Amor, Ansiedade, cartas, Crônica, Crônicas 2026

O que restou de mim

Aos que fingem uma felicidade que nem sempre é verdadeira, desejo não só a sorte de encontrar pessoas que escolham acolher sua tristeza e permanecer no seu silêncio. Mesmo quando tudo parecer tempestade, ainda assim desejo um arco-iris no fim do túnel.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

(Se eu quiser falar com Deus / Gilberto Gil)


O meu futuro sempre me pareceu meio incerto, nunca souberam exatamente o que esperar de mim, quando parecia atender a todas as expectativas ainda assim, parecia não caber nos espaços destinados a mim, fui crescendo sem saber o que era, sem responder perguntas, cresci com medo de crescer, cresci querendo me esconder ao mesmo tempo que, cresci fingindo saber o que eu era. 

Me tornei um ótimo mentiroso, especialista em fingir sorrisos, um bom recepcionista, que mesmo quando a casa tá cheia, ainda assim se sente sozinho, tudo parece uma lembrança para o quão vazio estou, e não há nada que me doa mais do que deixar que percebam isso. 

Dói, dói mais do que eu poderia descrever, dói mais do que eu deixo que transparecer, as vezes tudo parece difícil de ser disfarçado, me sinto como alguém prestes a transbordar, um copo meio cheio embaixo de uma goteira que esqueceram de tampar, eu tento não soluçar alto, tento me esconder, tento não me deixar derramar, mas não dá certo. 

Cada gota que transborda, parece uma tempestade, uma angústia, um veneno alojado na carne, eu sinto o cheiro de sangue, só eu vejo a ferida aberta, me sinto paralisado, sem saber como reagir, tenho medo. Tento me esconder em conversas, risos, festas, para afastar essa sensação, mas aqui dentro tudo piora, se alastra, se torna maior, tudo sangra, manchando meus passos aonde quer que eu vá. 

Às vezes meus dedos ansiosos buscam uma distração, criam histórias, curtem memórias, me fazem ler coisas que eu não queria, e até mesmo isso me parece uma punição em loop. Se eu fechar os olhos me perco em um lugar deserto, que ecoa as vozes daqueles que acham saber tanto sobre mim, que enfatizam minhas quedas, que me fazem sangrar bem mais do que os arranhões adquiridos. Eu me perco com certa facilidade, nesse lugar, ninguém parece me encontrar aqui e mesmo que seja solitário de alguma forma me sinto confortável. Lá, até mesmo a dor é previsível.

As vezes prefiro me perder ali, naquele deserto frio e solitário, do que conviver entre os conhecidos e desconhecidos, eu não gosto de surpresas, não gosto de esperar ser machucado, não gosto de depender dos sorrisos, dos abraços e das migalhas de afagos. Eu sei que eles sabem que eu sangro, sei que me olham, mas ainda assim, eles não parecem ligar, parecem achar divertido e até mesmo inapropriado, exigem de mim um excesso de mentiras que eu não sei fazer existir. 

Não que eu desgoste deles, mas os anos fazem tudo ficar ainda mais difícil, eu não consigo olhar para o passado sem me entalar com o meu silêncio, sem me machucar, sem querer arrancar de mim esse sentimento, por vezes sinto-me como se cada palavra fosse o suficiente para me fazer transbordar, para me tirar o ar, para me colocar em uma prisão sem portas e janelas, onde só escuto palavras que me machucam. 

Eu não tenho para onde fugir, não tenho como fugir, a mistura de aromas parecem me atravessar, a cabeça dói, a sensação de afogamento se transfigura ali, tento me mover mas tudo que consigo é me arrastar mais para baixo. 

Eu tento, tento de verdade ser a minha melhor versão, fazer da melhor forma, vestir a minha melhor roupa e fingir que eu não ligo enquanto me perco em silêncio. 

Mas ainda dói.

Tudo dói e eu não sei como parar, não sei como pedir para que parem, não sei não me machucar. 

Não sei… 

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