no meio de uma floresta densa sem deixar lembranças ou migalhas para serem seguidas, me senti um pouco estúpido, não sei se alguém vai entender, mas eu precisava sentir tudo aquilo que tinha dentro de mim, precisava sentir tudo que eu era e parar de mentir, eu me escondi em um lugar que só eu conhecia, meu frágil castelo de cartas que me mantinha aquecido mesmo quando estava desabando.

Queria esquecer todas as coisas que me fazem chorar, queria dizer que tá tudo bem, mas ainda não tá, eu não sei se você vai entender, mas espero que entenda, aqui dentro de mim ainda passa um filme, um filme que quase ninguém conseguiu assistir, eu sempre me considerei um roteiro ruim de assistir de perto, faço coisas sem sentido, coisas que quase ninguém entende, sou um bom vilão das minhas histórias. Me falam isso quando apareço com algum machucado novo, eu sou realmente um bom vilão…

Às vezes me pergunto se eu me tornei tudo que queria…, me desenhei e redesenhei tantas vezes que me perco em que me tornei…

Desculpa se eu não fui um bom herói, mas eu não sei como arrumar esse roteiro, não sei o que tirar e o que colocar no lugar, ainda tenho medo de tudo que eu sinto e do que posso fazer com isso, eu ainda não me acho essa pessoa legal para qual você escreve cartas, mas eu juro que estou tentando me encontrar, tentando ser um pouquinho mais parecido com aquela criança que você conheceu… 

Eu ando lendo, mesmo que em doses homeopáticas, o que escreveu para mim, eu sinto vontade de chorar, eu choro, e acho isso bom, você enxerga alguém que ainda não sei quem é, tenho que te agradecer por isso. 

Queria te contar que aqui o tempo passa devagar e eu não sinto saudade de como o tempo passava rápido, ando chorando de saudade e também de medo, isso me machuca mais do que cura, não sei se no fim de tudo eu vou conseguir voltar e salvar o dia, ou se alguém vai vir e me salvar… 

Talvez eu não precise ser salvo, mas eu ainda quero que alguém tente, ainda quero me sentir importante, desculpa pelo pensamento egoísta, mas eu espero que com o tempo me perdoe, espero que minhas palavras ainda possam ser importantes, e mesmo que eu não seja mais o herói na sua parede, espero que você ainda possa ter um tempo para me ouvir falar da vida, mesmo que de forma triste. 

Eu queria ter tido mais tempo, ter construído uma fortaleza mais forte do que as cartas de baralho que cercam esse castelo, mas não deu tempo…, eu sempre achei que dava, e por isso demorei para voltar.  Meses são anos, e eu aprendi isso enquanto desabava por tudo que perdi…

É estranho olhar para tudo que passou, ainda carrego todos os arranhões da minha última queda, não me lembro das noites mais divertidas, tudo parecia meio entorpecente, os cheiros eram ambíguos demais e de repente todo mundo pareceu gostar mais dessa minha versão, queria me tornar essa versão, eletrizante, apaixonante, fugaz…

Sempre fui bom em me remontar… Fugir era algo que eu era bom em fazer, as quedas não me machucavam, os medos não me assustavam, tudo parecia bem guardado aqui dentro. 

Ainda sinto a adrenalina desses dias, ainda sinto os toques, mesmo não me lembrando dos rostos, eu não sei explicar quando tudo começou a desabar, foi rápido, uma montanha russa em queda livre, sem freio, sem aviso, me senti frágil demais, pequeno, inseguro, quebrado, culpado, era como se tudo tivesse voltado novamente, só que com mais intensidade. Tudo que eu sempre evitei apareceu ali diante de mim. 

Meu peito apertava a cada palavra solta, os assuntos pareciam desinteressantes e tudo que vivi parecia uma lembrança distante do que eu não consegui viver, de repente tudo pareceu um erro maior do que um acerto, é estranho, era tudo que eu sempre quis, mas agora me faltavam palavras para entender o que eu havia me tornado… 

Queria fugir novamente, mas minhas pernas pareciam presas, e eu fui obrigado a assistir tudo que eu sonhei passar em um filme bem diante dos meus olhos, senti dúvidas, senti culpa. Não consegui fugir para nenhum outro lugar que não fosse aqui… 

Eu desejava desaparecer, assim como outras tantas vezes, então vim parar aqui, nesse lugar tão seguro e ainda assim tão frágil, me perguntei se o mundo era mais bonito do alto da torre de cartas, mesmo me achando incapaz de a escalar, sempre tive medo do que eu iria encontrar por lá, tive medo de gostar do silêncio, de desabar as cartas no meio do precipício e de gostar da queda. 

