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A valsa dos desavisados

Escrevo para todas que necessitam gritar para recomeçar, para todas que sentem seu mundo ddesabar em uma noite de domingo e precisam buscar forças para recomeçar na segunda.


Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não, e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo como se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

(Oswaldo Montenegro)


O cheiro amadeirado tomou conta do ambiente e se misturou fácil ao cheiro da chuva, trazendo lembranças. 

Já era noite.

Os gritos acusatórios atravessavam o quarto de quem deveria não ter preocupações. 

Acordou, se escondeu, tentou inventar histórias e escapar de tudo que acontecia do lado de fora do seu castelo. 

Não deu certo.

Ouviu o som dos passos pesados e apressados, pensou ter acabado, mas não houve coragem para sair dali, tentou fechar os olhos e fazer o que mandavam, “dormir”. 

Lá fora, não havia despedida, ou um último toque, só restou lembranças.

Algumas dolorosas demais para serem registradas, mas ainda assim ficaram marcadas, como um álbum de fotografia antigo demais para ser recuperado.

Tudo que restou foi o cigarro apagado por cima do móvel antigo, as cinzas abandonadas e levadas pelo vento.

As lágrimas logo vieram, o soluço forte, o ego ferido entorpecido por momentos felizes. Ela queria que ele fosse, mas mesmo ele indo, ainda assim ele ainda parecia dominar todos os passos da sua vida.

Gritou. 

Gritou forte, não acreditando no que aconteceu, sentiu nojo, sentiu vontade de colocar fogo em tudo, nos lençóis, na cama, nas fotografias que registravam todo aquele tempo. 

Se sentiu perdida, abandonada, traída, culpada. 

Seus pensamentos buscavam uma resposta para compreender quando aquilo se iniciava, se em algum momento havia sido diferente, riu de forma amarga, não havia desculpa, ela sabia que não havia, sempre houve sinais demais que ela preferia ignorar. 

Sempre foi tão mais fácil colocar a culpa em si, sempre… Não entendeu bem quando deixou de ser fácil, de ser lascivo para se tornar apenas casto, barulhento e ainda assim perverso e sem sentimento. 

Tossiu engasgando-se, fechou os olhos e lembrou de tudo que falavam, parecia que teria que aceitar a imperfeição dos fatos, não havia remendo, não havia como reparar.

As mãos se fecharam, as unhas machucavam, a dor parecia mínima diante a tudo que sentia. 

Engoliu o choro, hoje era domingo, mas amanhã seria segunda, o tempo continuaria a girar mesmo sem ele, mesmo sem as palavras, mesmo sem os toques, mesmo sem tudo, ela ainda teria que continuar. Sempre teve, mesmo quando todos não percebiam que seu mundo desabava, ainda assim ela sempre teve que continuar. 

Fingiu sorrisos, fingiu gostar, fingiu que a culpa era sua…, não seria tão difícil fingir que nada havia mudado. 

Sentiu a bile subir a garganta, engasgou-se, perdeu a força e se jogou por ali mesmo, preferiu esquecer que do outro lado da porta a frente existia um outro alguém que também chorava. 

Precisava ser egoísta, não havia muito tempo, ainda era domingo, mas logo seria segunda e com ela iriam surgir as perguntas, os debates, e ela não estava preparada para isso. Não estava, nunca esteve. 

Queria ser corajosa, mas sentiu-se covarde, o peito ardia tanto que parecia inflamado, a respiração era tão desritmada quanto a tempestade que caía, se lembrou do que queria esquecer, não mandou mensagem, não ligou pedindo colo, apenas permaneceu ali, esperando a segunda chegar e tentando descobrir como seria o recomeço.

E chegou… 

E fingiu mais uma vez não sentir, pois não tinha escolha. 

Recomeçou, recomeçou a passos lentos, sem afagos ou palavras bonitas, por vezes em silêncio, por vezes culpando o mundo, mas nunca sozinha. 

Nunca.

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