Amor, Carnaval, cartas, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, silêncio, término

Rir pra não chorar…

Presta atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

(Angenor De Oliveira/Cartola)

Escrevo aos corações desalinhados, que se esquecem que o mundo é um moinho, que escrevem poesia enquanto escondem o pranto. Ainda é cedo amor, hoje pode ser quarta-feira de cinzas, mas amanhã é quinta e é sempre um bom dia para recomeçar.


Já era tarde, a quarta-feira de cinzas havia surgido, o sol se escondia, a purpurina se espalhava pelo chão misturando-se à plumas e paetês, as fantasias pareciam esquecidas pelas esquinas e ao fundo ainda ouvia-se bem o som da cuíca e do pandeiro, resistindo, ainda era carnaval. 

As crianças, nem tão crianças assim, corriam capturando o tempo, como se cada instante fosse único, bolhas de sabão surgiam no céu compondo uma frágil obra de arte, era melancólico e ainda assim, lindo. Eles se misturavam, riam, se amavam livremente como se o tempo fosse o mero acaso e a quinta não existisse no calendário.

A chuva dava sinais de que caíria para lavar não só as ruas, mas também para compor uma dança regada de incertezas, me abriguei em silêncio, com a serenidade e a experiência de quem já passou por outras tantas quartas-feiras. 

O copo gelado, começava a esquentar, sussurrei lentamente a letra de um samba que havia esquecido conhecer, meu corpo parecia ter desalinhado àquela atmosfera, minha mão nervosa buscava um ritmo para seguir,  um riso de agonia surgiu em meus lábios, um riso de saudade, que destoava do dos demais, meus sentimentos se misturavam, eu me pergunto quando tudo parou de fazer sentido?

Quando passei a me preocupar com a chuva? Eu já estive ali, não me importava com a lama, ou com o rastro de cores que a chuva me deixava, mas agora tudo parecia tão diferente. 

Eu até tentei seguir, com o bloco que passava, mas não consegui, tudo passou muito rápido e quando consegui me movimentar o ritmo já era outro. Todos passavam por mim, o mundo girava, o toque do tambor se transformava, as fantasias mudavam, se inundavam de cores que eu não reconhecia, as palavras desconexas se transformavam em lembranças que eu desconhecia. 

As primeiras gotas de chuva caíam se misturando às minhas lágrimas, e então eu desisti de seguir, fiquei.

As perguntas começaram a entalar na minha garganta. 

Eu queria estar ali, mas não estava. 

De repente, deixei de ser protagonista, para me transformar em telespectadora, um suspiro apertado escapou do meu peito, meus olhos fecharam, meu peito ardeu,  já estive ali, meu riso já ecoou por aquelas ruas, meus passos tortos me conduziam naquele ritmo, um ritmo próprio, que agora fazia meu peito arder. O relógio não voltava, já era quarta-feira, e mesmo que terça tenha sido ontem, ainda assim, tudo parece bem distante. 

Meus olhos embaçaram e mais uma vez um riso escapou por meus lábios, quis me levantar e me juntar a eles, mas algo dentro de mim parecia desencaixado, um nó estranho entalava minhas palavras e parecia me tirar a órbita. 

O riso, de felicidade, parecia ser um vírus contagioso entre aqueles que ali estavam, o aroma dos corpos em meio a danças desordenadas faziam a composição daquele cenário algo improvável, mas ainda assim, admirável. E eu, que durante tanto tempo me misturei à aquela poeira, parecia uma peça perdida de um jogo de tabuleiro, não havia em mim ritmo para compor aquela cena, mesmo que minha vestimenta fosse tão colorida quanto a dos demais, senti-me um desencaixe.

Quando foi que tudo mudou?

Quando o silêncio começou a transbordar por mim? 

Senti-me o Pierrot, a fantasia parecia não ser minha, os sonhos, o riso, nada me pareceu real e reconhecível, as palavras morriam antes de chegar a boca, eu não as deixava sair. 

Me senti sozinha, mesmo estando acompanhada, ninguém parecia compreender tudo que acontecia naquele dia, não conseguia encontrar minhas respostas e nem sei se as queria realmente, tudo aqui dentro parecia um livro de retalhos, retalhos coloridos, repletos de aromas e gostos diferentes. 

E então eu me lembrei de você. 

Doeu ainda mais…

Quando tuas palavras pararam de inundar meu corpo?

Quando deixamos de dançar em sintonia? 

Eu ainda lembro de outras quartas-feiras, tão cinzas quanto essa, mas que terminaram de forma tão diferente, lembro de como nossos corpos se misturavam nos lençóis, de como brincávamos de colorir nossos sonhos, de como as noites se tornavam curtas para o enredo que construímos juntos. 

Você tinha uma forma própria de sussurrar uma música incompreensível por meu corpo, uma música que só nós dois parecíamos saber dançar, mesmo que de forma improvável.

Mesmo que o tempo nem sempre fosse solar, ainda assim sabíamos como nos abrigar das tempestades, éramos bons em matemática, juntamos tantas vezes nossas meias palavras, subtraímos nossos medos, multiplicamos nossos sonhos, dividimos nossas vontades, e ainda assim, hoje, percebo que de alguma forma erramos nossas contas. Talvez tenha sido uma fração de segundos que não soubemos calcular da forma correta, ou talvez tenha sido um verbo mal conjugado. Ainda assim, erramos e eu não sei como desfazer esse erro, o que subtrair, ou multiplicar. 

O que restou de nós dois no final? 

O que vai acontecer depois dessa quarta-feira?

Eu não tenho respostas para essas perguntas, não sei se um dia quero as ter, também não sei como cheguei e nem os motivos de ainda estar aqui, meus dedos parecem redescobrir o copo antes esquecido sobre a mesa, a bebida já quente, desce amarga, me lembrando que amanhã é quinta e eu ainda não sei como continuar. 

Os nossos carnavais costumavam passar devagar. 

Sinto saudades do seu gosto, do seu corpo, do seu tempo tão íntimo, tão calmo, tão único, que me completava. 

Eu não vi seu bloco passar, perdi seu sorriso, perdi tuas palavras, me perdi de você e talvez você tenha me perdido. 

Tentei te procurar entre tantas lembranças, mas você parecia não tá mais lá, me pergunto quando se tornou um desconhecido, quando deixamos de dançar a mesma música, quando nosso olhar se perdeu, quando nossa fantasia preferida se tornou o silêncio. 

Restos de purpurina se espalhavam entre nós, era como uma metáfora triste da nossa vida, eram fragmentos do que fomos, do que vivemos, que mesmo não voltando, são difíceis de se apagar.

“Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar”

Amor, Cores, Crônica, Minhas Crônicas, Sem categoria

Pena & Tinta: Entre corpos e purpurina

carnavalEm meio ao confete e a serpentina, ela retocava o batom verde neon na mesa do bar enquanto esperava sua companhia, não acreditava que estava trabalhando no primeiro dia de carnaval, levou mais uma vez a garrafa de água com gás aos lábios enquanto o procurava em meio a toda aquela purpurina, piscou mais de algumas vezes quando viu a camisa colorida e a maquiagem extravagante marcando o rosto, ele estava ali com aquele sorriso sorrateiro puxando a cadeira do bar pois o escritório estava fechado, arqueou a sobrancelha e mostrou as anotações resolveu esquecer a fantasia nada discreta e indecifrável que ele trajava, terminaram a conversa falando de política e do lixo acumulado na cidade, era sempre assim, mas dessa vez era diferente, ela se despediu dele e pediu ajuda para colocar a máscara no rosto, errou o local do beijo, se devoraram ali, ninguém se importou, todos estavam fazendo a mesma coisa.

Ela olhou a hora no relógio dele enquanto tomava o último gole d’agua, ele roubou um beijo novamente enquanto pegava a garrafa e jogava em uma lixeira qualquer, mal perceberam quando já subiam a rua em direção ao apartamento dela, girou a chave rapidamente, fechou a porta e se viu prensada ali, fechou os olhos, ainda conseguia se lembrar da última vez, retirou os botões apressadamente das casas, riu percebendo o péssimo gosto dele, jogou a camisa longe enquanto o puxava pelos cabelos e o mordia, detestou usar um dos seus batons que não eram alta durabilidade, podia perceber as pequenas marcas deixadas em verde neon no corpo alheio.

