Crônica, Filme, Opinião, Sem categoria

O Ponto, a Vírgula e o Mundo…

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Imagem do Filme: O Menino e o Mundo/ Alê Abreu

Estava aqui pensando a respeito das coisas que nunca termino…

Hoje tentei pela enésima vez assistir ao filme “o Menino e o Mundo”, traz uma narrativa linda, uma animação rica em detalhes, um filme lúdico que faz uma crítica ao sistema capitalista. Como já tinha dito, eu tentei, não consegui terminar de assistir a tudo, quando eu enfim terminar de me deliciar eu prometo, faço uma das resenhas loucas para o blog.

Já que o assunto são os “pontos finais”, o “terminar algo”, me pergunto os motivos de diversas vezes mergulharmos na realização de algo, mas no meio do caminho desistirmos? Será que a pedra que encontramos era grande e pesada demais ou a nossa vontade de fazer essa determinada coisa era pequena, tão pequena que nem nos importamos com a maldita pedra no meio do caminho, apenas damos meia volta e desistimos?

Detesto desistir de tentar levantar essas pedras, é claro, como devem ter percebido algumas vezes a preguiça vence e eu desisto, mas no geral acho que devemos tentar ultrapassar, pular, escalar essa pedra nem que necessitemos pedir ajuda, afinal de contas nem tudo conseguimos realizar sozinho.

Na vida tudo tem sempre uma dose de periculosidade, devo alertar que quando se trata de “pedras no caminho” essa periculosidade é algo em um nível bem alto, arrisque-se, mas seja cauteloso, não tenha medo, mas cuidado para os destroços dessa pedra não causarem danos irreparáveis em você e em outros.

Escrevendo e pensando nisso, a uns dois meses atrás eu escrevi um texto para um amigo meu, ele é 4 anos, 3 meses e 1 dia mais novo que eu, a vantagem dos amigos mais novos é que eles se tornam irmãos mais novos, segue o texto espero que gostem:

O menino que morava entre um ponto e a vírgula

Havia um menino que morava nas entrelinhas do Mundo,

Tinha uma casa entre a cidade do ponto e a da vírgula.

Morava na cidade dos parágrafos, onde os assuntos intermináveis surgiam.

Ele se perdia sempre entre todas aquelas palavras, que só pareciam aumentar…

Ele as escrevia,

Ele as escrevia como quem respirava,

Ele não sabia não parar de escrever,

Era uma compulsão, uma necessidade,

As palavras que criava, recriava e transbordava entre todas aquelas linhas, pareciam não ter fim,

Ele nunca entendeu a ousadia de um ponto ser continuativo,

Ele preferia as vírgulas, elas não deixavam seus assuntos terem fim.

Sua escrita era seu combustível, seu ar, ela o movia,

Os olhos pequenos corriam por todos os cantos,

Ele buscava a cada instante novas descobertas,

Novas palavras, sonhos, aventuras.

Ele as buscava em todos os cantos e as encontrava tão facilmente que era fácil se questionar, se eram elas quem o encontrava.

Ele não gostava muito de falar…

A grande verdade é que se ele falasse tudo que escrevia, ele iria se perder entre tantas linhas e palavras.

Ele preferia não falar,

Ele preferia pensar nas respostas longas escondidas nas entrelinhas das suas curtas frases.

Escrever era muito melhor,

Ele não precisava ser ele, podia ser outro, inventar outros…

Escrever para ele era tão natural quanto as tempestades no verão,

Ele dançava com as palavras em ritmos tão diversos que era impossível não dizer o quão bom dançarino ele era.

Ele escrevia em todos os cantos mesmo sem papel ou caneta,

Ele escreveu nas paredes abandonadas,

Escreveu nos corações desconhecidos,

Escreveu em lugares que ele nunca foi…

Ele escrevia tanto que se transformava em personagem,

Se perdia nas linhas, se transbordava ali, entre os pontos e vírgulas.

Entre o final e o recomeço…

Por Juliana M.

Para: Michael Rios.

 

 

Amor, Crônica, Feminismo, Sexo

The End…

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Recentemente me vi no meio de turbilhões de emoções que não eram minhas, eu não lido muito bem com perdas, ironicamente, eu nunca tive um grande termino, os que eu tive eu soube superar teoricamente bem, mas resolvi buscar nos anexos dos meus sórdidos pensamentos algo para escrever sobre esse momento tão profanamente inevitável:

O mundo vai continuar a ser o mundo, mesmo se amanhã eu não estiver ao seu lado, a inexplicável rotação da Terra continuará a acontecer, o Sol ainda estará iluminando nossas manhãs, e o frio da noite ainda nos fará desejar alguém ao nosso lado, não por amor, mas por egoísmo, vamos querer o corpo alheio para aquecer o nosso, e nos envolver em uma camada de braços e abraços, sussurrando palavras indecifráveis em meio ao sono, enquanto ouvimos o batucar do coração alheio, que não nos pertence…

O vazio na cama se torna maior, o espaço antes tão pequeno se tornou uma cratera, não existe bagunça, não existe risos, não existe… Mas o correto seria que isso tudo continuasse a existir, afinal, continuamos a viver e somos a parte inteira de tudo que restou, a matéria orgânica, presente nesse corpo, ainda é a mesma de antes de tudo acontecer, o que prova que ainda é possível respirar, suspirar, andar, viver…

Encarar a vida pode ter se tornado um pouco mais difícil, afinal quando se termina com algo de forma tão abrupta e inesperada você fica sem reação, não sabe que rumo tomar, que caminho seguir, e um medo transborda nos seus olhos, sim nos seus olhos, afinal todas as possibilidades que esbarram com você naquele primeiro momento não fazem sentido algum, você ainda continua se sentindo incompleto, mesmo com todos os seus pedaços no lugar, você adquire um medo absurdo de que tudo sempre seja assim, sempre…, sempre.

A solidão parece ser um eco no meio do seu peito. As letras de música parecem ecoar na sua mente “é impossível ser feliz sozinho”, quem disse isso? Quem nos ensinou a pensar assim? Infelizmente quando se está com todos esses sentimentos “a flor da pele e qualquer beijo de novela nos faz chorar”, não conseguimos enxergar um erro mortal nessa frase, só é possível ser feliz sozinho, quando dependemos de outros para fazer/trazer nossa felicidade transformamos isso em dependência. Amar não é criar dependência, amar é ser livre é viver independente do outro, partilhando o “nós”, junto com todos os sorrisos e lágrimas, mas sem esquecer do “eu”.

E nesse desespero em que me vejo

Já cheguei a tal ponto

De me trocar diversas vezes por você

Só pra ver se te encontro

_Caetano Veloso – Você não me ensinou a te esquecer.

Dizem que os seres humanos se distinguem dos demais animais por sua racionalidade, mentira, não somos racionais principalmente quando isso envolve sexo e amor. A grande verdade é que a maioria de nós busca no outro aquilo que deveríamos encontrar em nós, sabem aquela velha frase de contos de fadas: e se tornaram um só”? Essa frase deveria ser banida de qualquer história para ninar crianças, não deveríamos as ensinar que o amor é egoísmo, deveríamos ensinar que o amor é compartilhado.

Amar é a conjugação do verbo no plural, “amamos”. Mas e quando um dos dois não ama mais, ou esse amor não é suficiente? A hora em que o fim chega, é sempre a pior hora…

É meus caros, o fim é algo tão intenso que raramente acontece por decisão inteira, não há conversas, abraços ou beijos, tudo que resta é uma série de soluços e questionamentos sobre os motivos que levaram a àquele ponto final. É claro que tiveram motivos, mas quando é você que ouve o último adeus, é você que se acha culpado, é você que se esconde, é você que não sabe responder àquela fática pergunta: “por que terminaram? ” Meia hora após essa pergunta, um filme roda na sua mente, seus olhos transbordam e seu mundo desaba, a pergunta que deveria ter sido feita é “você está bem? ’’

Afinal ainda ontem seus corpos estavam juntos, em meio ao suor, os beijos, os afagos e os sussurros de prazer ao pé do ouvido. “Você tem certeza que está bem?” Não, não está, eu sei que não, isso tudo foi ainda ontem…

Essa sem dúvida é a pergunta mais correta, não existem motivos plausíveis o suficiente para um termino, não para quem recebe o ponto final, tudo que essa pessoa precisa nesse momento é compreender que ela não foi culpada, que o mundo vai continuar girando e que ela vai ter um abraço silencioso para aquele momento, que aquele só foi “um momento” e que vão existir inúmeros outros momentos. Afinal não importa os motivos, todos eles não vão fazer sentido algum para os corpos aquém de toda aquela história.

