Ansiedade, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, silêncio

A vida me fez assim

Escrevo aos que não se reconhecem e tentam se (RE)encontrar. Aos que desistem por não se acharem fortes para continuar. Aos que se permitem ser machucados apenas para manter uma ordem. Que se possa cantar em um amanhã não tão distante: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia”

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar

Apesar de você / Francisco Buarque De Hollanda


Quando fecho os olhos eu sinto medo, medo de nunca mais sair daqui, medo de tudo que há aqui dentro me consumir. 

Não sei se realmente preciso regular o que sinto, acertar meu humor, polir minhas palavras, desaprender a ser quem sou. Sinto-me constantemente em dúvida sobre isso, quem sou? Quais as minhas vontades, o que eu posso e o que não posso fazer?

A escuridão que habita em mim, é quase um loop que não sei como desfazer, apenas aceito, prefiro assim, sem conflito, sem alteração, prefiro que não haja meio termo.

Prefiro lidar com o meu reflexo no espelho sujo, do que deixar que os outros vejam.

Posso não me reconhecer, mas tenho medo do que vão achar quando tentarem me entender.

Aqui dentro tudo é bagunçado, 

grito e ninguém me escuta, 

derrubo o mundo e ninguém me ajuda, 

corro sem sair do lugar. 

Não há nada de bonito ou límpido que se possa mostrar, só há cansaço, 

um cansaço de quem se esqueceu de como insistir, resistir e existir.

Sinto-me cansada, e por vezes me falta força para continuar, mas eu não sei parar, nunca me permiti saber o que era isso, mesmo sem conseguir, eu continuo fingindo saber o que estou fazendo, continuo fingindo não me importar com o que pensam, falam ou fazem. 

Não fui ensinada a reagir a tempestades, fui ensinada a navegar nelas, a tentar arrumar o barco, mesmo com ele afundando. Mesmo me afogando, fui ensinada a me esforçar, mesmo que isso me machuque. 

Me esforço demais, porque gosto dos sorrisos e de como isso me faz sentir útil, gosto do sentimento egoísta que isso me causa, e de como isso me mantém viva. Gosto da linearidade das relações, gosto de ter o controle, de narrar uma história que construí, mesmo sem gostar. 

Gosto de não ter muitas opções para gostar, não sei lidar com escolhas, tenho medo do que meus erros podem me causar.

Aqui dentro tá tudo desabando, mesmo com meu esforço para manter tudo no lugar.

Eu ouço o mundo ruir, 

sinto que aos poucos estou soterrando, 

o chão treme,

me sufoco na poeira liberada por meus pés, 

as paredes cedem, 

minhas mãos gelam, 

minhas pernas bambeiam. 

Fico sem ar, sem palavras, sem vontades. 

Eu quero gritar, mas tenho medo de como o mundo vai reagir ao me encontrar.

Aqui dentro o tempo me machuca mais do que qualquer desabamento, e talvez pela incapacidade poética de acordar em meio a uma tragédia, ou pela falta de oxigênio, o tempo passa mais devagar, é sorrateiro, assustador, angustiante.

Sabe, eu quero gritar, fugir, derrubar tudo sem culpa!

Mas eu ainda tenho medo, medo de como vou sobreviver. 

Medo do que vai acontecer quando o copo transbordar, não sei se quero esperar para me afogar, não sei se quero lutar ou se quero esperar que me resgatem. 

Eu nunca sei…

Não sei se um dia quero saber.

Tenho a estranha sensação de que não há mais tempo, que tudo que passou é apenas uma lembrança quase se apagando, não há mais toques, afeto, abraços, respeito. 

Eu não sei o que restou, o que sobrou.

Às linhas, já não são mais retas, os caminhos conforme o tempo passa se tornam ainda mais dúbios, tudo é vazio, solitário, ambíguo demais para qualquer decisão sólida.

Me sinto tonta, 

prestes a cair, 

pronta para ser enganada pelo mundo e permanecer estagnada, 

sem resistir.

Aqui dentro tudo é solitário, me sinto uma criança brincando sozinha no play do prédio: trancada, segura, solitária, assistindo tudo acontecer do lado de fora, assistindo a outras crianças na rua, os tombos, o joelho ralado, o choro, assistindo os castelos desabarem e os sonhos ruírem e mesmo assim as assistindo levantar. 

Eu queria conjugar o verbo levantar, queria me levantar, não precisar de apoio, gritar por ajuda, Queria desobedecer, florescer, esquecer.

Queria sobreviver sem me sentir ferida.

Queria esquecer do mundo, 

me destrancar, 

encontrar meus sonhos, 

me perder dos meus medos, 

desagradar os sorrisos, 

partir expectativas,

findar desagrados.

Talvez eu não queira tanto assim, mas não quero assistir tudo acontecer do outro lado do muro, ainda não sei se quero intervir. Tenho medo de me machucar, não quero me esforçar para construir castelos que vão ser levados pelas ondas, quero assumir minha confusão, mesmo que as vozes que me invadam, digam que estou errada. 

Mas eu ainda quero.

Quero sumir, largar tudo, gritar com o mundo.

Quero não me esforçar tanto e ainda assim ser egoísta o suficiente para me levantar sem olhar para trás!

Quero não ter medo, nem do futuro e nem do presente!