Amor, Ansiedade, Crônica, Crônicas 2026, Minhas Crônicas, término

Até o fim do mundo

Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como um vendaval
Me joga na avenida que eu não sei qualé’

(Mulher do Fim do Mundo: Romulo Froes / Alice Coutinho)


Para todos que necessitam navegar por águas turbulentas e incendiar o que restou do Mundo, façam, façam sem dó, deixem o grito explodir, sintam a dor e não deixem as palavras morrerem na garganta.


Haviam muitas peças soltas no meu caminho, às pegar era algo relativamente complicado, já não era tão jovem, as mãos equilibravam coisas demais, algumas peças eram pequenas, outras estavam rasgadas, amassadas e até mesmo irreconhecíveis. Eram tantas, espalhadas por tanto tempo, que algumas eu até mesmo me recusava a resgatar, para onde eu iria não havia mais espaço para elas. 

A viagem duraria tempo demais, tinha que ser dessa forma, dolorosa e demorada. 

O choro embargou, a voz falhou e um medo que nunca pousou em meu peito começou a se fazer presente. Era uma viagem em um barco furado, remava com as mãos em águas turbulentas, me sentia sozinha, não havia direção, não havia para onde ir, para onde voltar, o que buscar, só restava isso, o frio, o vazio, o silêncio irreparável no fim do mundo. 

Os cheiros se misturavam, me enjoava, tudo parecia se acumular em meu peito, busquei apoio no que era incerto, me engasguei com as palavras na minha garganta, a ânsia veio junto com a vertigem, eu queria colocar para fora tudo que sentia, gritei, um grito surdo, escancarado, machucado e ainda assim um grito entalado, que não causou danos, não causou estragos e se deteve dentro de mim. 

O barco pareceu me compreender, mesmo sem uma ajuda relevante, me levou para longe, para um lugar escuro, onde eu poderia gritar sem me tornar um incômodo, onde todos poderiam continuar com suas vidas, curtindo seu próprio ritmo, vivendo sem me olhar. 

Molhei as mãos, encarei meu reflexo, limpei os lábios, os mordi, arranquei sangue tentando desviar de toda a dor acumulada no peito, a pressão parecia aumentar conforme eu me afastava,  o frio tão presente me paralisava, me encarava sem me reconhecer, não era a mesma, não era. 

A lembrança do que minha mãe sempre me ensinou, com uma constância irritante se fazia presente, não era para confiar, mas eu insisti, deixei o copo, sorri, vesti uma roupa bonita e acreditei que seria diferente, foi, mas não de um jeito bom. 

Gritei, gritei tanto que a garganta doeu, gritei tanto que por vezes isso pareceu alterar a reta do barco. 

A vertigem voltava, o medo acumulava conforme as peças passavam por mim, o espaço claustrofóbico não me deixava escolha, o que antes parecia bom, agora parecia torturante, encarava meus medos, meu passado e um futuro incerto sem ter para onde fugir. 

Queria gritar, queria quebrar as coisas, queria bater, mas não consigo, pareço ter perdido as forças, tudo parece bem diferente, é turbulento, indesejado, angustiante. A maresia me fazia colocar para fora o que eu nem sabia existir dentro de mim. 

Quanto mais peças eu tentava resgatar, mais eu tinha que equilibrar com o que já estava dentro, o barco parecia afundar enquanto eu tentava construir um equilíbrio frágil e inconstante.

Eu não via mais a margem, não via nenhum ponto de apoio, tudo que via era a ilusão de que conseguiria me esconder, em meio aos meus próprios desejos de me afogar, de me deixar ir e desistir. Tudo que restava era isso, um frio mesmo nos dias quentes, a escuridão mesmo nos dias mais claros, o desequilíbrio imoral causado pelo meu próprio desencaixe.

O mar nunca esteve calmo, as ondas sempre foram tortuosas, o barco sempre balançou, me afoguei tantas vezes que até mesmo me pergunto como permaneço aqui, como ainda existo? Não sei dizer quem me tirou de dentro daquela água fria, nem quanto tempo fiquei nela,  não sei qual mão segurei e nem por qual motivo eu fiz isso, mas ainda estou aqui, sem entender, sem saber como recomeçar, apenas seguindo a maré, seguindo sem rumo nesse barco cada vez mais instável.