Não importa se foram, dias, meses ou anos, não importa e nem nunca vai importar, no momento em que o ponto final é colocado no meio de uma frase, ele corta todas as possibilidades de se saber o final da história, ele causa angústia por tudo que poderia acontecer e nunca aconteceu, ele causa medo, desespero, tristeza, ele transforma em lágrimas todas as boas lembranças e palavras.

O irônico disso tudo é que esse ponto final só se transforma em vírgula quando os dois lados dessa frase se permitem conversar, não existe relação de um só, a vida não é um monólogo, é um incansável diálogo onde criamos inúmeras conversas ao pé das amendoeiras imaginárias.

“Não vou me sujar fumando apenas um cigarro

Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom

Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval

E isso explica por que o sexo é assunto popular.”

_ Zé Ramalho, Chão de Giz

No fim tudo que resta é uma dor inconstante no meio do seu peito e por mais que se diga, “eu entendo”, tudo vai parecer não ter sentido nos próximos minutos. Sabiam que somos bem mais egoístas no “fim” do que no início? Sim, somos egoístas, aliás no “fim” ambas as partes são egoístas, ambas querem continuar e terminar aquela história por motivos individuais e que nem sempre condizem com a realidade.

No fim, o poeta realmente estava certo.

“Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

_Vinicius de Moraes – soneto de Fidelidade

 Era frio,

Era noite,

Era o fim,

Estávamos felizes, sentados, conversando ao pé da amendoeira, os carros passavam, as crianças corriam pelo parque, e você estava ali, me olhando, como quem olha pela última vez alguém.

O beijo de despedida aconteceu,

O último selar de lábios,

O último toque.

Eu não estava morrendo e nem você indo para outro planeta, era um adeus tão vulnerável em termos explicativos, que cheguei a me perguntar se ele realmente chegou a existir.

Toquei meus lábios,

Ouvi meu coração bater,

Respirei freneticamente,

Minha garganta secou,

Você não estava ali…

No fim tudo ficou a como sempre esteve,

Você não existia antes e nem vai existir depois…

Demorou um certo tempo para eu perceber que tudo continuava em ordem a minha volta, não me acalmei e nem quis me acalmar, busquei na ânsia de um desejo voraz outros braços para te encontrar, mas inevitavelmente me vi perdida.

Parei,

Respirei,

Percebi, não era você que eu buscava, nunca foi, sorri enquanto observava as folhas da amendoeira se espalharem por aquele parque…

Me encontrei.

*Escrito em homenagem aos meus amigos…

Crônica, Opinião, Preconceito, Racismo, Violência

O desconhecido engano…

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Ilustração: Zansky

O choro angustiante e incessante foi ouvido no alto do morro, o baque fatal levava a mulher com as mãos ensanguentadas ao chão, agarrada ao corpo do filho, mãos firmes tentavam violentamente a afastar, era apenas mais um corpo, eles a arrastaram dali a jogaram com tamanha brutalidade para longe enquanto colocavam o corpo no carro.

Quem ligaria? Quem se importaria? Era só mais um, mais um número, mais um pobre, mais um morador daquele morro, antes dele já foram tantos…

O braço estendido para o lado de fora do camburão aumentava ainda mais a dor, ele não era um objeto, era seu filho, era um ser humano que estava sendo tratado como um pedaço de qualquer coisa.

Os coturnos marcados pelo barro caminhavam de um lado para o outro, o céu antes quente se tornava frio, era noite, uma noite fria e tenra, os homens inquietos olhavam furiosos para todos os pares de olhos direcionados a si, as mãos por cima do uniforme tocando levemente a arma esperando em ansiedade pelo reforço, o choro permanecia do outro lado, logo surgia o aglomerado, ninguém andava ou se mexia, eles eram os monstros ali.

Apontaram as armas na direção dos punhos cravados e das pedras não lançadas.

A mulher ainda com as mãos manchadas tentava compreender a onde estava o erro, como aquilo poderia ocorrer? Trabalhou mais de oito horas diárias para que aquele menino chegasse aonde ela nunca chegou. Trocou plantões, fez horas extras, deixou de comer, dormiu em pé e tudo terminou assim, dessa forma, com um tiro no peito, um engano.

Uma agonia lhe consumiu mais do que em qualquer outro dia, uma agonia maior do que a de não saber como sobreviveria com aquela criança, mal tinha como se sustentar sozinha…, ironicamente, anos depois, a agonia é por não saber como sobreviverá sem aquela criança.

Mãe solteira, filha sem pais, irmã sem irmãos, mãe sem filhos, ela que era sozinha ganhou alguém e o perdeu assim dessa forma tão perversa, talvez, só talvez ela tivesse pensado que todo aquele esforço tivesse valido apena se ela o visse formado, segurando o diploma e a abraçando no fim da cerimônia, mas nada disso deixou de ser uma lembrança inexistente a sua memória, um sonho…

Os homens fardados ainda encaravam aquele corpo, mais um corpo, mais um, entre tantos números, a incerteza de não se saber quando um dia estiveram certo, fez um deles se questionar quando deixaram de se importar, quando deixaram de sentir, quando deixaram de respirar enquanto suas mãos puxavam o gatilho e davam fim a vidas.

Vidas, ela sempre chorou pelos filhos de outros, agradecia que em meio a tantas complexidades sociais, ele não ter se rendido a um sistema meritocratico que dava mais a quem já tinha muito. Ela achava que apesar de tudo ele iria reverter o sistema, que iria entrar com a cabeça erguida em alguma das empresas na qual já trabalhou pela porta da frente, que iria defender os pobres e ajudar os que necessitavam a chegar onde ele chegou, era o que ele sempre falou, era o que ele sempre fez, foi o que ela ensinou.

Engoliu todas as lembranças para se colocar de pé, caminhou com os pés apressados, ela já estava habituada a isso, sempre correndo, criou seu filho no mundo, um mundo incerto que sempre a dizia que ela não conseguiria, criou seu filho com os relógios dos patrões, com a solidão e com o medo, um medo que a fazia o esperar todos os dias acordada, um medo que não a deixava sair dos seus olhos sem um “eu te amo”, um medo que não esteve presente quando caminhou até aqueles homens.

Os encarou com um olhar devorador, eles conheciam aquele olhar, conheciam aquela fúria, por esse fato desviaram, desviaram seus olhos dos dela, pediram que ela recuasse, que se afastasse, mas ela não o fez, não teve medo, era seu filho ali, eram seus sonhos, era um pedaço de si abandonado como uma grande merda. Ela se colocou na frente deles, justamente daquele que se questionou quando eles deixaram de sentir, as mãos tremulas enluvadas não entendeu o que aquelas mãos tão calejadas faziam ao segurar sua mão e apontar a arma para o próprio peito.

Logo o tempo começou a estacionar, o silencio deu lugar a gritaria, outras armas foram direcionadas a si.

No chão estavam as horas de sono inexistentes de uma mãe que esperava acordada o filho voltar da Faculdade, estavam as lágrimas de comemoração pela Faculdade Pública, estavam os sonhos, todos os sonhos, juntos com horas de estudo e as xícaras de café, junto com o trabalho de meio período para pagar os livros, junto com o tênis furado e os bolsos vazios.

E em um mero espaço de tempo entre toda a correria que se fez junto aos gritos dos moradores locais tudo se perdeu, nada mais importava, não importa se por um engano eles atingiram seu filho ou a ela, continuaria a ser um engano se eles tivessem acertado outro, seria outra mãe ali em seu lugar, seriam outros sonhos enterrados junto a um corpo, seria outra vida perdida no alto do morro, outro completaria as estatísticas nas folhas de domingo.