Meu coração ainda dói, parece que caí de lugares ainda mais altos, tenho dias bons e dias nem tão bons assim, a vida de todos pareceu andar tão bem sem mim, sinto medo de voltar e não me encaixar mais naquele lugar, eu ainda lembro dos risos e dos abraços, das palavras e dos afagos, mas tudo parece tão distante, que já não sei quanto tempo passou. É, o tempo passa realmente devagar aqui. 

Eu não sei se mudei, sei menos do que sabia sobre mim, eu ainda sinto vontade de me esconder, mas parece meio inevitável voltar, me olhar já não é algo tão assustador assim, já consigo me ouvir sem querer me esconder.

Os dias aqui tem cheiro de saudade, são quentes como um fim de tarde no Arpoador, às vezes são coloridos, barulhentos, mas outras tantas são cinzas, repetitivos, um loop enjoativo que me lembra de tudo que não volta mais. Nesses dias, a dor é mais forte e parece que nada vai fazer passar…, eu sei que vai passar, nesses dias eu não preciso de nada além de abraços quentes e silêncio. 

Eu voltei a escrever igual quando eu era criança, sabe, me sinto feliz com isso, não é algo bonito de se ler, mas ainda assim me sinto feliz… 

Me pergunto como o tempo anda por aí? se seu coração se acalmou ou se o tempo fez tudo ficar ainda pior?

Será que você sente o mesmo que eu senti?

Será que também já quis fugir no meio de uma tempestade? 

Será que já se afogou enquanto chorava lembrando de tudo que passou. Será que correu descalço, pisando em pedras, enquanto ouvia o coração gritar que deveria ficar mesmo que em migalhas?

Se você me fizer essas perguntas, não saberei responder, aqui tudo tá igual, mas também tá diferente, acho que aprendi a respirar com um pouco mais de calma, aprendi a ouvir meus gritos e a aceitar ajuda para secar minhas lágrimas. Ainda dói enquanto corro e por vezes parece que não tem ninguém que me entenda, às vezes tenho vontade de fugir para mais longe, mas não posso. 

Sentir é ruim para um caramba, dói, mas dói ainda mais não sentir nada. Continuo um filme bem ruim de assistir, mas agora ao menos eu ofereço pipoca para quem aceitar ficar, sei lá, pode parecer uma piada ruim, mas é quem eu sou e talvez eu não seja tão ruim assim.

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We were right till we weren’t


Tudo é transmitido o tempo todo: o amor, a angústia, a traição. Logo as feridas ficam expostas e exigem de si uma reação imediata, como se sua dor fosse plástica, moldável aos anseios de quem te assiste. 

Para todas as pessoas que atravessam o caminho de quem sofre com um término, fiquem, acolham e abracem, não julguem, nada termina ou começa naquele ponto final. 


Terminar é um verbo muito difícil de ser conjugado sózinho e mesmo com a casa tão cheia eu ainda me sinto sózinho.

Ainda escuto o som daquela voz, me dando desculpas para conter meu riso, ainda sinto o toque de quem limpa minhas lágrimas após me fazer chorar, ainda o sinto por perto mesmo estando longe. 

Antes do fim eu me questionava se eu deveria ou não desistir desse nó que éramos nós, mas tudo se apagava quando você aparecia, me trazendo flores, falando sobre como eu me sentia, me fazendo sentir, como se ninguém mais me entendesse. 

Talvez ninguém realmente entenda!

Eu pensava que era minha culpa, achava que você me entendia, que todos os deslizes eram causados por meu desencaixe. 

Tudo dentro de mim sempre doeu, você sabia disso, falava que tudo estava bem, que estaria sempre aqui, era uma mentira que eu precisava acreditar. 

Agora dói ainda mais.

Tudo que sempre foi meio bagunçado, agora parece pior

Fico revisitando cada palavra, cada gesto, cada ausência, não é que eu nunca soubesse, é só que era difícil aceitar.