Minha garganta doía querendo expurgar tudo que restava dentro de mim, meu corpo tremia, minha mente vacilava, a ânsia era um sentimento frequente, mesmo que não soubesse ainda pelo que ansiava.

Quanto mais eu me afastava, menos vozes eu ouvia, mas as que ainda insistiam, passei a responder o que queriam ouvir, só queria que me deixassem, que deixassem o barco ir, que me deixassem me perder, eu não queria voltar, mesmo que lá fosse tudo sombrio, vazio, e barulhento, mesmo que eu estivesse me afogando, ainda assim era longe o suficiente do mundo, longe das perguntas e das respostas, longe do relógio, do tempo, do espelho. 

As peças que restaram, me faziam recordar de forma constante do queria esconder, os lençóis espalhados pelo chão, o grito preso na garganta, o toque brusco, os tombos, os joelhos ralados, me levantava sempre da mesma forma, tonta, o espelho marcava o tempo, e o relógio não dava trégua. 

Suspirei, fechei meus olhos, não havia o que pedir, mas ainda assim pedi, implorei para tudo passar, me engasguei com o pranto desordenado, o balançar do barco era insistente, tudo que eu precisava era de uma pausa no silêncio, queria ouvir um grito que me tirasse do lugar, queria chegar logo ao meu destino, e encontrar uma direção segura, com uma luz que incendiasse tudo. 

Nos últimos dias o único desejo que habita em mim é incendiar, incendiar as memórias, os pedaços largados pelo meio do caminho, o barco que foi minha âncora e que me trouxe até aqui. Nos últimos dias tudo que desejo é o fim, uma luz no meio do caminho, uma desculpa para não voltar, para não olhar para trás.

Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Crônicas 2026

O que restou de mim

Aos que fingem uma felicidade que nem sempre é verdadeira, desejo não só a sorte de encontrar pessoas que escolham acolher sua tristeza e permanecer no seu silêncio. Mesmo quando tudo parecer tempestade, ainda assim desejo um arco-iris no fim do túnel.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

(Se eu quiser falar com Deus / Gilberto Gil)


O meu futuro sempre me pareceu meio incerto, nunca souberam exatamente o que esperar de mim, quando parecia atender a todas as expectativas ainda assim, parecia não caber nos espaços destinados a mim, fui crescendo sem saber o que era, sem responder perguntas, cresci com medo de crescer, cresci querendo me esconder ao mesmo tempo que, cresci fingindo saber o que eu era. 

Me tornei um ótimo mentiroso, especialista em fingir sorrisos, um bom recepcionista, que mesmo quando a casa tá cheia, ainda assim se sente sozinho, tudo parece uma lembrança para o quão vazio estou, e não há nada que me doa mais do que deixar que percebam isso. 

Dói, dói mais do que eu poderia descrever, dói mais do que eu deixo que transparecer, as vezes tudo parece difícil de ser disfarçado, me sinto como alguém prestes a transbordar, um copo meio cheio embaixo de uma goteira que esqueceram de tampar, eu tento não soluçar alto, tento me esconder, tento não me deixar derramar, mas não dá certo. 

Cada gota que transborda, parece uma tempestade, uma angústia, um veneno alojado na carne, eu sinto o cheiro de sangue, só eu vejo a ferida aberta, me sinto paralisado, sem saber como reagir, tenho medo. Tento me esconder em conversas, risos, festas, para afastar essa sensação, mas aqui dentro tudo piora, se alastra, se torna maior, tudo sangra, manchando meus passos aonde quer que eu vá. 

Às vezes meus dedos ansiosos buscam uma distração, criam histórias, curtem memórias, me fazem ler coisas que eu não queria, e até mesmo isso me parece uma punição em loop. Se eu fechar os olhos me perco em um lugar deserto, que ecoa as vozes daqueles que acham saber tanto sobre mim, que enfatizam minhas quedas, que me fazem sangrar bem mais do que os arranhões adquiridos. Eu me perco com certa facilidade, nesse lugar, ninguém parece me encontrar aqui e mesmo que seja solitário de alguma forma me sinto confortável. Lá, até mesmo a dor é previsível.