Foi se perguntado por um desconhecido, que espreitava tudo por trás de uma coluna de concreto, o que eram sonhos? Justiça? Vida? Enganos?

Ele viu a hora do tiro, não foi um engano, a tal atividade suspeita do tal rapaz era dar ao morador de rua um dos sanduiches que ele vendia na Faculdade. O tal pacote, não era nada. A mãe estava lá do outro lado, como de costume, o esperando descer do ônibus para juntos irem para casa. Ela não viu carros, ela não viu nada a não ser seu filho, caído, jogado e abandonado no chão.

O desconhecido se perguntava o que dava a aqueles homens fardados o poder de se fazer justiceiro, de podar vidas, de escolher e condenar pessoas por sua classe social, por sua cor, por escolhas que não tiveram?

A pena de Morte existe nesse País, ela condena sem julgamento cada um que está fora do círculo, que se encontra fora dos padrões, que por não ter uma escolha encontra um outro caminho, condena as mães, os pais e os filhos, condena os órfãos de um Estado omisso que se esconde atrás de um de sistema excludente.

Homofobia, Opinião, Preconceito, Sem categoria, Violência

Eu quero mais amor!

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Alguém já parou para pensar no significado dessa palavra, Namastê? É uma saudação, utilizada para agradecer e pedir, comum entre os praticantes do budismo, a expressão é utilizada para demonstrar respeito, para saudar o outro, geralmente é acompanhada pelo gesto (mudra) de juntar as palmas das mãos em forma de oração, colocando-as no centro do peito.

Muitas vezes não é necessário, uma única palavra, para acompanhar esse gesto, todo o significado já se encontra enraizado ali:

‘’O Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita no seu coração”.

Serei sincera, quando no meio de todo esse caos eu me deparei com a notícia do atentado, eu fiquei sem palavras, um homem armado atira e mata pessoas em uma boate latino-americana LGBT, eu fiquei realmente sem palavras certas para escrever alguma coisa, não me senti apta a isso. Para uma pessoa que ama escrever, ficar sem palavras é frustrante.

Sabe aquela sensação de agonia, aquela que parece que você engoliu um tomate inteiro? Então essa foi minha sensação.

Sabem porque pessoas procuram boates LGBTTTIS (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, intersexuais e simpatizantes)? Pelo simples fato de se sentirem seguras dentro desse local.  Elas fogem para esses locais para fugir do Machismo, do Sexismo, da Homofobia… Elas vão a esses locais para poderem ser quem são, longe dos olhares criteriosos de outrem.

Segunda passada, quando eu fui assistir ao filme X-MEN e vi aqueles dois meninos fofos que nitidamente se amavam e não ”podiam” demonstrar seu amor se não no escuro do cinema, eu fiquei com um bolo em minha garganta, era esse tomate começando a ganhar forma. Eu não sei viver amor sem demonstra-lo e eu me senti impotente, aquilo era uma prisão sem grades, onde você se torna vigia de seus próprios atos e em algum momento você pode ser repreendido por isso.

Como se amar fosse crime, como se ser livre fosse prisão, como se a segurança fosse insegurança.

Insegurança. Eu conheço essa palavra no momento em que presto atenção na hora para voltar para casa, na minha roupa, na minha maquiagem. Também reconheço a insegurança quando peço para meus amigos e amigas me avisarem quando chegam em casa, seja pelo local que moram, por serem gays, negros ou por serem mulheres…

Quando você tem insegurança, você não consegue não se vê nas páginas policias, seja na moça que foi violentada, morta e esquecida em algum matagal, no menino que mal viveu a vida e foi morto por viver um amor ou no rapaz que foi morto por morar na Favela e ser tornar suspeito por sua cor. Você se reconhece e reconhece outros ali, como se todos estivéssemos inseguros. Na verdade estamos.

Eu sinto. Eu senti a dor daquela mãe ao receber a última mensagem de seu filho, a dor do rapaz que percebeu seu melhor amigo morto ao seu lado, a dor do filho que tevê seu corpo protegido por sua mãe, a dor do irmão, do pai, dos amigos. Poderia ser qualquer pessoa que eu amo ali. É como se toda essa dor estivesse entalada, essas pessoas morreram amando, por um crime de ódio.

Acho preocupante quando começam a questionar sobre a legalização de armas, em legalizar o uso de armas em locais com bebida alcoólica, em dizer que se a vítima estivesse armada ela estaria viva. Sabem o que esse discurso significa? Ele é uma fuga, além de culpar a vítima ele diz que a violência se resolve com violência, esse discurso esconde completamente que esse crime foi um crime de ódio, contra uma comunidade e que armar pessoas não iria evitar que esse crime acontecesse.

Centenas de pessoas são feridas diariamente pela homofobia, não é preciso armas, elas ferem com socos, chutes, barras de ferro, palavras.

Essa violência decorre em qualquer lugar, em igrejas, nas escolas, nas boates, na rua, em casa. Centenas de jovens são expulsos de casa por sua orientação sexual.

Centenas de pessoas são condenadas por amarem.

O pai do atirador afirmou que o filho sentia repulsa ao ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando, então não importa se o governo e/ou a mídia americana te dizem que o cara era um muçulmano, isso não significa nada, ele era um homem americano, investigado, homofóbico, que comprou uma arma. A religião dele era o menor dos problemas, quando a tornam maior, só significa que estão direcionando o ódio a uma nova coisa: à religião muçulmana e consequentemente aos imigrantes.

Dessa forma tornam um crime de homofobia um crime político e religioso. Por falar em religião, muitos religiosos se pronunciaram eu sinceramente preferiria que os mesmos continuassem calados.

Religião, desde os meus 17 anos que não tenho uma religião específica, sou uma pessoa de muitos credos, tenho Fé, mas não curto muito os templos. Prefiro dizer que sigo o amor, o que eu penso não poderá jamais se sobrepor ao que os outros pensam. Não somos maiores que ninguém, somos feitos com os mesmos componentes orgânicos. Somos iguais. Mas o que nos torna diferentes?

A nossa sociedade se agrupa por características comuns, dessa forma monta-se grupos que se assemelham em alguns interesses. Assim sendo quando o desconhecido é apresentado a esses grupos, são impostos a eles olhares criteriosos e selecionadores, impondo uma característica que estigmatiza, rotula e que confirma a anormalidade de uns e a normalidade de outros. (Goffman,1981).

Não existe nada que nos torne melhores do que os outros, na verdade quanto mais frisamos e impomos que somos diferentes,superiores, mais nos tornamos piores, estamos apontando um gatilho para alguém. Nós somos culpados, nós selecionamos, nós julgamos, condenamos, impomos regras para as pessoas viverem.

Nesse momento, somos produtos e produtores. Estamos num ciclo. A sociedade nasce das interações entre indivíduos, mas com sua cultura, com seu saber, ela retroage sobre os indivíduos e os produz para se tornarem indivíduos humanos. O fenômeno de produto-produtor é um fenômeno constante. (MORIN, 1999 :28)

Não existe certo ou errado, simplesmente pelo fato de que a condição de normalidade é algo imposto pelo ser-humano, portanto todos somos e estamos certos e ao mesmo tempo errados. Dizer que alguém é um erro é algo completamente desumano, e sinceramente, dizer que alguém não merece viver, ser feliz, porque isso ofenderia ao seu Deus, a sua religião, é a coisa mais cruel que poderia sair da boca de alguém. Se se acredita em um Deus de amor, como os praticantes de uma determinada religião que se utiliza desse Deus podem ter tanto ódio?

Quando eu aprendi o significado de Namastê eu passei a entender que devemos ser gratos de alguma forma ao Universo, sermos gratos por aquele atentado ter nos mostrado que mesmo em meio a todo aquele ódio existe amor, sermos gratos por nosso amadurecimento em compreender que o “eu” não existe e sim o “Nós”, sermos gratos por cada pessoa que ensina seus filhos que as pessoas devem amar e respeitar seus semelhantes, sermos gratos por cada lágrimas que derramamos e por isso nos ensinar que devemos lutar para que as pessoas possam se amar sem barreiras, sem prisões, sem ser no escuro do cinema, para que possam se amar em qualquer lugar, sem medo e sem pressa.