Me sinto sozinho, mesmo com todos em minha volta.

Uma angústia sobe com os soluços, meu pranto me rasga por dentro, me engasgo, a garganta dói, o peito aperta, me sinto pequeno, sózinho, o medo aumenta, me culpo, me questiono:

Por que deixei isso acontecer?

Por que eu sou assim?

Por que é tão difícil esquecer?

Eu queria que me respondessem o que fiz de errado. Se eu fiz algo de errado. 

As conversas de repente passaram a ser sobre mim, não gosto de ser assim, porque é tudo que sempre tentei evitar transparecer. Todos parecem saber tudo sobre mim, quando nem eu sei. Talvez possam me dizer onde errei, o que tenho que fazer para parar de doer.

Me sinto frágil, talvez eu tenha nascido quebrado, ou talvez tenham me quebrado tanto que agora pareço ser incapaz de remendar meus cacos. Será que existe uma super cola para isso?

Não sei onde comecei a estilhaçar-me, mas olhar para todos esse caos é como não me reconhecer.

Me machuco enquanto tento caminhar sozinho. 

Não para de doer.

Eu sinto cada parte de quem eu sou fugir de mim, ficar pelo caminho.

Quero fugir, fugir de tudo, de todas as conversas, de todos os abraços, de todos os olhares…

Não quero ter que dizer coisas boas, eu não consigo, não há nada de bom para ver aqui.

Procurei minhas roupas e encontrei lembranças. 

Minhas memórias não eram só minhas, e por mais que todos digam que é só apagar, é impossível.

Eu queria dizer que tudo sempre foi bom e que por isso não me importo com as lembranças, mas é mentira.

Talvez a maior mentira tenha sido escrita por mim, eu aceitei, sempre aceito

Dizem que dentro de mim há muita intensidade, que não consigo controlar o que sinto, mas eu controlo, eu tento controlar, tudo fica aqui dentro, guardado, tenho medo que se cansem das minhas palavras.  

Tudo ainda tem aquele cheiro, aquele gosto e ainda sinto aquele toque e isso é como caminhar em um campo minado, parece que tudo que sempre segurei vai explodir a qualquer instante. Não acho que alguém seja capaz de desarmar essa bomba que se encontra no meu peito.

Não quero conversar, não quero falar sobre aquilo que todos já sabem ou ter que contar o que não sabem, não quero ter que sair do lugar seguro que criei para não me machucar mais.

Me sinto uma criança fugindo da tempestade escondida dentro do armário, não quer ter que abrir essa porta. 

Talvez isso seja só o reflexo do cansaço de quem se acostumou a sorrir em concordância, dizer sim mesmo querendo dizer não, não consigo esquecer e esse sempre foi o problema, eu deveria ter gritado quando tive chance. 

Eu prometo que vou tentar apagar tudo, que vou tentar sorrir, que vou tentar fingir estar bem, mas por enquanto eu não consigo, tudo parece desmoronar aqui dentro e é só isso que tenho a oferecer por enquanto. 

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Tempo rei

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, Pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Quando um animal morre em seu habitat, seu corpo se transforma em vida, se transformando em abrigo, comida e refúgio, nós somos animais e o fim nunca é realmente o fim. Para todos os que pensam qual o legado a ser deixado, para todos que precisam deixar-se ir para encontrar a paz.

Música…

Minha vida sempre foi uma música estranha, uma balada que embalava os meus sonhos mais improváveis, eu sonhava acordada e me perdia fácil entre os acordes, não existia como passar por mim sem se perder na melodia que embalava minha vida. Mas as vezes me canso, a música com o tempo se tornou nublada, abafada e desconexa, ainda me perco entre os acordes, mas agora tudo é uma melodia melancólica e abafada…

As tempestades se tornaram frequentes, embalavam meus sonhos e tornavam o amanhã improvável, as melodias antes tão agitadas agora eram alcoólicas, nubladas, um solo de guitarra no meio do silêncio.  Tudo se tornou turbulento, uma despedida entre sorrisos tristes e suspiros cansados. 

Se tudo passa, por qual motivo ainda permaneço aqui, por qual motivo ainda não passou? Cada olhar era uma despedida incansável que eu não queria, mas eu precisava dançar mesmo que eu não quisesse, eles precisavam disso mais do que eu, eu precisava de outra música, outro tom, precisava dançar até cansar todas as músicas que ainda tinham dentro daquela pequena jukebox. 