As vezes prefiro me perder ali, naquele deserto frio e solitário, do que conviver entre os conhecidos e desconhecidos, eu não gosto de surpresas, não gosto de esperar ser machucado, não gosto de depender dos sorrisos, dos abraços e das migalhas de afagos. Eu sei que eles sabem que eu sangro, sei que me olham, mas ainda assim, eles não parecem ligar, parecem achar divertido e até mesmo inapropriado, exigem de mim um excesso de mentiras que eu não sei fazer existir. 

Não que eu desgoste deles, mas os anos fazem tudo ficar ainda mais difícil, eu não consigo olhar para o passado sem me entalar com o meu silêncio, sem me machucar, sem querer arrancar de mim esse sentimento, por vezes sinto-me como se cada palavra fosse o suficiente para me fazer transbordar, para me tirar o ar, para me colocar em uma prisão sem portas e janelas, onde só escuto palavras que me machucam. 

Eu não tenho para onde fugir, não tenho como fugir, a mistura de aromas parecem me atravessar, a cabeça dói, a sensação de afogamento se transfigura ali, tento me mover mas tudo que consigo é me arrastar mais para baixo. 

Eu tento, tento de verdade ser a minha melhor versão, fazer da melhor forma, vestir a minha melhor roupa e fingir que eu não ligo enquanto me perco em silêncio. 

Mas ainda dói.

Tudo dói e eu não sei como parar, não sei como pedir para que parem, não sei não me machucar. 

Não sei… 

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A valsa dos desavisados

Escrevo para todas que necessitam gritar para recomeçar, para todas que sentem seu mundo ddesabar em uma noite de domingo e precisam buscar forças para recomeçar na segunda.


Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não, e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo como se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

(Oswaldo Montenegro)


O cheiro amadeirado tomou conta do ambiente e se misturou fácil ao cheiro da chuva, trazendo lembranças. 

Já era noite.

Os gritos acusatórios atravessavam o quarto de quem deveria não ter preocupações. 

Acordou, se escondeu, tentou inventar histórias e escapar de tudo que acontecia do lado de fora do seu castelo. 

Não deu certo.

Ouviu o som dos passos pesados e apressados, pensou ter acabado, mas não houve coragem para sair dali, tentou fechar os olhos e fazer o que mandavam, “dormir”. 

Lá fora, não havia despedida, ou um último toque, só restou lembranças.

Algumas dolorosas demais para serem registradas, mas ainda assim ficaram marcadas, como um álbum de fotografia antigo demais para ser recuperado.

Tudo que restou foi o cigarro apagado por cima do móvel antigo, as cinzas abandonadas e levadas pelo vento.

As lágrimas logo vieram, o soluço forte, o ego ferido entorpecido por momentos felizes. Ela queria que ele fosse, mas mesmo ele indo, ainda assim ele ainda parecia dominar todos os passos da sua vida.

Gritou. 

Gritou forte, não acreditando no que aconteceu, sentiu nojo, sentiu vontade de colocar fogo em tudo, nos lençóis, na cama, nas fotografias que registravam todo aquele tempo. 

Se sentiu perdida, abandonada, traída, culpada. 

Seus pensamentos buscavam uma resposta para compreender quando aquilo se iniciava, se em algum momento havia sido diferente, riu de forma amarga, não havia desculpa, ela sabia que não havia, sempre houve sinais demais que ela preferia ignorar. 

Sempre foi tão mais fácil colocar a culpa em si, sempre… Não entendeu bem quando deixou de ser fácil, de ser lascivo para se tornar apenas casto, barulhento e ainda assim perverso e sem sentimento. 

Tossiu engasgando-se, fechou os olhos e lembrou de tudo que falavam, parecia que teria que aceitar a imperfeição dos fatos, não havia remendo, não havia como reparar.

As mãos se fecharam, as unhas machucavam, a dor parecia mínima diante a tudo que sentia. 

