Presta atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
(Angenor De Oliveira/Cartola)
Escrevo aos corações desalinhados, que se esquecem que o mundo é um moinho, que escrevem poesia enquanto escondem o pranto. Ainda é cedo amor, hoje pode ser quarta-feira de cinzas, mas amanhã é quinta e é sempre um bom dia para recomeçar.
Já era tarde, a quarta-feira de cinzas havia surgido, o sol se escondia, a purpurina se espalhava pelo chão misturando-se à plumas e paetês, as fantasias pareciam esquecidas pelas esquinas e ao fundo ainda ouvia-se bem o som da cuíca e do pandeiro, resistindo, ainda era carnaval.
As crianças, nem tão crianças assim, corriam capturando o tempo, como se cada instante fosse único, bolhas de sabão surgiam no céu compondo uma frágil obra de arte, era melancólico e ainda assim, lindo. Eles se misturavam, riam, se amavam livremente como se o tempo fosse o mero acaso e a quinta não existisse no calendário.
A chuva dava sinais de que caíria para lavar não só as ruas, mas também para compor uma dança regada de incertezas, me abriguei em silêncio, com a serenidade e a experiência de quem já passou por outras tantas quartas-feiras.
O copo gelado, começava a esquentar, sussurrei lentamente a letra de um samba que havia esquecido conhecer, meu corpo parecia ter desalinhado àquela atmosfera, minha mão nervosa buscava um ritmo para seguir, um riso de agonia surgiu em meus lábios, um riso de saudade, que destoava do dos demais, meus sentimentos se misturavam, eu me pergunto quando tudo parou de fazer sentido?
Quando passei a me preocupar com a chuva? Eu já estive ali, não me importava com a lama, ou com o rastro de cores que a chuva me deixava, mas agora tudo parecia tão diferente.
Eu até tentei seguir, com o bloco que passava, mas não consegui, tudo passou muito rápido e quando consegui me movimentar o ritmo já era outro. Todos passavam por mim, o mundo girava, o toque do tambor se transformava, as fantasias mudavam, se inundavam de cores que eu não reconhecia, as palavras desconexas se transformavam em lembranças que eu desconhecia.
As primeiras gotas de chuva caíam se misturando às minhas lágrimas, e então eu desisti de seguir, fiquei.
As perguntas começaram a entalar na minha garganta.
Eu queria estar ali, mas não estava.
De repente, deixei de ser protagonista, para me transformar em telespectadora, um suspiro apertado escapou do meu peito, meus olhos fecharam, meu peito ardeu, já estive ali, meu riso já ecoou por aquelas ruas, meus passos tortos me conduziam naquele ritmo, um ritmo próprio, que agora fazia meu peito arder. O relógio não voltava, já era quarta-feira, e mesmo que terça tenha sido ontem, ainda assim, tudo parece bem distante.
Meus olhos embaçaram e mais uma vez um riso escapou por meus lábios, quis me levantar e me juntar a eles, mas algo dentro de mim parecia desencaixado, um nó estranho entalava minhas palavras e parecia me tirar a órbita.
O riso, de felicidade, parecia ser um vírus contagioso entre aqueles que ali estavam, o aroma dos corpos em meio a danças desordenadas faziam a composição daquele cenário algo improvável, mas ainda assim, admirável. E eu, que durante tanto tempo me misturei à aquela poeira, parecia uma peça perdida de um jogo de tabuleiro, não havia em mim ritmo para compor aquela cena, mesmo que minha vestimenta fosse tão colorida quanto a dos demais, senti-me um desencaixe.
Quando foi que tudo mudou?
Quando o silêncio começou a transbordar por mim?
Senti-me o Pierrot, a fantasia parecia não ser minha, os sonhos, o riso, nada me pareceu real e reconhecível, as palavras morriam antes de chegar a boca, eu não as deixava sair.
Me senti sozinha, mesmo estando acompanhada, ninguém parecia compreender tudo que acontecia naquele dia, não conseguia encontrar minhas respostas e nem sei se as queria realmente, tudo aqui dentro parecia um livro de retalhos, retalhos coloridos, repletos de aromas e gostos diferentes.
E então eu me lembrei de você.
Doeu ainda mais…
Quando tuas palavras pararam de inundar meu corpo?
Quando deixamos de dançar em sintonia?
Eu ainda lembro de outras quartas-feiras, tão cinzas quanto essa, mas que terminaram de forma tão diferente, lembro de como nossos corpos se misturavam nos lençóis, de como brincávamos de colorir nossos sonhos, de como as noites se tornavam curtas para o enredo que construímos juntos.
Você tinha uma forma própria de sussurrar uma música incompreensível por meu corpo, uma música que só nós dois parecíamos saber dançar, mesmo que de forma improvável.
Mesmo que o tempo nem sempre fosse solar, ainda assim sabíamos como nos abrigar das tempestades, éramos bons em matemática, juntamos tantas vezes nossas meias palavras, subtraímos nossos medos, multiplicamos nossos sonhos, dividimos nossas vontades, e ainda assim, hoje, percebo que de alguma forma erramos nossas contas. Talvez tenha sido uma fração de segundos que não soubemos calcular da forma correta, ou talvez tenha sido um verbo mal conjugado. Ainda assim, erramos e eu não sei como desfazer esse erro, o que subtrair, ou multiplicar.
O que restou de nós dois no final?
O que vai acontecer depois dessa quarta-feira?
Eu não tenho respostas para essas perguntas, não sei se um dia quero as ter, também não sei como cheguei e nem os motivos de ainda estar aqui, meus dedos parecem redescobrir o copo antes esquecido sobre a mesa, a bebida já quente, desce amarga, me lembrando que amanhã é quinta e eu ainda não sei como continuar.
Os nossos carnavais costumavam passar devagar.
Sinto saudades do seu gosto, do seu corpo, do seu tempo tão íntimo, tão calmo, tão único, que me completava.
Eu não vi seu bloco passar, perdi seu sorriso, perdi tuas palavras, me perdi de você e talvez você tenha me perdido.
Tentei te procurar entre tantas lembranças, mas você parecia não tá mais lá, me pergunto quando se tornou um desconhecido, quando deixamos de dançar a mesma música, quando nosso olhar se perdeu, quando nossa fantasia preferida se tornou o silêncio.
Restos de purpurina se espalhavam entre nós, era como uma metáfora triste da nossa vida, eram fragmentos do que fomos, do que vivemos, que mesmo não voltando, são difíceis de se apagar.
“Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar”