Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como um vendaval
Me joga na avenida que eu não sei qualé’
(Mulher do Fim do Mundo: Romulo Froes / Alice Coutinho)
Para todos que necessitam navegar por águas turbulentas e incendiar o que restou do Mundo, façam, façam sem dó, deixem o grito explodir, sintam a dor e não deixem as palavras morrerem na garganta.
Haviam muitas peças soltas no meu caminho, às pegar era algo relativamente complicado, já não era tão jovem, as mãos equilibravam coisas demais, algumas peças eram pequenas, outras estavam rasgadas, amassadas e até mesmo irreconhecíveis. Eram tantas, espalhadas por tanto tempo, que algumas eu até mesmo me recusava a resgatar, para onde eu iria não havia mais espaço para elas.
A viagem duraria tempo demais, tinha que ser dessa forma, dolorosa e demorada.
O choro embargou, a voz falhou e um medo que nunca pousou em meu peito começou a se fazer presente. Era uma viagem em um barco furado, remava com as mãos em águas turbulentas, me sentia sozinha, não havia direção, não havia para onde ir, para onde voltar, o que buscar, só restava isso, o frio, o vazio, o silêncio irreparável no fim do mundo.
Os cheiros se misturavam, me enjoava, tudo parecia se acumular em meu peito, busquei apoio no que era incerto, me engasguei com as palavras na minha garganta, a ânsia veio junto com a vertigem, eu queria colocar para fora tudo que sentia, gritei, um grito surdo, escancarado, machucado e ainda assim um grito entalado, que não causou danos, não causou estragos e se deteve dentro de mim.
O barco pareceu me compreender, mesmo sem uma ajuda relevante, me levou para longe, para um lugar escuro, onde eu poderia gritar sem me tornar um incômodo, onde todos poderiam continuar com suas vidas, curtindo seu próprio ritmo, vivendo sem me olhar.
Molhei as mãos, encarei meu reflexo, limpei os lábios, os mordi, arranquei sangue tentando desviar de toda a dor acumulada no peito, a pressão parecia aumentar conforme eu me afastava, o frio tão presente me paralisava, me encarava sem me reconhecer, não era a mesma, não era.
A lembrança do que minha mãe sempre me ensinou, com uma constância irritante se fazia presente, não era para confiar, mas eu insisti, deixei o copo, sorri, vesti uma roupa bonita e acreditei que seria diferente, foi, mas não de um jeito bom.
Gritei, gritei tanto que a garganta doeu, gritei tanto que por vezes isso pareceu alterar a reta do barco.
A vertigem voltava, o medo acumulava conforme as peças passavam por mim, o espaço claustrofóbico não me deixava escolha, o que antes parecia bom, agora parecia torturante, encarava meus medos, meu passado e um futuro incerto sem ter para onde fugir.
Queria gritar, queria quebrar as coisas, queria bater, mas não consigo, pareço ter perdido as forças, tudo parece bem diferente, é turbulento, indesejado, angustiante. A maresia me fazia colocar para fora o que eu nem sabia existir dentro de mim.
Quanto mais peças eu tentava resgatar, mais eu tinha que equilibrar com o que já estava dentro, o barco parecia afundar enquanto eu tentava construir um equilíbrio frágil e inconstante.
Eu não via mais a margem, não via nenhum ponto de apoio, tudo que via era a ilusão de que conseguiria me esconder, em meio aos meus próprios desejos de me afogar, de me deixar ir e desistir. Tudo que restava era isso, um frio mesmo nos dias quentes, a escuridão mesmo nos dias mais claros, o desequilíbrio imoral causado pelo meu próprio desencaixe.
O mar nunca esteve calmo, as ondas sempre foram tortuosas, o barco sempre balançou, me afoguei tantas vezes que até mesmo me pergunto como permaneço aqui, como ainda existo? Não sei dizer quem me tirou de dentro daquela água fria, nem quanto tempo fiquei nela, não sei qual mão segurei e nem por qual motivo eu fiz isso, mas ainda estou aqui, sem entender, sem saber como recomeçar, apenas seguindo a maré, seguindo sem rumo nesse barco cada vez mais instável.
Minha garganta doía querendo expurgar tudo que restava dentro de mim, meu corpo tremia, minha mente vacilava, a ânsia era um sentimento frequente, mesmo que não soubesse ainda pelo que ansiava.
Quanto mais eu me afastava, menos vozes eu ouvia, mas as que ainda insistiam, passei a responder o que queriam ouvir, só queria que me deixassem, que deixassem o barco ir, que me deixassem me perder, eu não queria voltar, mesmo que lá fosse tudo sombrio, vazio, e barulhento, mesmo que eu estivesse me afogando, ainda assim era longe o suficiente do mundo, longe das perguntas e das respostas, longe do relógio, do tempo, do espelho.
As peças que restaram, me faziam recordar de forma constante do queria esconder, os lençóis espalhados pelo chão, o grito preso na garganta, o toque brusco, os tombos, os joelhos ralados, me levantava sempre da mesma forma, tonta, o espelho marcava o tempo, e o relógio não dava trégua.
Suspirei, fechei meus olhos, não havia o que pedir, mas ainda assim pedi, implorei para tudo passar, me engasguei com o pranto desordenado, o balançar do barco era insistente, tudo que eu precisava era de uma pausa no silêncio, queria ouvir um grito que me tirasse do lugar, queria chegar logo ao meu destino, e encontrar uma direção segura, com uma luz que incendiasse tudo.
Nos últimos dias o único desejo que habita em mim é incendiar, incendiar as memórias, os pedaços largados pelo meio do caminho, o barco que foi minha âncora e que me trouxe até aqui. Nos últimos dias tudo que desejo é o fim, uma luz no meio do caminho, uma desculpa para não voltar, para não olhar para trás.