O arrastou até o quarto e quando percebeu ele havia deixado aquela bermuda por algum canto de sua sala sem ela perceber, sentiu quando desceu o fecho do vestido quase em câmera lenta os olhos dele a devorando vendo o tecido negro cair, o pulou enquanto se livrava do salto e abria o fecho do sutiã, o soltou por qualquer canto, enquanto ele mergulhava entre seus modestos seios, riu vendo que a maquiagem dele era deixada por seu corpo, uma trilha colorida que pintava seu corpo, sentiu a mordida e mordeu seus próprios lábios, abaixou a mão na cueca branca e apertou, o apertou e o sentiu ali, desceu o elástico quase na mesma velocidade em que ela sentia os beijos descendo no seu corpo, ele a ajudou na árdua tarefa de se livrar daquela pequena peça, se viu livre quando ela o apertou mais, ainda estava de calcinha, mas rapidamente não estava mais, sentiu quando ele desenhou com suas mãos seu corpo, enquanto fazia leves cócegas em sua perna esquerda.

Colou seus lábios no dele e sentiu a mão subindo por suas pernas, retirou a máscara e encarou mais uma vez aqueles olhos tão negros, o sorriso de lado que a devorava sem ao menos tocar, sentiu o hálito de hortelã se aproximando, se deitou, ele a acompanhou naquela dança nada planejada, mais um beijo, as mãos já passeavam por seu corpo, sentiu os lábios mergulhando em seu ventre, arqueou o corpo, respirou profundamente quando sentiu um beijo profundo e molhado lhe descendo a virilha, agarrou o emaranhado negro enquanto sorria e esperava impacientemente ele mergulhar furtivamente dentro de si, com sua língua, com seus lábios, com tamanha intimidade, respirou fundo enquanto inalava o cheiro de ambos, fechou os olhos enquanto cravava as curtas unhas no lençóis brancos, mordeu os lábios, e sentiu quando ele a sugou como se sugasse suas forças, sentiu a língua subindo e deixando um rastro delicadamente por cada parte do seu corpo.

Ela o puxou, o puxou com urgência e pelos cabelos, o puxou para selar seus lábios e o devorar sentindo seu próprio gosto, viu o riso frouxo que tanto amava em meio ao colorido da purpurina que enfeitava seus corpos, bagunçou com carinho aqueles fios negros enquanto suas pernas dançavam pelo corpo dele, o pé com as unhas pela metade brincava ali com os pelos de seu abdome, ela sorriu enquanto o fazia deitar para que ela ficasse por cima, talvez aquela natureza tão aquariana não ligasse para o fato de estarem uma hora atrasados para o tal bloco de carnaval, quem liga? Não era da natureza dela ser obrigada a cumprir compromissos, sorriu furtivamente pronta a devora-lo, mordeu os lábios já marcados por seus dentes e pelo resto do batom neon que usava, respirou profundamente ali no pescoço dele, o lambeu arrancando risadas, mergulhou-se ali, marcando-o, suspirou em seus ouvidos e cruzou seu olhar com o dele, não o beijou, não, não ainda, o lambeu em meio  a uma arqueada de sobrancelha e um piscar de olhos, desceu calmamente pelo pescoço, mais um cheiro, dessa vez do lado esquerdo suas mãos se apoiaram na cama enquanto ela se inclinava no peito dele.

Ele a olhava curioso enquanto ela dissipava leves arranhões por seu corpo, retraiu-se, sentiu peito descer no momento em que encostou seus lábios gélidos nos dela, ela o beijou ali, enquanto as mãos brincavam com os pelos do corpo dele, os enrolou nos dedos enquanto devorava o mamilo, mal acreditou quando ela o mordeu bem ali, a olhou incrédulo enquanto a mão descia, ela o mordeu mais uma vez enquanto o segurava, ele arfou, quase perdeu o ar, havia gostado, era diferente, sorriu quando abriu os olhos e a viu descendo por seu corpo nu, deixando marcas vermelhas pinceladas de pigmentosos brilhantes, trilhou até seu pênis já ereto, ela o beijou, enquanto o envolvia com as mãos, o lambeu, ela fez tudo isso o encarando, soltou as mãos enquanto o sugava, o estimulou enquanto apertou a farta carne de sua bunda, doce virilidade masculina, o arranhou ali entre a costela, ele perdia as contas de quantas vezes fechou os olhos se controlando para prender suas mãos no lugar, ele sabia o quanto ela detestava quando puxava seus cabelos, mais era quase inevitável, principalmente quando ele sentia-se tão cheio, iria explodir e tentou alerta-la, ela não ligou, aconteceu ali, e quando percebeu ela o beijava de maneira tão intensa enquanto compartilhavam o seu gosto.