Retirei meus sapatos, senti a areia da praia, dancei uma música que só eu ouvia, uma melodia inexistente e até mesmo desacreditada entre todos os mortais, eu gritei, um grito miserável, solitário, agudo, era assim que eu me sentia, mesmo aqui, mesmo agora.

Eu atravessei tudo que podia, mergulhei quando insistiam que eu deveria permanecer segura na terra, tive medo de me perder, me perdi, me encontrei, conheci tudo que queria 

Talvez tenha chegado a hora de iniciar uma nova canção, de dançar um novo ritmo, de me despedir da forma certa e deixar as lágrimas rolarem sem as interromper no meio do caminho. 

Talvez agora seja tarde demais para passar, agora eu já não quero que passe, já não quero que vá, eu só quero estar, viver e sentir, não importa por quanto tempo, eu quero deixar uma marca mesmo que não seja o plano inicial, tudo que quero é um tempo maior, mesmo que por um segundo.

O tempo a muito se tornou inconstante, o medo é praticamente solúvel, dissolve os sonhos, o orgulho, o amor, mesmo com tantos abraços, mesmo com todo o carinho, mesmo sentindo tudo que sinto, o amor também é solúvel e por ele eu tento permanecer, porque eu quero sentir mais um pouco de tudo isso. 

Ainda estou aqui, estou na gota de suor, nas lágrimas de despedida, nas palavras de amor, nas paredes desenhadas, no pôr do sol, eu estive, estou, estarei… Não sei por quanto tempo poderei conjugar esse sentimento, mas eu sinto que eu quero existir no agora e se for para ir que seja da melhor forma, eu quero sentir e quero que sintam, quero que me sintam.

Não sinto mais os abraços, o cheiro, o gosto… tudo se perdeu, menos meu eu, ainda estou aqui, sentindo a inexistência de não poder passar, eu queria deixar ir, me deixar ir, ao mesmo tempo que queria apenas sentir. 

O toque antes ágil agora é demorado, guardando a saudade do que não volta. 

De repente sinto-me como água, sinto frio, sinto sede, sinto-me afogando em sentimentos indesejados, em sentimentos de despedida, uma despedida indolor, quente, calma. O relógio não voltou, os ponteiros pararam, todas as despedidas pareciam se fazer presente naquele instante e então tudo passou por mim: Passou o amor, o cheiro, os abraços, o medo e finalmente eu passei.

Amor, cartas, Crônica, Opinião

Heaven’s not ready for you

Para todos que precisam deixar ir. 

Fiz você me prometer que ficaria, que iria tentar, que ia lutar…

Você tentou, eu sei que tentou, mas talvez você não devesse ter prometido ou eu não devesse ter cobrado essa promessa. 

Ficar nem sempre é bom, às vezes quando mais ficamos mais saímos machucados. Lembro de como você sorria sempre que sonhava com algo novo, às vezes acho que seus sonhos não existem mais, sinto saudade do seu riso, do seu olhar tão peculiar sobre as coisas do mundo.

Sinto saudade de quando você queria ficar, de quando não se apegava a promessas. 

Eu quero que você tente, quero que fique, não por mim mas por você. 

Eu não quero carregar a culpa da sua dor. 

Talvez eu devesse ter te deixado partir, ter te deixado voar.

Talvez eu seja egoísta e não saiba viver sem você, mas te ter aqui sempre foi tão confortável, que não consigo me imaginar longe de você. 

Acho que você não pensa mais nisso…

Eu deveria estar feliz por você tentar, mas tudo que sinto é uma angústia grande, um silêncio que nasce nos seus olhos e termina no meu coração. 

Te ter aqui agora é como permanecer no vazio, um lugar frio e escuro, logo você que sempre foi tão quente, que distribuía um sol em cada sorriso.

Vejo seus pedaços caindo pelo meio do caminho, e tudo que posso fazer é juntar o que puder e te entregar no fim dessa jornada.

Vejo seus passos se perdendo, e tudo que consigo fazer é correr até você e segurar na sua mão e te guiar por um caminho que acredito ser melhor.

Vejo sua luz se apagando e tudo que tenho a oferecer é uma vela acesa e uma companhia no escuro. 

Não sei se isso basta, se algo que fiz basta para você permanecer.

Eu quero gritar, eu sei que você também quer…

Eu quero ficar, eu vou ficar e quero que você fique, mas fique bem. 

Quero ser seu sol nas manhãs de tempestade.

Não aguento te ver assim, e eu sei que isso também é egoísmo. 

Eu ainda te peço para lutar e mesmo que você não tenha mais força, eu sei que ainda posso ajudar. 

Eu ainda te peço para ficar, quando deveria te deixar partir. 

Eu também te fiz uma promessa, que permaneceria ao seu lado mesmo que você me expulsasse. 

Eu ficaria mesmo se o seu silêncio me machucasse, mesmo se o seu sol se apagasse. 

Eu te fiz tantas promessas, bem mais do que você a mim, eu só queria que tudo terminasse bem, queria ouvir sua voz gritar por uma desventura, queria me perder na sua confusão, eu queria tanto quanto ainda quero. 

Você não pode ir, não agora, não sem sorrir, não sem se lembrar o quão bom são os abraços de fim de tarde. Você não pode ir sem se despedir de todos os seus sonhos, de todos os seus medos. 

Te deixar ir é a pior coisa que posso fazer por mim. 

Abuso, Ansiedade, cartas, Cronicas 24/25, depressão, Minhas Crônicas, Violência

Believe me

Escrevo para todos que guardam a dor de ter seus corpos violados, que carregam uma culpa que não tem, que se desesperam com lembranças involuntárias. Desejo que que todos os silêncios possam ser ouvidos sem julgamentos.

Eu me lembro perfeitamente do dia que aconteceu e isso ainda faz meu estômago revirar, minhas pernas ainda doem e tudo a minha volta parece girar mais e mais rápido. Era uma quarta feira de cinzas, as ruas estavam lotadas, as serpentinas arrebentadas se espalhavam no chão, os cheiros se misturavam, bebida, urina, suor, era indecifrável e inebriante, meus olhos piscavam e minha cabeça parecia não pender no lugar, pequenos e involuntários espasmos se espalharam pelo meu corpo, enquanto tudo dentro de mim parecia vir para fora. 

A esperança, o amor, o afeto, tudo parecia uma grande massa cinza que eu não conseguia conter que me engasgava e tirava o meu ar.

Não consegui compreender as mãos que me tocavam tentando me levantar, minhas mãos tentaram de forma desesperada afastar aqueles intrusos, tentei recolher meu corpo e me proteger, mas era impossível, tudo queimava, os toques, as palavras, meu corpo. 

“CHAMEM AJUDA, UMA AMBULÂNCIA…” – alguém gritou, eu não conseguia dizer nada, os barulhos se intensificaram e isso fazia minha cabeça girar ainda mais. Quando dei por mim, já estavam me deitando em uma maca fria com um fino colchão, a coberta não saciava meu frio e nem escondia meu medo, meu corpo ainda tremia a cada olhar invasivo e toque indesejado. 

Falhei quando tentei me reerguer, não queria ajuda, tranquei minhas portas e janelas, fechei meus olhos, me cobri para o mundo, não me importo deles saberem o que aconteceu, mas me importo deles me culparem, os olhares se repetem dia após dia, e é como se tudo se repetisse, passo horas sentindo aqueles toques, sentindo aqueles cheiros, vomitando aquela dor, todo dia é uma quarta feira de cinzas diferente. 

Falhei em achar que ficar só me deixaria bem, o silêncio me lembra incansavelmente de todas as minhas faltas, de tudo que poderia ter feito e não fiz, o silêncio intensifica minha culpa e eu não consigo segurar os soluços advindos dela. 

Eu tento gritar, mas sei que gritar não adianta mais, ninguém vai ouvir ou entender, ninguém vai ficar. 

No meu mundo não existe estabilidade, tudo é instável, mesmo que eu tente esquecer, mesmo que as pessoas não saibam, sempre terá algo para reafirmar aquela quarta feira, aquele neblina no meio da purpurina, o caos pigmentado que pintava minha roupa naquele dia, fez com que cada cor carregasse um pedaço da dor que senti, um pedaço de mim que se tornou apenas uma mancha no passado. 