Engoliu o choro, hoje era domingo, mas amanhã seria segunda, o tempo continuaria a girar mesmo sem ele, mesmo sem as palavras, mesmo sem os toques, mesmo sem tudo, ela ainda teria que continuar. Sempre teve, mesmo quando todos não percebiam que seu mundo desabava, ainda assim ela sempre teve que continuar. 

Fingiu sorrisos, fingiu gostar, fingiu que a culpa era sua…, não seria tão difícil fingir que nada havia mudado. 

Sentiu a bile subir a garganta, engasgou-se, perdeu a força e se jogou por ali mesmo, preferiu esquecer que do outro lado da porta a frente existia um outro alguém que também chorava. 

Precisava ser egoísta, não havia muito tempo, ainda era domingo, mas logo seria segunda e com ela iriam surgir as perguntas, os debates, e ela não estava preparada para isso. Não estava, nunca esteve. 

Queria ser corajosa, mas sentiu-se covarde, o peito ardia tanto que parecia inflamado, a respiração era tão desritmada quanto a tempestade que caía, se lembrou do que queria esquecer, não mandou mensagem, não ligou pedindo colo, apenas permaneceu ali, esperando a segunda chegar e tentando descobrir como seria o recomeço.

E chegou… 

E fingiu mais uma vez não sentir, pois não tinha escolha. 

Recomeçou, recomeçou a passos lentos, sem afagos ou palavras bonitas, por vezes em silêncio, por vezes culpando o mundo, mas nunca sozinha. 

Nunca.

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Rir pra não chorar…

Presta atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

(Angenor De Oliveira/Cartola)

Escrevo aos corações desalinhados, que se esquecem que o mundo é um moinho, que escrevem poesia enquanto escondem o pranto. Ainda é cedo amor, hoje pode ser quarta-feira de cinzas, mas amanhã é quinta e é sempre um bom dia para recomeçar.


Já era tarde, a quarta-feira de cinzas havia surgido, o sol se escondia, a purpurina se espalhava pelo chão misturando-se à plumas e paetês, as fantasias pareciam esquecidas pelas esquinas e ao fundo ainda ouvia-se bem o som da cuíca e do pandeiro, resistindo, ainda era carnaval. 

As crianças, nem tão crianças assim, corriam capturando o tempo, como se cada instante fosse único, bolhas de sabão surgiam no céu compondo uma frágil obra de arte, era melancólico e ainda assim, lindo. Eles se misturavam, riam, se amavam livremente como se o tempo fosse o mero acaso e a quinta não existisse no calendário.

A chuva dava sinais de que caíria para lavar não só as ruas, mas também para compor uma dança regada de incertezas, me abriguei em silêncio, com a serenidade e a experiência de quem já passou por outras tantas quartas-feiras. 

O copo gelado, começava a esquentar, sussurrei lentamente a letra de um samba que havia esquecido conhecer, meu corpo parecia ter desalinhado àquela atmosfera, minha mão nervosa buscava um ritmo para seguir,  um riso de agonia surgiu em meus lábios, um riso de saudade, que destoava do dos demais, meus sentimentos se misturavam, eu me pergunto quando tudo parou de fazer sentido?

Quando passei a me preocupar com a chuva? Eu já estive ali, não me importava com a lama, ou com o rastro de cores que a chuva me deixava, mas agora tudo parecia tão diferente. 

Eu até tentei seguir, com o bloco que passava, mas não consegui, tudo passou muito rápido e quando consegui me movimentar o ritmo já era outro. Todos passavam por mim, o mundo girava, o toque do tambor se transformava, as fantasias mudavam, se inundavam de cores que eu não reconhecia, as palavras desconexas se transformavam em lembranças que eu desconhecia. 

As primeiras gotas de chuva caíam se misturando às minhas lágrimas, e então eu desisti de seguir, fiquei.

As perguntas começaram a entalar na minha garganta. 

Eu queria estar ali, mas não estava. 