Ela sorriu sorrateiramente enquanto encaminhava seu corpo para o canto da cama e abria a gaveta, ele, admiravelmente puxava a outra mão sugando os dedos dela, apresou-se em pegar a embalagem roxa e o entregou, nem ligou para o resto que caia no chão e para o riso que ele deu quando viu o ocorrido, ela apenas esperou que ele rapidamente fizesse o que tinha que fazer, ela gostava dele, gostava de verdade, gostava quando seus dedos se perdiam naquele emaranhado negro que eram aqueles cabelos, gostava tanto quando aquelas mãos inquietas se perdiam entre suas pernas e a fazia suspirar, mordeu os lábios quando viu aquele sorriso perdido a encarando ela engatinhou felinamente até ele e o pegou pelas mãos, o amava mais do que amava as sextas feiras, o amava mais do que amava os dias anteriores aos feriados, se encaixaram perfeitamente, eles eram assim se encaixavam bem, mesmo quando não combinavam em nada.

Reparou mais uma vez que ela também estava com purpurina e em meio ao balançar dos corpos, reparou as mãos perdidas em sua cintura, os olhos fechados, os apertos, ela o abraçou desejando que todos os dias fossem carnavais, sentiu quando os braços dele a enlaçaram também, caíram juntos na cama, se encararam quase que ao mesmo tempo que encararam o relógio, o bloco de  rua tinha se dissipado, tinham certeza que os celulares estavam entulhados de mensagens, o tempo pareceu parar em meio a um beijo calmo, se perguntaram silenciosamente o que aconteceria depois daquele dia, o que restaria daquele dia, tudo seria esquecido mais uma vez no fim da quarta-feira de cinzas?

Sentaram-se na cama e riram de suas aparências, estavam ensopados, completamente bagunçados, ainda ouviam alguma marchinha de carnaval passando na rua, ela se encostou nele pensando em qual o motivo de eles nunca darem certo, ele era de virgem ela aquariana, os ascendentes eram acidentes astrais, nenhuma das luas se cruzava, não tinham nada em comum e se dependesse dos astros eles nem ao menos trabalhariam juntos, ela riu mais uma vez enquanto ele se arrastava até o banheiro.

_Você vem? – ela não soube o que responder, ficou parada enquanto ele catava as roupas no chão e adentrava o banheiro.

Respirou fundo, estava com fome, queria mais, talvez fazer do resto do ano um grande carnaval não fosse tão ruim, mal percebeu quando seus passos tortos caminharam até o banheiro, abriu a porta de vidro e o abraçou por trás a água fria inundou ambos os corpos, enquanto eles respiravam aceleradamente a procura de uma resposta.

Ele a amava mais do que sorvete de chocolate, ele amava aquele riso engasgado em suas costas, amava a admirar enquanto ela buscava soluções inteligentes para mudar a órbita do mundo, para o tirar de órbita, ele se sentia perdido sempre que estava perto dela, já havia jurado tantas vezes se afastar, mal percebeu quando ela o apertou mais e soluçou, ele raramente a via chorando, se virou rapidamente se soltando dela, e levantou seu rosto, beijou seus olhos como tantas vezes ela fazia com si.

_Eu não quero mais… – o peito dele parou e ele concordou enquanto fechava o registro, quando se preparou para sair daquele pequeno espaço ela o segurou. _Eu não quero que seja passageiro, quero que não acabe na quarta-feira de cinzas.

Ele mal acreditou quando ouviu aquelas palavras tão doces saindo da boca daquela que jurava não se amarrar a ninguém.

_Aceita fazer do meu ano um eterno carnaval?

_________________________________________________________________

Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) em cima de temas predeterminados mensalmente. Um dos temas de Fevereiro é Amor de Carnaval.

 Tem um blog e quer participar das próximas edições do Pena & Tinta? A gente está te esperando AQUI.