Deixe o amor voar, deixe-o ser livre, na boca, nas mãos, nos toques sem censura. Quero amor por todos os lados, por todos os cantos.

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GOFFMAN Erving. Estigmas – Notas sobre manipulação de identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogar, 1988

MORIN, Edgar. Por uma reforma do pensamento. In. Alfredo Pena-Veja, Elimar Pinheiro do Nascimento (Org.), O Pensar Complexo – Edgar e a crise da modernidade – Rio de Janeiro, Garamond, 1999.

 

Feminismo, Filme, Filmes, Homofobia, Preconceito, Resenha, X-MEM

Uma louca analise de X-MEN Apocalipse

xmenapocalypseimaxAssistir X-MEN é sempre interessante, você nunca sabe o que te espera, eu prefiro começar esse texto não sabendo sobre como vou falar do filme. Começo dizendo que essa não era a minha primeira opção, mas a sala que exibiria Warcraft estava quebrada então X-MEN era o que tinha para hoje.

Vou dizer que o filme acabou me fazendo refletir mais sobre como as pessoas são hipócritas do que com o próprio filme, explicarei os motivos que me levaram a essa conclusão em instantes, para não tirar o foco da crítica, aliás se tiver com dinheiro sobrando não assista em 3D principalmente se for no Cinesystem do Shopping Via Brasil no RJ. Aliás essa rede de cinema possui ótimas promoções aproveitem, principalmente com a pessoa amada.

Por falar em pessoa amada, estamos a quatro dias do “Dia dos Namorados” e tinha um casal que iria assistir X-men na mesma sala que eu, e o que tem de anormal nisso? O casal não segurava nas mãos, apenas conversavam juntos, alguns sorrisos, brincadeiras, conversas nerdes sobre o enredo dos outros filmes de heróis que estreariam, mas nada de beijos e nem relação de afeto. Isso é muito estranho!

Imaginem-se nessa situação, você ir assistir um filme que fala basicamente sobre  Lutas contra qualquer tipo de preconceito existente no Mundo e você não poder demonstrar amor com uma pessoa por ela ser do mesmo sexo que você. Realmente é de se dá um nó em qualquer garganta.

A bilheteria de X-MEN alcança milhões de pessoas assim como as Hqs e séries animadas, mas as pessoas ironicamente são impedidas pelos mesmos fãs de demonstrar seu amor em público, de dizer um “eu te amo” de abraçar e se beijar, os dois meninos, que sentaram na mesma fileira que eu e meu irmão acabaram por finalmente se renderem ao amor, no escuro, longe dos olhos julgadores e inquisitórios, seria irônico se não estivéssemos a 53 anos do primeiro lançamento de X-MEN, as pessoas ainda são obrigadas a se esconderem em máscaras para não serem julgadas e condenadas a exclusão por outros que as veem diferentes.

Vamos ao filme meu povo!

Para os amantes de efeitos especiais a FOX não fez lá um trabalho grandioso nível Disney, mas deu para o gasto, o roteiro ao contrário do que eu pensava que seria foi bem elaborado, o que não significa que existiu sentido nele, já que se quebrou completamente a ordem cronológica da história, e se você for um amante da série tanto quanto eu, abstraia de sua mente tudo que sabe e conheceu sobre os X-MEN, sente na cadeira e assista, apenas assista e procure os símbolos comunistas embutidos pelo filme! Sim, possuem muitos, incluindo frases! Aproveite e procure também Stan Lee, quem sabe ele te convoca para a escola de Superdotados!

Alguém que vocês não devem procurar nesse filme é Wolverine, vocês só vão conseguir encontrar Logan e uma breve referência aos dias de seu passado antes de encontrar o professor Xavier.

Aos fãs que tinham alguma ilusão de vestígios da história original do Apocalipse, ou para os íntimos, En Sabah Nur, percam a esperança, não rolou as explicações esperadas para o viajante no tempo convertido em faraó, vulgo mentor de Nur, e muito menos para as primeiras manifestações de poderes do mutante, ao menos deixaram um vestígio de traição, mas sem o traidor.

Aos que sempre se perguntaram como Charles finalmente perderia os cabelos? Eles deram um jeito, no filme existiu um sentido não se preocupe, mas que passou bem longe da história original (a calvície do professor X nada mais é que, consequência de seus poderes). Mas nem só de cabelo vive nosso professor depressivo, Moira também estava presente nessa guerra, sem memória, com um filho e divorciada… ao menos no filme ela não deu “Adeus Charles, preciso de alguém como eu”.

Moira pode até preferir os carecas, mas eu curto os barbudos, nosso amado irlandês Michael Fassbender, o Magneto, agora é pai de família, amoroso e dedicado. (Roteiristas são tão criativos!) Infelizmente sabemos que a vida de Magneto não é fácil e não importa a merda que ele faça você vai querer o abraçar no final.

Já falei dos carecas, barbudos, falta os cabeludos, Alex Summers, o erro vivo (ou não) em continuidade, o Destrutor deveria ser o irmão mais novo de Scott e não o mais velho, mas veja pelo lado positivo o rapaz continua divinamente no vinho, mesmo após dez anos.

Mas se não curtir nenhum desses podem tentar o azuzinho, Noturno, aquela coisinha fofa filho da Mística, aliás isso fica subentendido, é aos que não conhecem a origem de Noturno (e gostaram do que foi dito no filme), não tentem conhecer porque vai bugar o celebro, roteiristas são pessoas malignas com papel e caneta na mão…

Falando em Mística, o que falar da Bela Raven Darkholme, (a personagem é tão maravilhosa quanto a atriz) nossa terrorista preferida que sempre salva o Mundo, seria interessante um filme que contasse a história dela, aliás Raven é Bi e isso explica o futuro envolvimento dela e da Tempestade que ficou subentendido nas cenas finais do filme, isso sim vai ser maneiro.

Se você é Fã da Ororo Munroe, vai ficar feliz, das histórias contadas a que mais coincide com os fatos mencionados na Hq é a dela, já que você verá muitas fases de Tempestade em um único filme, mostrando o quão ruim é a cronologia desse troço, então não se anime muito, só o suficiente para não chorar de raiva ao perceber os erros básicos que qualquer fã descobriria. Dica do dia foque em Nur a chamando de Deusa e fique muito feliz.

Super topo um filme dela com Pantera Negra!!!

Sabem o que eu gostei nesse filme além das mensagens de Comunismo e das mensagens de “seja você mesmo independente do que os outros pensam”? Eu gostei do protagonismo feminino! Tirando Mercúrio fruto de uma rapidinha do Magneto, todas as ações positivas do filme decorrem graças as heroínas e vilãs. O ideal de mulher é a Mística azul, que salvou humanos e mutantes, aquela que Raven tenta sempre esconder.

Mas falando sério agora, tirando “Dias de Um Futuro Esquecido” nenhum desses filmes de fato deveriam fazer parte da franquia, eles não seguem cronologia e muito menos o enredo das histórias originais, sinceramente eu acho desrespeitoso com os fãs que de certa forma cresceram lendo essas Hqs e aprendendo com elas. A impressão que dá é que eles jogam os personagens lucrativos nas histórias, capricham no surrealismo para justificar o gasto nos efeitos especiais.

Agora fiquei até com vontade de falar sobre os X-men! Aguardem!

*AH!!!! Se a pergunta que paira em sua cabeça é se esse filme faz sentido sem os outro? Sim faz sentido, não se sinta obrigado a assistir aos anteriores, porque esse roteiro é praticamente independente, ele possui sentido mesmo não tendo sentido. Mas se quiser assistir, assista aos dois últimos, principalmente ”Dias de Um Futuro Esquecido”.

* Aos que ficaram curiosos recomendo que procure por, “A era do Apocalipse”, vai te deixar com vontade de chorar quando se lembrar do filme, e olha que essa é a aparição dele no Universo Alternativo.

Feminismo, Violência

Eu não sou Culpada…

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Na madrugada de terça, 24 de maio, uma moça que poderia ser eu, minha irmã, amiga, conhecida ou desconhecida, qualquer uma de nós, ela foi violentada por trinta homens, que não satisfeitos com tamanha violência, ainda expuseram o vídeo em Rede Social, se vangloriando do ato, com frases como “ essa engravidou” e “foram mais de trinta”.

culpaNão se tem muito o que falar quando no dia seguinte ao ato, dia 25, a primeira visita pública ao Ministro da Educação, para se entregar uma proposta, provavelmente sobre as Escolas sem Partido, é um Estuprador confesso em Rede Nacional. Realmente não se tem muito a falar… principalmente quando o Suplente do atual Ministro da Saúde o deputado Federal Ricardo Barros (PP-PR) está preso desde fevereiro, Osmar Bertoldi, que teve a prisão decretada por cinco crimes, entre eles, estupro, agressão e cárcere privado da ex-noiva.

O Estupro, a cantada, o assédio, o cárcere, tudo isso é resultado de uma sociedade que ensina seus filhos a serem machos, a serem predadores, a não terem sentimentos e a tratarem mulheres como objetos de desejo sem vontades. Meninos são ensinados a serem abusivos, opressores, a excluir a eles mesmos, caso não caibam nessa concepção. Essa é a mesma sociedade que diz que a menina tem que ser sensível, respeitável, educada, linda, recatada e do lar, submissa aos homens.

O agressor se disfarça no comodismo dessa sociedade que não dá a nós (mulheres) direito sobre o próprio corpo. Se reclamos da cantada, eles dizem que são elogios, que é muito mimi; se reclamos das mãos, dos assédios, eles culpam nossas roupas, a bebida, a maquiagem; se somos colocadas em cárcere ou abusadas, a culpa é nossa, da nossa roupa, do horário que saímos, do local onde estávamos, por sermos infiéis, por dizermos não.

A sociedade grita na nossa cara que a Culpa não é do agressor e sim da vítima, eles nos culpam simplesmente por existirem.

Vivemos na cultura do Estupro, a prova disso é que a cada comentário que surgia criminalizando o ato, os agressores se justificavam dizendo que “a menina estava bêbada”, “se ela estivesse em casa estudando isso não ocorreria”, que “ela já estava acostumada”. A nossa sociedade banaliza tal violência assim como banaliza o racismo e a homofobia, tornando todos esses atos parte de uma rotina.

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Feminismo Empoderador (Página)

Rotina essa que faz parte da trama das novelas, onde um rapaz abusa de uma moça e é tudo romantizado, como se fosse algo normal, como se ela tivesse por obrigação gostar do ato que foi feito contra sua vontade. A televisão nos diz a cada instante como devemos ser e agir, nos dão um padrão idealizador de mulher perfeita que querem que sejamos.

Querem nos moldar, querem nos calar. Semana passada um ex BBB foi preso acusado de estupro, ao invés das pessoas culparem a ele, culparam a menina que tinha 13 anos que o “seduziu”, as reportagens ao invés de falarem dos crimes sexuais contra menores, falaram de como os “pobres” homens são enganados por menores de idades em baladas…

Ainda hoje, 26 de maio, me deparei com uma notícia na página do Coletivo de Mulheres da UFRRJ, uma das estudantes que havia sido violentada dentro do campus havia se matado. Essa estudante foi vítima não só desse agressor, como de toda uma comunidade que tentou culpabilizar a ela pelo ocorrido. Tal qual fez um professor das Ciências Sociais (UERJ), em uma postagem de uma amiga, que praticamente disse que uma mulher não pode entrar no quarto de um desconhecido.

Culpar, é isso que o Projeto de Lei 5069 pretende fazer, culpar a vítima, fazer ela se responsabilizar por algo que não teve culpa, a PL em questão, dificulta mulheres que sofreram violência a abortarem, aliás não só isso como também torna a essa criminosa, diz que ela tem que ser presa.RTEmagicC_violencia-contra-mulher.jpg

O nosso corpo não é nosso, é isso que esses babacas nos falam a cada segundo.

Não importa a idade dela, ou quem ela era, se tinha filhos ou não, se traiu o namorado ou não, se era viciada, o lugar onde se estava, nada disso importa, isso são apenas justificativas para que cada vez mais possa se culpabilizar a vítima. É isso que a nossa sociedade faz, culpa a vítima, por sua roupa, por seu batom, pela hora em que se encontra na rua, por ser mulher.

            Quem nunca tevê medo de andar sozinha na rua? Quem nunca desconfiou de um carro que misteriosamente diminuiu a velocidade no momento em que você passou por ele? Quem nunca teve seu corpo vítima dos olhares inquisitórios de homens? Quem nunca tevê medo dentro da própria Universidade? A grande realidade meus caros é que ser mulher nessa sociedade machista é praticamente nascer predestinada a sofrer com isso, como se nós, por sermos mulheres tivéssemos, que pagar uma pena por isso.

            Pena, punição… É isso nos culpam e nos penalizam, se vamos a delegacia relatar um caso de violência, nos tratam como loucas, nos olham como culpadas, impõe a nós uma outra violência que nos faz sentir uma #RaivaComRazão, aliás essa é a Tag nova levantada pela Organização Think Olga.

            prmeiroassedioA Culpa não é minha, a culpa não é nossa, a culpa não foi dela, da roupa, do lugar, da droga, a culpa é dessa sociedade que a culpou, a culpa foi dos 30 homens, pais, filhos, irmãos, a culpa foi deles, eles foram os criminosos, eles cometeram o ato, eles não se pronunciaram em defesa da vítima, nenhum deles e assim se fez 30 contra uma.

Aos homens que leram esse texto, nós não vamos nos calar, vamos gritar, não foram 30 contra uma, foram trinta contra todas nós. A cada dia sofremos com esse machismo enraizado em nossa cultura. Nós merecemos andar na rua sem nos preocupar a cada 10 segundos com quem está atrás, merecemos ser livres e não enclausuradas em um mundo que nos culpa por tudo.

 

 

Feminismo

Além da Bela, recatada e do lar…

Bem amores eu não vou ”Colar” o texto aqui, mas vou deixar o link para que vocês possam visitar minha ilustre participação junto com a Ana Luz, no blog ”Terras Frias”:

Enquanto eu lia a reportagem em questão, algo muito interessante se fez presente, Marcela não tem voz na matéria, ela é mera figurante em uma reportagem que a torna estrela. Não se tem a fala dela, sabemos quem ela é pelos olhares dos outros, pelo cabeleireiro, pelo marido, pela irmã, pela mãe, mas nunca por ela. A mulher perfeita, dona dos versos quentes do vice-presidente é também uma mulher sem voz, que não se definiu ‘’Bela, Recatada e do Lar’’; a definiram assim, e exatamente por isso ela se tornou calada, ela foi calada, e idealizada.

Clica aí para ler esse texto!

http://www.terrasfrias.com/2016/04/alem-da-bela-recatada-e-do-lar_22.html

Racismo

Que Mimi é esse Dona Isabel?

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Dona Isabel que história é essa de ter feito abolição,
De ser princesa boazinha que libertou a escravidão
Tô cansado de conversa, tô cansado de ilusão
Abolição se fez com sangue que inundava este país
Que o negro transformou em luta cansado de ser infeliz
(Mestre Toni Vargas)

Amados Leitores, voltei após o carnaval e aniversário sobrevivi a ambos e continuarei tentando sobreviver até segunda feira, mas vamos ao assunto.

Tive muitas inspirações para esse texto uma delas meu próprio grupo de amigos que desconheciam haver racismo, que atos de racismo são só um grande mimi e que adivinhem só, de acordo com eles as oportunidades são as mesmas para todos, conseguir ou não algo vai depender da força de vontade da pessoa, afinal ano passado tivemos aquele senhor que concluiu a faculdade de direito com mais de cinquenta anos pedalando de bicicleta todos os dias… (HAHAHA senta lá Cláudia!)

Grande exemplo com toda certeza, mas o interessante a se pensar é porque esse senhor só voltou a estudar depois de tanto tempo? Pobre, negro, pedalando quilômetros com uma bicicleta… Qual o motivo dele ter abandonado os estudos? As oportunidades são as mesmas para todos? Porque ele só voltou agora e porque mesmo com essa idade avançada ele continuou trabalhando como pedreiro, pedalando ao invés de viajar de ônibus? Amados se vocês acham que isso é mimi, é bom parar a leitura por aqui!

É inevitável olhar para a rede pública de ensino dos grandes centros urbanos, no meio das grandes favelas é caracteriza-la como um lugar de gente pobre e/ou negra, é interessante você vê uma constante de pessoas com menos de 18 anos tendo que trabalhar para alcançar sua liberdade, para ajudar em casa, para ter o que nunca possuiu… Algumas dessas pessoas em algum momento de suas vidas vão optar pelo trabalho aos estudos, vão estudar a noite, vão chegar atrasados, vão dormir no último tempo e reprovar nos primeiros… Igualdade…?

Quando essas pessoas alcançarem a Universidade vão perceber que a Universidade Pública não é para pessoas pobres, não, realmente não é. Professores inflexíveis que se acham os reis por terem um Concurso Público, um horário que mesmo não sendo integral se torna integral, e coleguinhas de outros cursos que se acham superiores a você só por não possuírem cota, por não precisarem trabalhar para se sustentar e muito menos enfrentar o transporte público para se chegar a Universidade e consequentemente não contar as moedas.

Não, eu não era cotista, levei marmita, contei moeda, repeti a roupa, não comprei a xerox, já pensaram que eu fosse, digo com muito orgulho que se eu fosse seria muito feliz, alguém tem noção de quão difícil é passar por cota? É, é muito difícil, fora o fato de você conseguir manter o lindo benefício que não dá para nada no fim no mês. Minha total admiração aos cotistas que por muitos anos foram e são melhores que muitos não cotistas… Digo mais, o número de Cotas não sustenta o número de gente que precisa dela em uma Universidade Pública…

Refletindo aqui sobre todo esse mimi que me acusam, percebo que boa parte das minhas amigas não me consideram negra…, meio difícil eu sei, mas quem não se lembra do caso da ex-Globeleza Nayara Justino, a acusaram de ser negra demais para o padrão estético da Globeleza (UAI????), a mulher foi substituída do nada. E aí eu percebo pela segunda vez o quão o FDP é o Racismo, nós negros não nos consideramos negros no Brasil porque sentimos medo da repressão que o “ser negro” representa e por vezes denominações como, moreninha, mulata, morena, são melhores do que se ouvir falar que é negra…

Para não esquecer galera sou contra a Globeleza e toda a ideia da erotização do corpo da mulher negra, principalmente no carnaval, comerciais de cerveja com toda aquela ideia do corpo do pecado, pouca roupa, quero descobrir porque nesses momentos não vejo a coleguinha loira, alta e branca? Sem falar claro nas fantasias sem noção de Nega Maluca, a história em torno de tal fantasia é que ela era uma escrava que foi abusada e engravidou do rapaz branco, cara isso não é engraçado é cruel, é abusivo, é machismo a mulher não era maluca…

Eu me considero negra, meu pai é negro, meu avô era negro e por ter a pele um tom mais claro que a deles, muitas das amigas me acham “morena” e por eu ser “morena” admito que tenho certos privilégios que nem meu pai e nem meu avô tiveram, sou consciente disso pois já cansei de ter que sair do carro do meu pai para revistarem, da última vez rolou até uma ameaça com arma… Uma arma a menos ou a mais quem liga? (é só mimi galera, vitimismo!)

Preta, pobre e favelada é assim que eu me considero, mesmo com o privilégio (perante a sociedade) de eu nascer com um tom de pele mais claro (“moreninha”) eu sou constantemente vigiada quando vou a shoppings na Zona Sul, lá eu não tenho privilégios, eu sou negra (sério, mesmo?), minha roupa não é de marca, meu sapado não é importado, meu óculos de sol é da SAARA e bem meu Cabelo é meu Cabelo livre, leve e cheio, lá eu sou negra, pobre e favelada e em alguns momentos descabelada.

Um dos detalhes que eu constantemente toco no assunto é que eu sou Pedagoga, recém formada, e isso me permite ver por muitos ângulos uma mesma situação, eu tinha uma amiga que fazia estágio em um renomado colégio da Zona Sul do Rio, ela é negra e em um determinado momento do estágio ela trançou os cabelos, adivinhem o que aconteceu? Sim começaram a reclamar disso, (reclamaram do Black também)… Mas gente é só um cabelo… Um cabelo que para muitos é simbolismo da resistência, da cultura, da sobrevivência de uma raiz… Dou um doce para quem adivinhar se o quantitativo de crianças negras nessa escola era proporcional? Não, não era, aliás nem na escola que eu fiz estágio na Tijuca, (Considerada alternativa!) mas fato é que algumas dessas crianças não se identificavam com o cabelo da minha amiga e achavam o próprio cabelo feio.

Vou aproveitar todo esse papo com a escola e vou falar sobre um assunto que essa semana me teve entalado na garganta…

Deparei-me com aquela imagem do menino negro vestido de Abu (o macaco de Aladim) demorei bastante tempo para conseguir assimilar o acontecimento, confesso meus sentimentos foram deverás ambíguos, de acordo com os pais não foi intencional e não iriam expor a criança a isso. Fato é que tal foto gerou polêmica principalmente pelo fato da criança ser adotada, e eu de verdade prefiro acreditar no amor desses pais que não se identificaram com as lutas que futuramente seu filho enfrentará apenas por ser negro. (APENAS!)

Que o diga Kaike Pereira de 13 anos, ator da Rede Record!

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Mas vamos debater esse assunto de forma social? Uma criança negra vestida de macaco? Meus amores o macaco poderia até ser o King Kong ainda assim em uma sociedade como a nossa isso é racismo sim! Crianças negras independente da classe social são constantemente chamadas de Macacas, nós vivemos em uma sociedade que faz questão de lembrar que os negros descendem de escravos e que faz questão de dizer que por esse fato merecem estar subjugados aos piores empregos, as piores condições, aos piores tratamentos, por esse fato merecem continuar na senzala, na cozinha da casa grande cuidando dos filhos dos patrões. Muita gente prefere se esconder atrás do rótulo de morena, parda, mulata pelo simples fato de não quererem estar subjugados ao estigma social que o branco impôs ao ser negro.

Não se conta toda a história de quando foram escravizados, retirados de suas casas, de quando arrancaram seus filhos dos braços, destituíram seus líderes, queimaram suas lembranças, mataram seus homens, abusaram de suas filhas e mulheres… Os Deuses, a Cultura os sonhos foram esquecidos, aniquilados e convertidos no que o Ocidente chama de pecado, misticismo, crença!

O menino em questão foi adotado por um casal de poses, vai morar em um bairro legal e conforme for crescendo vai perceber que o fato de ele ter sido adotado por um casal branco não o protegeu dos desatinos da vida, ele não é branco, ele é um negro em um local de branco e constantemente vai ser encarado como o “coitadinho que foi adotado” e/ou “eterno menor abandonado”…, vai enfrentar os coleguinhas brancos na escola que o consideram diferente, vai vê aquela foto sua da infância vestido de Abu sendo usada como justificativa para os xingamentos, não vai se identificar com seu cabelo, com sua cor e vai crescer sobre constantes olhares estigmatizadores, principalmente quando começar a frequentar os lugares chiques da Zona Sul ou encarar a polícia subversiva que aponta a arma, bate e depois pergunta.

Vivemos em um país que diz que “o Racismo está nos olhos de quem vê”, “O mundo tá chato”, “se a criança fosse branca não teria esse problema” “isso é drama é se fazer de coitado”… E esse é o grande Xis da questão, a criança branca não vai crescer estereotipada com milhares de preconceitos e olhares tortos em sua direção enquanto entrar em uma loja, a criança branca não vai ser chamada de macaca pela simples comparação de sua cor, com atos referentes a líderes religiosos que diziam na época da escravidão que negros eram animais e não tinham alma.

Que fique bem claro caro leitor, se vocês acham que só porque uma pessoa é de classe média ou da rica, milionária, ela não irá sofrer preconceito, não eu não digo isso, isso é uma inverdade… A prova disso são os Artistas globais nacionais e internacionais que vira e mexe são vítimas de injúrias raciais, a prova disso são os pesquisadores negros que são constantemente barrados nos eventos em que são palestrantes. A prova disso são aos donos de carros, de prédios, de lugares que são confundidos ou com o motorista, com o vendedor ou com o assaltante, A prova disso são os moradores dos condomínios de dois elevadores (o de serviço e o convencional) que constantemente recebem um olhar devastador, aquele olhar, de que o lugar deles não é ali, não é naquele elevador, naquele condomínio, naquele bairro, naquele carro, naquela novela, naquela universidade….

É e se no fim você continuar vendo tudo como um grande MIMI de gente que só que se vitimizar, seja feliz pois você é um grande privilegiado socialmente!

(Texto bisoiado pela Alyne Ferreira, a amiga das trancinhas que eu citei!)

Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo?

Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele a tal ponto que você alveja para ficar mais branco.

Quem te ensinou a odiar a forma do seu nariz e lábios?

Quem te ensinou a odiar você mesmo da cabeça aos pés?

Quem te ensinou a odiar os seus iguais?

Quem te ensinou a odiar a sua raça tanto que vocês não querem estar perto uns dos outros?

É bom que você começar a se perguntar quem te ensinou a odiar o que Deus te deu.”

 – Malcolm X – Por qualquer meio necessário.

Texto de Juliana Marques postado em 15/02/2016

Feminismo, Padrão

Padrões: o vírus da normalidade

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Estava pensando a respeito do que escrever essa semana, acabei me deparando com os milhares de compartilhamentos sobre a Boneca mais famosa dos últimos tempo, sinônimo de beleza e moda, mesmo sendo difícil admitir ela é o ideal de beleza de muitas meninas e a idealização de muitas pessoas sobre o quê é ser mulher…

Ainda no começo dessa semana comecei a me perguntar o motivo desses milhares de compartilhamentos a respeito das novas formas da boneca que mais impõe rótulos, todas poderemos ser enfim contempladas pelos novos pedaços de plástico moldado? Na verdade, não.

A velha boneca, branca, loira, magra e de olhos azuis continua intacta em sua onipotência de que ela é a soberana, ela não é negra, nem tem cabelos de caracóis, não tem medidas acima do 36, continua intacta assim como sempre esteve, não utiliza a cadeira de rodas tal qual Becky, sua miga, aliás Becky nem mesmo é produzida hoje, enquanto a Barbie continua sendo a atriz principal dos seriados, filmes e jogos de videogame “para meninas”.

Milhares de meninas assim como eu já tiveram ao menos uma Barbie em suas mãos, já olharam para ela e para o espelho ao mesmo tempo, já alisaram tanto os cabelos com a escova que chegaram a arrancar os fios, não se identificaram com a cor da pele, já quiseram ser a Barbie em frente ao espelho e se tornaram-na não porque quiseram, mas sim por ser uma imposição e por esse motivo, só por esse eu entenda que o motivo de tantos compartilhamentos.

Mas esse fato não irá inibir a exclusão e o desencantamento diante ao diferente, Becky deixou de ser produzida depois que a fabricante passou sua mensagem de apoio aos deficiente, mas continuam tendo crianças deficiente, elas não deixaram de ser deficientes, não deixaram de ser excluídas. Eu entendo o encantamento diante a essa nova ideia de ter perto de si tantas bonecas brancas e de olhos azuis e não se identificar com nenhuma, mas eu também entendo que para a empresa tudo é apenas um jogo de mercado, onde bonecas são simples pedaços de plásticos moldados para se reproduzir padrões e se ter lucros.

            Nos deparamos com o século da comunicação, século XXI onde nada é impossível, nada é improvável, onde a verdade pode ser vista por vários ângulos e a mentira essa pode ser facilmente escondida atrás de algumas palavras, padrões, costumes, gírias, gestos, em geral tudo que utilizamos em nosso rotina, é nos passado como algo natural acarretando um processo que ignora e recrimina o diferente, cria-se um estigma sobre  aquele determinado indivíduo que tem condutas que frustram a normalidade daquela sociedade, nós criamos um sistema em que nos tornamos objetos de nossas ações, nós nos vigiamos e vigiamos o outro, ” a domesticação foi algo que os seres humanos sempre fizeram para melhorar e assegurar as suas vidas quotidianas ” (SILVERSTONE, 2006).

simpsonlisaA mídia televisiva acompanha os acontecimentos rotineiros, existe um episódio dos ”Simpsons” de 1995 (Lisa e a Boneca Falante), em que se satiriza o poder da Barbie que durante anos vem impondo a meninos e meninas formas de pensar, o padrão de beleza, comportamento e etc…, nesse episódio Lisa compra uma boneca Malibu Stacy falante, cuja as frases da boneca são de total submissão ao sexo masculino, ”Não me pergunte, sou apenas uma garota”, ” vamos fazer compras?”.

            Lisa Simpson a personagem budista, vegetariana, politicamente engajada é a personagem ideal para se discutir esse tipo de assunto, nas diversas imagens de seu futuro ela é mostrada como alguém que quer mudar o mundo, sofreu Bullying por sua forma de se vestir e se portar, essa é a imagem criada para destoar de todo um universo que vê e desenha o feminino como algo frágil e quebrável muitas vezes ligada a sensualidade e ao sexíssimo, onde até mesmo quando meninas que não se identificam com a figura frágil das princesas querem ser heroínas, vão se encontrar presas ao estereótipo do corpo perfeito, das curvas e roupas curtas.

            Lisa Simpson é cada uma das crianças, entre meninas e meninos que já quiseram se encaixar na pequena caixa da Barbie na qual não cabiam, a idealização do que é ser mulher e do que é ser homem começa a ser empregada ainda na infância, é na infância que as frases do que pode e que não pode se fazer de acordo com seu sexo começam a ser textualizadas.

“Não bata como uma menina”, “Não senta assim”, “essa boneca é a sua cara”,

 “se comporte como uma mocinha”, “meninos não brincam de casinha.”,

“Larga isso aí, isso é da sua irmã”, “Isso é coisa de Frutinha”.

“Meninas brincam de boneca e meninos de bola”

            Essas e tantas outras frases já fizeram parte da vida de muita gente… A exclusão e a domesticação, o olhar inquietante do outro para aqueles que não se adequam a um padrão social, aos que não tem uma tribo, aos que são diferentes e não se importam com esse fato. Esses olhares impõem estigmas, como se a diferença entre o eu e o ele, fosse um crime, impõe ideias, conceitos, o diferente se torna a ameaça e por ser uma ameaça a suposta normalidade, busca-se a exclusão.

            No clipe de 2004 ”Barbie a princesa e a plebeia”, são informados os hábitos que uma princesa tem que ter, ”ter mil sapatos”, ter ”conduta exemplar’‘ além de informar que mesmo se ela ‘‘não gostar, ela tem que dizer sim”. Nos remetendo novamente ao papel do masculino e do feminino e de como essa ideia é trabalhada na mídia, porque as meninas não podem brincar de jogos de guerra? Porque elas têm que saber se comportar bem? E principalmente porque meninas não podem ocupar determinadas profissões, ter carreiras de sucesso, porque não se pode ter a representividade do que é ser mulher?

No episódio já citado dos Simpsons, Lisa tenta fazer de tudo para mudar essa imagem que a boneca tenta passar, ela contata a criadora da boneca e sugere que ela possa ser a modelo (físico) para a criação, mas segundo a criadora ela não tem o ‘‘padrão (estético) perfeito”, assim como a MATTEL que cria outras bonecas para mostrar a ‘‘diversificação’,’ mas no final o plástico apenas mudou de cor.  Quando Lisa finalmente consegue com a ajuda da criadora da boneca uma nova boneca batizada de ”Lisa Coração de Leão”, no qual as frases eram encorajadoras, elas não conseguem sucesso porque o dono da franquia da Malibu coloca um chapéu na boneca que fora isso continua a mesma, incluindo as frases.

A nova reforma do visual da boneca de nada significa, não importa se vão ser sete tons de pele, quatro tipos de corpos, 22 cores de olhos e 24 estilos de cabelos diferentes, nenhuma delas será a Barbie, porque essa segundo a mensagem da própria fabricante continua sendo única e perfeita e todas as outras são só as amigas da Barbie. Seria cômico se não fosse trágico a empresa após 57 anos de imposição de uma beleza esteticamente impossível de se possuir, resolve contemplar e reconhecer outros tipos de mulheres, será que essas mulheres agora contempladas deveriam sorrir e agradecer ou deveriam rir da cara da fabricante, afinal sua existência não depende do reconhecimento de uma boneca, dentro desses 57 anos inúmeros padrões de mulheres sempre existiram. Ironicamente tal fato ocorre justamente quando segundo o jornal Eliane Brum, El País, quando houve uma queda significativa nas vendas.

Dentro desse círculo de 57 anos muita coisa aconteceu, mulheres se tornaram presidentes, venceram lutas em ringes, lutaram pelo protagonismo, por respeito, por igualdade e reconheceram que não é uma boneca magrela que vai nos fazer ser mulher, amaram seus corpos, reconheceram suas diferentes belezas. A mídia embuti a ideia da mulher perfeita em formas de plástico e potes de creme apenas para se enquadrar dentro de um mercado, não existe perfeição, mulheres vão continuar sofrendo com o machismo, vão continuar a ser ensinadas a ser submissas e a entrar em um padrão para não ser excluída, mulheres vão continuar lutando por direitos, respeito e igualdade.

Não é necessário presentear uma menina com uma boneca para ela saber o significado do que é ser menina, ela tem o direito de ser o que quiser, de jogar bola e brincar na lama inclusive ela tem o direito de não ser menina.

Fontes de pesquisa:

Novos Regimes de visualidade e descentramentos culturais

Jesús Martín-Barbero

Gênero Sexualidade e Educação / uma perspectiva pós-estruturalista

Guaciara Lopes Louro

Estigma- capítulo Estigma e identidade Social

Erving Goffman

Artigo: Domesticando a domesticando a domesticação. Reflexões sobre a vida de um conceito

Roger Silverstone

Fonte da imagem 1:

http://www.tumblr.com/tagged/malibu%20stacy?language=pt_PT

Texto Publicado originalmente em 07/02/2016 por Juliana Marques

Feminismo, Poliamor, Sexo

Solidão a dois… O poliamor e a complexidade de amar

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Imagem retirada do site: sucessonosrelacionamentos.com.br

 Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
você diz: já foi
Eu concordo contigo
você sai de perto
Eu penso em suicídio
Mas no fundo eu nem ligo
Você sempre volta
com as mesmas notícias (Cazuza)

 

Eu sou uma escritora de coisas pesadas, poucas, pouquíssimas pessoas sabem desse meu lado mais caliente, mas não é para mostrar meus textos que eu vim aqui, na verdade os leitores do blog raramente vão descobrir esse meu lado, entretanto entrei nesse tema por um simples fato eu acredito no poliamor,  o amor além das convenções sociais, um amor que não se contenta em ser só a dois, mas eu sou um contraponto, minhas histórias continuam sendo monogâmicas e cedendo ao que a sociedade acredita ser o certo.

A sociedade nos diz ‘’e viveram felizes para sempre’’, que ‘’ele era o único e verdadeiro’’, que ‘’só existe um único amor’’, isso não é mentira, mas também não é verdade, existem pessoas que amam demais, que não se contentam em sentir um único olhar e que amam amar e não se sentirem presas a determinadas convenções. Existem pessoas que amam amar loucamente o mundo, que dizem “eu te amo” para o vento enquanto beijam o mar.

O poliamor não é um fetiche, veneração a masculinidade ou feminilidade, poliamor é assumir um amor além, com respeito, com diálogo, um amor partilhado e ao mesmo tempo ampliado, amar é se doar, estar em um relacionamento poligâmico é entender que todas as partes, tem voz, não existe líder, existe amor, não se ama sozinho, se ama sendo correspondido, partilhando e não se reprimindo, afinal poli no latím significa vários, amor entre várias pessoas.

Amar, amar e amar muito, isso é poliamor, é sentir e ser sentida entre os versos de mais de uma boca, entre os olhares horas tão calmos, horas devoradores, poliamor é desejo, tesão, carinho, atenção.

O fato de eu acreditar no poliamor não significa que eu não entre em um relacionamento a dois, significa apenas que eu aceite que existam enumeras chances de eu me pegar amando alguém que não é meu companheiro, significa que meu amor não cabe a nós dois, significa dizer que eu vou me sentir só em algum momento por não estar completa, significa dizer que eu provavelmente seja uma pessoa bem resolvida quanto a minha sexualidade e que não imponha sobre ela rótulos.

A forma mais conhecida de poliamor é a poligamia, essa forma na verdade é bem recriminada pelos que acreditam no poliamor, (tipo eu), a ideia da poligamia se encontra ligada a arem, a disputa ciúmes e muitas vezes ao não diálogo, em sua maioria não existe um convívio entre todos e só entre o casal, a figura central e seus ou suas parceiras, é um relacionamento a dois, baseado no controle e na afirmação de poder.

A polifidelidade como o nome diz preza a fidelidade dos membros daquele relacionamento, seguindo as regras da monogamia, eles se relacionam entre si e são felizes assim, se relacionando e se amando, todos ao mesmo tempo, ou não.

Existe ainda os famosos relacionamentos abertos, onde os dois parceiros ou apenas um tem relações extraconjugais, baseadas apenas no desejo, continuam tendo um relacionamento a dois, não considerando as relações extras como traição.

Eu só entro em relacionamentos quando eu amo, eu entro em um relacionamento conjugando o verbo amar, mergulho, solto de cabeça, mas eu saio com a mesma sintonia que entrei quando não me sinto inteira, correspondida, minha inconstância me permite amar até mesmo quando o relacionamento termina, o amor não acaba ele estaciona e fica ali no cantinho, escondido, paradinho naquele local tão pequeno, esperando para ser desperto ou apenas abandonado ali.

O maior erro dos términos é a doce e perversa ilusão de se esperar que tudo vai ser apagado, não vai, vai ficar tudo paradinho ali, então uma boa forma de se terminar uma coisa é aceitar que iniciar aquilo não foi um erro, foi apenas um desvio, houveram tropeços mas também felicidades, acabe algo compreendo que você não é culpada ou culpado, as coisas só não podiam ficar daquela forma, por vezes imutáveis e não satisfatórias a ambos.

Amar é isso e também aquilo, amar é dizer sim e dizer não, amar é dividir e agregar, amar é odiar a sensação de se te amor. Amar é um erro matemático onde dois mais dois nunca dá quatro, amar é compreender que só você amar não basta.

Não existe amar sozinho, existe amar e conjugar com outro, ou outros esse amor, amar é se olhar no espelho e falar que “eu posso ser feliz”, é acreditar que sua felicidade só depende de você, amar é fazer sua felicidade com o outro, amar é se completar com erros e acertos, amar é ri e dançar na chuva apenas encarando aquele riso te admirando enquanto se embalava ali nos seus passos tortos.

Amar é  encarar que esse relacionamento, seja ele qual for, pode não dá certo, pode ser mal interpretado, você pode não saber lidar, amar é compreensão entre todos, amar não  é subjugar. O poliamor tá bem longe de ser uma relação de controle e sim de respeito e liberdade.

Muita gente acha que liberdade sexual, é o sexo sem camisinha ou transar loucamente, na verdade a liberdade sexual é sim você ter o direito de fazer sexo com que bem entender, é você poder falar disso sem ser recriminada, é entender os seus desejos e os desejos do outro, com respeito e cuidado (usem camisinha povo!), a liberdade sexual é o caminho para aceitar que somos livres para sermos felizes e construir ou não relacionamentos.

Devia ter amado mais / Ter chorado mais / Ter visto o sol nascer Devia ter arriscado mais/ E até errado mais/ Ter feito o que eu queria fazer (Titãs)

Construir um relacionamento não é pautar todos os seus sonhos no outro, longe disso, amar a dois, três, quatro, quantos forem é respeitar, dialogar e se tornar um sabendo que vocês não são só isso, é se amar, ter seus sonhos e sonhar com o outro. Amar se torna complexo quando se confunde com prisão, o amor não é feito de amarras… O amor deve se confundir com a loucura, com os desatinos, com a liberdade e com o respeito, não existe amar só com um.

Texto publicado por Juliana Marques no dia 22/01/2016