E eu que tentei de tantas formas me transformar em muitos, agora estava me reduzindo a nada, a um pedaço de lamentação que não tinha onde esconder. Sinto falta do silêncio carregado de felicidade que era ter alguém ao meu lado, sinto falta dos pecados que cometia disfarçados de amor, sinto falta dos sorrisos que envolviam as pequenas histórias de fim de tarde. Sinto falta…

Ansiedade, depressão, Minhas Crônicas

Sangrando

Dedico esse texto aos corações que se sentem desalinhados, que se sentem usados e observados, que deixam cair pelo caminho tudo que é desimportante e que não conseguem olhar para o passado sem se machucar.

Constantemente sangro por coisas que não entendo, eu quero gritar, mas minha voz não saí, minhas mãos tremem, meu coração dispara, o choro se entala na minha garganta e dificulta minha respiração.

Me sinto em uma rua deserta, com luzes apagadas de forma permanente, não há barulho, não há esperança, sinto um silêncio muito maior dentro de mim do que do lado de fora. 

Me sinto viciado nessa sensação, não que eu goste, mas não sei viver de outra forma, não sei não me proteger do mundo, é como se a todo instante alguém pudesse ascender as luzes e iluminar meus defeitos, me interrogando, me questionando, me apontando. 

Tudo dentro de mim parece desencaixado eu respondo sim, mesmo quando quero dizer não, eu faço graça, engulo meu choro e sorrio, propositalmente é mais fácil fingir ser quem eu não sou, do que deixar perceberem o quão perdido estou. 

Tropeço nos meus pés, sinto um incômodo no joelho, o choro por vezes escapa, procuro por abraços mas não há ninguém, parece que fugi durante tanto tempo que agora não há ninguém.

O escuro tão incômodo e silencioso me ajuda a sobreviver e a me camuflar, ajuda a esconder toda a dor que eu finjo não sentir, enquanto respondo de forma atravessada todas as perguntas incômodas…

Não sei se iriam entender toda a confusão que me tornei, não sei nada sobre mim, não sei o que quero e tenho medo do desconhecido, mas eu queria não estar sozinho, queria confiar nas minhas certezas. 

Não sei viver sem essa dor, não sei amar sem me machucar.

Talvez a culpa seja minha, talvez a culpa seja do outro, só sei que viver é como morrer um pouquinho a cada instante, e ninguém parece se importar com o quanto eu morro, com o quanto de mim se perde pelo meio do caminho. 

Costumo sonhar acordado enquanto tropeço em uma realidade que parece não me pertencer.

Queria que enxergassem meu pranto, ouvissem meu silêncio e alimentassem meus sonhos, mais do que os meus medos. É, eu tenho muitos medos, tenho medo de me perder e ninguém me encontrar, tenho medo de não acordar, tenho medo que não me escutem e que tudo que faço se torne indiferente. 

Ainda não me acham quebrado, me olham e enxergam uma peça perfeita, completamente útil e disponível, às vezes eu queria que não me enxergassem, talvez eu finja bem, porque eu não me sinto assim.

Me sinto desalinhado com o mundo, mas se precisam de mim, eles me usam e alinham conforme suas necessidades, tenho medo de não ser mais útil e de me tornar descartável. 

Eu não enxergo nada além dos meus pés, o ar é rarefeito, cruel, machuca meu peito, quanto mais eu penso e tento descobrir o que me falta, mas me falta ar. 

Queria não ter encontrado tantas portas fechadas. Queria tentar buscar por ajuda da forma correta, de forma que me entendessem. 

Eu deixei tudo desarrumado para trás, fugi do que me dava medo e abandonei tudo que achei impossível, e ainda assim, tudo permaneceu ali.

Estava tudo jogado no tempo, uma bagunça repleta de entulhos, eu queria ter forças para arrumar sozinho, só que eu não sabia por onde começar, eram caixas e caixas, algumas pesadas e outras leves que eu tentei entender como pude deixar para trás. 

Me machuquei enquanto tentava desentulhar tudo aquilo, quis desistir, não queria estar sozinho. O choro que saiu era diferente, parecia descomprimir tudo que eu sentia e nunca tinha entendido. A dor era diferente, o medo parecia ter sentido, e tudo era barulhento demais para ser despercebido.