De repente, deixei de ser protagonista, para me transformar em telespectadora, um suspiro apertado escapou do meu peito, meus olhos fecharam, meu peito ardeu,  já estive ali, meu riso já ecoou por aquelas ruas, meus passos tortos me conduziam naquele ritmo, um ritmo próprio, que agora fazia meu peito arder. O relógio não voltava, já era quarta-feira, e mesmo que terça tenha sido ontem, ainda assim, tudo parece bem distante. 

Meus olhos embaçaram e mais uma vez um riso escapou por meus lábios, quis me levantar e me juntar a eles, mas algo dentro de mim parecia desencaixado, um nó estranho entalava minhas palavras e parecia me tirar a órbita. 

O riso, de felicidade, parecia ser um vírus contagioso entre aqueles que ali estavam, o aroma dos corpos em meio a danças desordenadas faziam a composição daquele cenário algo improvável, mas ainda assim, admirável. E eu, que durante tanto tempo me misturei à aquela poeira, parecia uma peça perdida de um jogo de tabuleiro, não havia em mim ritmo para compor aquela cena, mesmo que minha vestimenta fosse tão colorida quanto a dos demais, senti-me um desencaixe.

Quando foi que tudo mudou?

Quando o silêncio começou a transbordar por mim? 

Senti-me o Pierrot, a fantasia parecia não ser minha, os sonhos, o riso, nada me pareceu real e reconhecível, as palavras morriam antes de chegar a boca, eu não as deixava sair. 

Me senti sozinha, mesmo estando acompanhada, ninguém parecia compreender tudo que acontecia naquele dia, não conseguia encontrar minhas respostas e nem sei se as queria realmente, tudo aqui dentro parecia um livro de retalhos, retalhos coloridos, repletos de aromas e gostos diferentes. 

E então eu me lembrei de você. 

Doeu ainda mais…

Quando tuas palavras pararam de inundar meu corpo?

Quando deixamos de dançar em sintonia? 

Eu ainda lembro de outras quartas-feiras, tão cinzas quanto essa, mas que terminaram de forma tão diferente, lembro de como nossos corpos se misturavam nos lençóis, de como brincávamos de colorir nossos sonhos, de como as noites se tornavam curtas para o enredo que construímos juntos. 

Você tinha uma forma própria de sussurrar uma música incompreensível por meu corpo, uma música que só nós dois parecíamos saber dançar, mesmo que de forma improvável.

Mesmo que o tempo nem sempre fosse solar, ainda assim sabíamos como nos abrigar das tempestades, éramos bons em matemática, juntamos tantas vezes nossas meias palavras, subtraímos nossos medos, multiplicamos nossos sonhos, dividimos nossas vontades, e ainda assim, hoje, percebo que de alguma forma erramos nossas contas. Talvez tenha sido uma fração de segundos que não soubemos calcular da forma correta, ou talvez tenha sido um verbo mal conjugado. Ainda assim, erramos e eu não sei como desfazer esse erro, o que subtrair, ou multiplicar. 

O que restou de nós dois no final? 

O que vai acontecer depois dessa quarta-feira?

Eu não tenho respostas para essas perguntas, não sei se um dia quero as ter, também não sei como cheguei e nem os motivos de ainda estar aqui, meus dedos parecem redescobrir o copo antes esquecido sobre a mesa, a bebida já quente, desce amarga, me lembrando que amanhã é quinta e eu ainda não sei como continuar. 

Os nossos carnavais costumavam passar devagar. 

Sinto saudades do seu gosto, do seu corpo, do seu tempo tão íntimo, tão calmo, tão único, que me completava. 

Eu não vi seu bloco passar, perdi seu sorriso, perdi tuas palavras, me perdi de você e talvez você tenha me perdido. 

Tentei te procurar entre tantas lembranças, mas você parecia não tá mais lá, me pergunto quando se tornou um desconhecido, quando deixamos de dançar a mesma música, quando nosso olhar se perdeu, quando nossa fantasia preferida se tornou o silêncio. 

Restos de purpurina se espalhavam entre nós, era como uma metáfora triste da nossa vida, eram fragmentos do que fomos, do que vivemos, que mesmo não voltando, são difíceis de se apagar.

“Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar”